Estreou ontem o primeiro episódio de Vladimir, na Netflix, com um bom elenco e uma premissa que, não sendo propriamente original, pelo menos era intrigante. No entanto, fiquei um pouco desiludido com este início. Algumas escolhas de argumento e de realização são duvidosas. Nem sempre é fácil executar bem o quebrar da quarta parede e aqui parece pouco natural e até excessivo o número de vezes que optam por fazê-lo.
Para lá disso, o próprio argumento não é particularmente inspirado. Os diálogos até são interessantes, o que já seria de esperar tendo em conta que a história gira em torno de docentes e alunos numa universidade. A protagonista, Rachel Weisz, interpreta uma professora de literatura, portanto as referências estão lá. Elevam um pouco o tom. Mas depois a série parece incapaz de se libertar dessas amarras e assumir plenamente o que quer ser.
E isso seria perfeitamente aceitável, porque nem tudo tem de ser elevado. Até professores sucumbem a desejos e atos mundanos. Uns em privado, outros nem tanto. O problema é que a série não vai até ao fim dessa ambiguidade. Sugere mais do que mostra. Fica sempre no “quase”. Nada como ver uma personagem a falar de Virginia Woolf numa cena e na seguinte mergulhar num ato tórrido de sexo. Essa tensão entre o intelectual e o instintivo poderia ser interessante. Mas a série não se assume totalmente pudica, nem consegue ser verdadeiramente carnal.
Fica num limbo. Não é bem uma sátira, não é bem um thriller erótico, não é bem nada. É um pouco de tudo e, paradoxalmente, pouco de cada coisa.
Talvez o elemento mais interessante seja o choque de perspetivas: o pensamento de pessoas de uma geração mais velha confrontado com os mesmos comportamentos vistos pela lente da Gen Z e pela cultura do cancelamento. Aqui a série até assume uma posição relativamente clara e sem grande medo. E tendo em conta que a protagonista pertence a uma geração anterior, essa escolha faz sentido.
Portanto, sendo sincero, a série não despertou muito em mim até agora, mas como os episódios são curtos, talvez ainda veja mais um. Pode ser que as amarras se soltem. Ou então que a série continue agrilhoada a tentar ser aquilo que, na prática, nunca chega realmente a ser.
Este primeiro episódio de Vladimir e a restante temporada já se encontram disponíveis na Netflix.