The Beauty, a nova série de Ryan Murphy que estreou ontem no Disney+, é daquelas que entram cheias de promessas e brilho, mas rapidamente mostram que há mais espelho do que profundidade. Visualmente é bonita, polida, cheia daquela estética que já se tornou marca registada de Murphy. O problema é que, mais uma vez, a forma acaba por engolir o conteúdo.
A temática, essa sim, é interessante e muito atual. Vem claramente na onda de filmes como The Substance, com um bocadinho de It Follows (um clássico do género de terror) e da pergunta que anda no ar há algum tempo. Até onde é que estamos dispostos a ir para sermos bonitos? Ou, na realidade, para sermos aceites? Que beleza é esta que a sociedade impõe como norma e que nos promete validação e até identidade? Quando a série para para pensar nisto, quando questiona essa necessidade quase desesperada de aprovação externa, é quando realmente funciona. Esses são, de longe, os momentos mais fortes do primeiro episódio de The Beauty.
O problema é que não demora muito até tudo começar a revelar a verdadeira cara. A estética típica de Ryan Murphy, sobretudo das últimas fases de American Horror Story, já começa a soar repetitiva. Aqui tenta ser sofisticada, o que até faria algum sentido tendo em conta o tema, mas acaba por parecer forçada. Os diálogos soam muitas vezes artificiais, as coreografias parecem exageradas e nem os momentos mais gráficos conseguem ter o impacto que claramente pretendem.
O conceito está lá. A beleza à superfície e a fealdade, a crueldade e o vazio que se escondem por trás. Mas nada encaixa verdadeiramente. A série parece uma manta de retalhos, cheia de ideias soltas que não se ligam bem entre si. Quer ser profunda, mas fica pela pose. Quer ser visceral, mas já não atinge o choque emocional que Murphy conseguiu noutros tempos, como em Asylum ou Freak Show, onde o exagero tinha alma e propósito.
Curiosamente, a parte mais interessante acaba por ser a investigação em torno das mortes. É o único elemento que realmente cria curiosidade e dá vontade de continuar a ver para perceber onde isto vai dar. De resto, nem as boas atuações de Evan Peters e Rebecca Hall conseguem salvar uma série que não é um desastre, mas que também nunca sai da mediocridade confortável.
No fim, o primeiro episódio de The Beauty fala muito sobre procedimentos estéticos, mas talvez fosse a primeira a precisar de um: puxar um bocadinho aqui e ali, para ficar mais atrativa. Tendo dito isto, talvez veja pelo menos mais um, pelo mistério em si, que de facto aguçou alguma curiosidade.
Os três primeiros episódios de The Beauty já se encontram disponíveis no Disney+, seguindo-se um novo episódio às quartas-feiras e dois episódios por semana nas duas semanas finais.