A 3.ª temporada de Foundation, da Apple TV+, é o que se pode chamar televisão de altíssima qualidade. Sou um fã acérrimo desta série, é talvez a minha preferida entre as que ainda estão em exibição (a par de Stranger Things), e esta nova temporada veio provar-me mais uma vez porquê. Adorei a primeira, achei a segunda um pouco abaixo, mas mesmo assim muito acima da média, e nesta voltamos à boa forma – se não melhor.
Foundation é uma série completa. Apesar de ser feita de várias partes, a soma delas cria um todo extremamente envolvente e apelativo. Baseia-se num universo rico, com personagens que evoluem constantemente, um argumento sólido que roça a perfeição em alguns momentos e diálogos inspirados. É curioso que, sendo uma série sobre previsibilidade, acabe por ser surpreendente, como se viu ao longo destas temporadas.
Toda a trama dos imperadores em Trantor foi fascinante. Os saltos temporais entre temporadas obrigam à introdução de novas versões e apesar de serem espelhos uns dos outros, cada iteração traz sempre algo de novo. Nesta temporada cortaram as amarras e vimos o trio como nunca antes. Foi de longe a versão mais interessante, bem afastada dos primeiros clones, e ainda bem. Cada um teve o seu momento de ruptura e surpresa. O Irmão Day (Lee Pace) foi o mais inesperado de todos: completamente oposto aos seus antecessores, levou ao que considero talvez o arco mais surpreendente desta fase. Não estava à espera que a história de Demerzel (Laura Birn) desse uma reviravolta tão bem conseguida. Ao vê-la, lembrei-me de Battlestar Galactica, uma das minhas séries preferidas, e houve ali um sabor de continuação espiritual. O desfecho deste enredo deixou-me ainda mais curioso para o que vem a seguir.
Já a narrativa de Mule (Pilou Asbæk), o grande vilão, esperado desde a temporada passada, foi construída com cuidado para culminar aqui. E que vilão! Desde o primeiro instante mostrou ao que vinha, mergulhando numa espiral de loucura bem orquestrada. As manobras e contramanobras entre ele e a Segunda Fundação foram brilhantes, com reviravoltas bem conseguidas. No entanto, confesso que a revelação final relacionada com este enredo, embora inesperada, não teve o impacto que eu imaginava. Fiquei na dúvida se foi porque ainda não vimos a verdadeira amplitude do que significa ou se foi mesmo uma revelação frágil. Seja como for, é o único ponto menos bem conseguido – nem me atrevo a chamar negativo – nesta temporada.
De resto, tudo manteve o nível magistral: a banda sonora épica, os efeitos visuais impressionantes, a qualidade de produção irrepreensível. A Apple sabe fazer televisão e tem aqui, para mim, com Foundation, o seu ex-líbris. Esta temporada foi o culminar de anos de construção: muitas pontas abertas nos primeiros episódios tiveram agora os seus nós. A expectativa era alta, porque tudo tinha – ou deveria – de ser resolvido, para não arrastar tudo eternamente e, no geral superou o que eu previa, mesmo sem Prime Radiant.
Antes da estreia pensei várias vezes que esperava que fechassem os arcos agora, porque não sendo a série mais badalada, nomeada para rios de prémios, e tendo em conta o custo de produção, ter chegado à 3.ª temporada já era quase um milagre (talvez pelo choque que também tive com o cancelamento de The Wheel of Time). Se fosse cancelada, pelo menos teria um fim satisfatório. E quando estava a ver o último episódio, depois desta jornada épica, pensei: “Ok, estão a encerrar tudo, se calhar até é melhor ficar por aqui.” Mas com a revelação final, a vontade de ver o que vem a seguir só aumentou. Ainda mais porque, a partir de agora, a história vai para além das previsões de Hari Seldon (Jared Harris), explorando territórios totalmente novos. A última cena deixa isso bem claro, e que cena! E então, parecendo ouvir os meus pensamentos, felizmente a série foi renovada para uma 4.ª temporada ontem. Por isso, só me resta dizer: vê Foundation. É uma jornada que merece ser acompanhada!
O último episódio da 3.ª temporada de Foundation estreou hoje na Apple TV+, onde já estão disponíveis todos os restantes episódios da série.
Melhor episódio:
Episódio 10 – The Darkness – O episódio 10 desta temporada de Foundation foi, para mim, o ponto alto da série. Não digo isto por ser necessariamente o melhor em termos absolutos, até porque a qualidade dos episódios se manteve sempre muito elevada, mas porque foi nele que assistimos à conclusão de vários arcos narrativos construídos desde o primeiro episódio. Foi o culminar de uma era e, ao mesmo tempo, a abertura para caminhos maravilhosos que a série ainda pode explorar.
Personagem de destaque:
Demerzel (Laura Birn) – A personagem em maior destaque – talvez não em importância, pois haveria outras se calhar mais preponderantes na história – foi Demerzel, pois o enredo foi inesperado e profundo e, para mim, consolidou-se como um dos mais marcantes. Já vinha a ganhar força desde a 2.ª temporada, mas aqui atingiu um patamar acima. É impressionante como uma personagem robótica conseguiu transmitir tantos sentimentos humanos e, no processo, dar corpo talvez à revelação mais surpreendente de todas.