A 3.ª e última temporada de Squid Game, da Netflix, é feita de altos e baixos, mas acaba por se redimir na reta final, oferecendo pelo menos um desfecho digno. Tendo em conta a 2.ª temporada, já não é pouco. Mas vamos por partes.
Os dois primeiros episódios mantêm o tom morno com que a temporada anterior terminou: arrastados, por vezes até a roçar o aborrecido. Tal como já tinham feito antes, livram-se sem apelo nem agravo das personagens mais interessantes e insistem nessa tendência, o que fragiliza ainda mais o arranque. Os jogos, que tinham sido o ponto alto das temporadas anteriores, aqui começam com um dos piores de toda a série. Falta tensão, criatividade e nem o acontecimento muito esperado que ali acontece chega para compensar a apatia do protagonista, interpretado por Lee Jung-jae, cada vez mais desligado de tudo.
Felizmente, esse momento marca uma viragem. A série reencontra algum do espírito da 1.ª temporada e os episódios seguintes mostram um jogo com implicações mais profundas, que nos fazem refletir sobre a condição humana. O título do último episódio é precisamente esse, e com razão. Squid Game foi pensada desde o início como uma crítica feroz ao capitalismo e à forma como tudo, incluindo a dignidade humana, se submete ao dinheiro. Aqui, a vida está literalmente em jogo. Quando as personagens deixam de ser caricaturas de vilania gratuita e passam a ser tratadas como pessoas, com dilemas e contradições reais, é quando a série atinge o seu melhor.
Essa reflexão sobre os limites da humanidade é cada vez mais atual num mundo que se fecha sobre si mesmo. E lições de empatia pelo próximo continuam a ser urgentes. Ainda assim, não deixa de ser algo preguiçoso que duas das três ações principais da temporada se centrem no mesmo tema: crianças em perigo. É sempre mais fácil gerar empatia dessa forma, mas talvez por isso mesmo se exigisse mais ousadia e originalidade.
Como ponto mais negativo talvez seja o facto de as tramas paralelas pouco acrescentarem. Não têm grande impacto no desfecho, embora se toquem eventualmente, claro, mas acabam por funcionar apenas como momentos de pausa em relação aos jogos que, felizmente, vão ganhando ritmo e complexidade. Até ao segundo episódio vi com esforço, confesso, mas os últimos quatro vi de seguida, sem conseguir parar.
Em resumo, não é uma temporada brilhante nem atinge o nível da primeira, mas é muito superior à segunda. O final deixa uma sensação de satisfação. Só lamento que os VIPs tenham escapado sem castigo. Tiveram cada vez mais destaque, tornaram-se mais irritantes e não houve qualquer consequência. Mas talvez seja também esse o ponto. O capitalismo não é justo, a vida também não e, nesse sentido, a série foi coerente até ao fim. A última cena foi uma ótima surpresa, inesperada, e fecha a série com um toque final muito bem conseguido.
Todos os seis episódios desta 3.ª e última temporada de Squid Game já se encontram disponíveis na Netflix
Melhor episódio:
○△□ (Episódio 5) – Os três arcos principais da temporada têm aqui um desenvolvimento importante e cheio de significado, com uma tensão que se mantém do início ao fim. É neste episódio que finalmente começa a cheirar a fim, cada linha narrativa avança de forma decisiva com a combinação destes três caminhos que criam uns momentos intensos, nos agarram e preparam para o desfecho que se aproxima.
Personagem de destaque:
222 – Merece, sem dúvida, uma menção muito especial. Nunca uma figura sem uma única fala, sem qualquer cena dedicada própria, teve um papel tão decisivo numa série. É a sua simples existência que faz desmoronar certezas, que perturba a lógica fria do jogo e obriga as restantes peças a movimentarem-se. Sem gestos, sem palavras, consegue ser o catalisador de tudo o que vem a seguir.