Como fã assíduo tanto de cinema como de televisão, cheguei a uma altura da minha vida em que consigo dizer que tenho, claramente, uma preferência das duas vertentes da 7ª Arte.

Durante muitos anos fui defensor daquela teoria (e ainda hoje me arrependo disso) de que um filme tinha princípio, meio e fim e que as séries de televisão eram basicamente um ciclo vicioso de histórias repetidas e sem interesse. Assim que me fui deparando com os preços em constante subida dos bilhetes de cinema, pensei para mim: “Bem, vamos lá dar uma vista de olhos no que é realmente uma série de televisão”. O resultado foi extraordinário e o primeiro contacto que tive (para além do Anjo Selvagem na TVI que foi mais trauma que proveito) foi Game of Thrones. O universo fantástico de George R.R. Martin que capta influências de J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis é um forte, visceral e entusiasmante primeiro contacto com o mundo televisivo; tinha características que, pensava eu, serem exclusivas do mundo de O Senhor dos Anéis, mas havia algo mais que me captava a atenção… não conseguia decidir bem o que era, se as personagens, os cenários, as temáticas, ou o enredo, até que me apercebi que era um pouco de tudo.

Hollywood, sendo a maior potência cinematográfica nos dias de hoje, é uma ambiciosa máquina de faturação que, sinceramente, já viu melhores dias. Nota-se nitidamente que está a ter uma crise de ideias (salvo raras excepções) em que a quantidade que produz transcende a qualidade dos seus produtos finais. Quando vou ao cinema, selecciono bem o que vou ver, aposto sempre naqueles filmes que me parecem ter o selo de qualidade mas isto pode ser um tiro no escuro e, inclusive, já tive desilusões. Isto também acontece na televisão, tanto existem séries com qualidade como não, mas a televisão tem uma vantagem: a quantidade, neste caso, alia-se à qualidade. O crescente número de séries televisivas aumenta o leque de escolha do espectador; claro que nem todas são boas, mas há sempre esperança de melhorias, porque há sempre um instinto que nos diz que os capítulos que se seguem são melhores.

Mas vamos falar de qualidade. Ao contrário do cinema, as equipas televisivas têm um grande trunfo que usam sempre para tornar as temporadas mais emocionantes: as personagens. Há uma personagem para tudo e ao assistir a uma série vamos conhecendo-as episódio a episódio, o que cria, renova e evidencia a sua personalidade e carácter levando o espectador a criar uma empatia/ desdém acrescida/o por elas. Há um maior cuidado e premeditação na criação das personagens, sendo que no cinema (seja um filme longo ou curto) há um limite de tempo para a construção dos intervenientes. Não há nenhum Sheldon Cooper, nenhuma Khaleesi, nenhum Daryl Dixon ou Frank Gallagher que não conheçamos de ginjeira e ao longo de todas as temporadas vamos conhecendo facetas deles que pensávamos não existir. Resumindo, há tempo e mais tempo para o detalhe quando se filma uma série.

No argumento o caso pode ser dividido e não irei explorar muito isto devido à vasta quantidade de géneros mas irei salientar a criatividade argumentativa. A premissa inicial de uma série televisiva tem que ser apelativa, sólida e duradoura; sem estes três valores, não se chega a lado nenhum. No cinema, o argumento não é espelhado em episódios, mas em cenas de maior duração, ninguém se consegue esquecer das grandes batalhas de O Senhor dos Anéis, das aulas magníficas de Harry Potter nem da emocionante cena final de 12 Anos Escravo. Mas também ninguém se esquece do lugar cativo de Sheldon no sofá de The Big Bang Theory, das imensas tartes comidas por Dean Winchester em Supernatural, nem das dívidas pagas pelos Lannisters em Game of Thrones; a televisão providencia muito mais do que um filme, tendo margem para manobra no que toca à repetição, realce e adaptação de cenas icónicas e emblemáticas que vão surgindo ao longo das temporadas e que se tornam inesquecíveis.

O cinema já viu melhores dias e não é por nada que se tem verificado um decréscimo nas salas mas, entre mil e um fatores, podemos destacar que um deles é a falta de selo de qualidade. Sei que a 7ª Arte é susceptível de vários gostos, interpretações, opiniões e isso, realmente, não se discute.

Postos estes dois aspectos, não há nada melhor do que estar a relaxar no sofá e a conhecer tão brilhantes, sedutoras e peculiares personagens que nos ficam muito mais tempo na memória porque todas (ou quase todas) as semanas voltamos a vê-las. Não se gasta dinheiro em pipocas, porque as podemos fazer em casa, não se perde tempo em filas, nem se tem de aturar os casais na marmelada e a conversarem sobre o que vão fazer a seguir em voz alta. A televisão chegou para ficar e eu vou ficar com ela também. Não deixo a minha paixão pelo cinema, mas agora tenho a amante televisiva e, para já, está a ser uma experiência inesquecível.

Jorge Lestre