Classificação

6
Interpretação
4.5
Argumento
6.5
Realização
6
Banda Sonora

Aviso: Se ainda não viram Cursed e querem uma opinião do primeiro episódio, aconselho-vos a espreitarem a review do primeiro episódio da 1.ª temporada aqui.

Temporada: 1

Número de episódios: 10

[Contém spoilers]

Uma das estreias mais esperadas de 2020 da Netflix era esta 1.ª temporada de Cursed, que trazia Katherine Langford de volta ao pequeno ecrã após ter feito um brilharete a interpretar Hanna Baker em 13 Reasons Why (a controversa série que aborda o tema do suicídio, também da Netflix) e fazia renascer (mais uma vez) a lenda do Rei Arthur.

Desta vez a Netflix baseou-se numa obra de Thomas Wheeler com o mesmo nome. Confesso que o meu entusiasmo decresceu um pouco quando vi que o livro só tinha a cotação de 3.2/5 na rede social Goodreads. Portanto, ou a Netflix engrandecia os livros ou seguia a mesma linha e era desastre certo.

Eu adoro a lenda do Rei Arthur. Li As Brumas de Avalon, estou quase no final da trilogia Senhores da Guerra de Bernard Cornwell e era e sou super fã da série da BBC Merlin. Portanto, nem imaginam o meu entusiasmo quando eu vi que iam fazer uma prequel, mas deste vez com Nimue, a Senhora do Lago, como personagem principal. Sabe-se que a história da mítica Senhora do Lago é trágica e quem melhor do que Katherine Langford para assumir esse papel?

Adorava poder dizer que tenho uma nova série arturiana para me encantar. Não podia estar mais longe da verdade. A Netflix errou em praticamente todos os aspetos na conceção de Cursed. Primeiro toda a gente sabe que cada vez que sai uma série de fantasia, o mundo vai invariavelmente compará-la com Game of Thrones. Aconteceu com His Dark Materials, com The Witcher… Claro que nenhuma delas chegou sequer aos calcanhares da série épica da HBO. E a 1.ª temporada de Cursed é capaz de ficar no fundo da cadeia alimentar como concorrente da “próxima Game of Thrones“.

Sei que estou a descarregar muito ódio, mas como a fã de uma lenda tão maravilhosa sinto-me traída, porque apesar de a Netflix ter muito lixo, tem algumas das melhores séries da atualidade. Pena que Cursed não seja uma delas.

Para quem não sabe, Nimue é famosa na lenda do Rei Arthur por ter sido ela a dar-lhe Excalibur. No entanto, ela é descrita e possui papéis diferentes nas diversas adaptações literárias, televisivas e cinematográficas. De tudo o que já li e vi do rei Arthur, Nimue tem sempre papéis diferentes na história.

Não há como negar, e por muito que a série seja fraca, que Katherine Langford foi a escolha certa para o papel. Ela tem toda uma aura trágica à sua volta e é uma excelente atriz. Nimue foi, durante toda a sua vida, desprezada, menosprezada e atacada por ser… diferente. Isto confundiu-me imenso durante todo o primeiro episódio, porque “fey” vem de fada. Os cristãos odeiam os fey por “não serem humanos”, então o que tinha de tão estranho haver uma rapariga com poderes mágicos? Merlin tinha poderes e era conselheiro do próprio rei e não era desprezado. É um bocado ridículo terem transformado Nimue numa mártir, odiada pelos seus (ao início, claro) e pelos inimigos. Abandonada pelo próprio pai (que nem era pai, mas enfim).

A aventura de Nimue começa depois de os Paladinos Vermelhos (os cristãos) terem destruído a sua aldeia e morto a sua gente, incluindo a mãe. É no meio dessa tragédia que a mãe, nos últimos momentos de vida, lhe dá a Espada do Poder (sim, usar Excalibur é que não, porque ninguém sabe que espada era aquela então resolveram criar “suspense”) e pede-lhe que a leve a Merlin.

Eu sei que Nimue não é suposto ser guerreira, mas posso dizer que era triste de ver cada vez que a rapariga usava a espada? Excalibur era enorme, então os movimentos eram muito estranhos. Aliás, cada vez que havia lutas e sangue eu sentia vergonha alheia de tão maus que eram aqueles efeitos especiais. O sangue era claramente água com o corante que se usa para fazer bolo red velvet. Então, Netflix? O orçamento foi todo para The Witcher?

Uma das coisas que mais me chateou foi a quantidade de coisas que aconteciam durante os episódios. Cada episódio tem quase UMA HORA, está cheia de acontecimentos e acreditam que mesmo assim eu me aborrecia? Eu não sou daquelas pessoas que vê séries ao mesmo tempo que mexe ao telemóvel, porque eu vejo séries porque adoro, é como mais gosto de passar o meu tempo livre. Portanto é grave que eu tenha ido tanta vez ver o Instagram enquanto via a série.

Porque realmente acontece de tudo e mais alguma coisa. Nimue chega a um abrigo em que estão os últimos fey que não foram mortos pelos Paladinos, eles andam sempre de um lado para o outro, Uther é levado para a guerra quando o rei Cumber chega do leste e reclama o trono como seu, defendendo que é o herdeiro legítimo do trono, Merlin e os Paladinos Vermelhos andam sempre a saltar entre os reis porque os mesmos estão constantemente a mudar de ideias, depois há uma Red Spear que é contra o rei Cumber e uma pessoa fica meio confusa porque não sabemos muito bem como é que choveu esta gente vinda do leste e como é que ainda os enfiaram numa temporada já saturada de personagens e história. A primeira temporada de Cursed devia ser sobre a emancipação de Nimue e a luta dos fey contra os Paladinos. Apenas e só.

Já falei dos efeitos especiais pavorosos? Volto a falar outra vez. E aproveito e digo que aquelas animações muito aleatórias a meio dos episódios eram muito chatinhas e nunca pararam de me incomodar ao longo da temporada.

Agora os personagens. Muitos foram os personagens da lenda que foram aparecendo ao longo da temporada. Claro que Arthur deu logo o ar da sua graça no primeiro episódio. Confesso que fiquei meio confusa com ele. Okay, Arthur é bastardo de Uther na lenda mas aqui… até agora nada parece provar que os dois tenham algum parentesco. Tanto que Arthur aqui é um “macho beta”. Não gostei muito da performance do ator, ficou um pouco aquém das expetativas para um personagem tão icónico. Já Morgana é bem mais interessante, apesar de a sua história mais para o final com a sua amante falecida tenha sido bastante confusa e deveras desnecessária. O Padre Cadarn foi, sem dúvida, o grande vilão. Extremamente odioso e cruel. Assim como a pequena Iris, que tem toda a pinta de ser psicopata de tão assustadora que é para uma criança. Pym e Percival foram os personagens que mais gostei, que, apesar de secundários, foram mais marcantes que alguns dos protagonistas. Depois foram aparecendo os famosos guerreiros da Távola Redonda, Gawain, Lancelot e Percival. O facto de o Monge Choroso ser Lancelot deixou-me bem surpreendida, apesar de a série dar a entender que ele ia ter um papel importante na história. Fiquei sem entender bem qual era a relação dele com Gawain mas chegou a uma altura na história em que já tudo me irritava. Uther parecia um menino mimado sinceramente muitas vezes ainda me ria com as maneiras dele, de estar, de falar, do que dizia. Fiquei agradada pela maneira como lidou com o facto de ser bastardo.

Por fim, Merlin. Santa paciência, mas como assim Merlin não tem poderes? Como é que TODA a gente naquela série só parece ter poderes quando tem aquela maldita espada? Como é possível Merlin, (fucking Merlin) não ter poderes? E mais! Como é possível o feiticeiro do rei passar décadas a aconselhar o rei sem ter poderes mágicos! Ele perdeu os poderes antes de conceber Nimue portanto já lá vão uns bons aninhos. Ridículo. No entanto, adorei a interpretação de Gustaf Skarsgard no papel do lendário mágico apesar de a história dele nesta temporada ter sido um bocado fraca – ele era dos que andavam constantemente a saltar de rei para rei. Não gostei que tivesse sido apenas um pai desesperado para salvar a filha (juro que na conversa deles já sabia que ele era pai dela antes de Merlin o confessar).

Concordo que numa história marcada pelos homens e na qual as mulheres são vilãs – Morgana é normalmente um monstro e Guinevere é uma adúltera cuja traição dita o final trágico de Arthur – é refrescante ver uma série que destaca as mulheres e as eleva. No entanto, a execução é pobre. Os personagens parecem umas baratas tontas, tudo acontece e nada acontece. Os efeitos especiais são maus.

Contudo, admito que o último episódio deixou-me intrigada e até com vontade de saber o que vem aí a seguir. As prequels  pecam, porque a malta normalmente está mais entusiasmada em saber o que acontece a seguir. Tem de ser forte. Li uma crítica que dizia que Cursed era a prequel que ninguém tinha pedido. Prequels precisam de ter o dobro do trabalho porque são menos interessantes. A lenda a sério é mil vezes melhor do que isto. E como feminista dói-me muito dizer isto.

Em suma, a 1.ª temporada de Cursed é má, mas não descarto dar uma oportunidade à segunda temporada se a série for realmente renovada. Fiquei com a pulga atrás da orelha e com uma esperança enorme que eles corrijam todas as asneiras da temporada de estreia. Continuem é a mostrar-nos as paisagens verdes inglesas maravilhosas com que nos prendaram. Amei!

Personagem de Destaque:

Nimue (Katherine Langford) –  Afinal de contas, a série é dela. Nimue é a rainha dos fey e da série. Ela é filha de Merlin, a salvadora do seu povo. Confesso que as suas atitudes me irritavam muitas vezes, mas no final ela tinha falhas, medos e defeitos. Não era perfeita, como muitas vezes personalizam os protagonistas masculinos (fontes infindáveis de bondade), mas uma pessoa real. Bem dramático e cliché o facto de ela “morrer” no final da temporada, mas estou curiosa para saber como vai ser o seu regresso.

Melhor Episódio:

Episódio 10 – The Sacrifice – Nimue sacrifica-se pelo seu povo e entrega-se a Uther, mas não sem antes entregar a espada para Morgana proteger. Ela, que andava há já uns episódios a ser assombrada por Celia, acaba por escolher o lado de Nimue, o lado da amiga. E acaba por se tornar na Viúva (pouco se sabe sobre ela ou sobre as suas origens) e veremos qual é o futuro da única personagem LGBT da série e eu temo que seja negro, infelizmente. É também aqui que os fey tentam fugir de navio, mas Cumber troca-lhes as voltas e dá-se uma batalha sangrenta, mas, sem dúvida, emocionante. Algo me diz que Red Spear é Guinevere (viram a troca de olhares entre ambos)? Afinal, ela foi a única personagem principal da lenda que não nos foi apresentada ao longo dos episódios de Cursed.

Maria Sofia Santos