Classificação

9.7
Interpretação
9.5
Argumento
9.6
Realização
9.5
Banda Sonora

Contém Spoilers!

Temporada: 3

Nº Episódios: 13

Daredevil regressa três anos depois, com a história a começar no ponto em que Matt (Charlie Cox) está a recuperar fisicamente por causa do edifício que lhe caiu em cima no final de The Defenders e essa é a primeira pista que temos sobre a timeline em que ocorre esta temporada. Matt encontra-se num estado frágil emocionalmente e com dúvidas quanto ao seu regresso à pele de Matt Murdock; o mundo é muito mais simples quando ele é “the Devil of Hell’s Kitchen”. Portanto, esta temporada começa bem, com um clima mais negro que qualquer uma das anteriores e com a promessa de Matt em como vai deixar a sua vida para trás, adotando a sua identidade como vigilante a tempo inteiro.

Esta temporada explora, acima de tudo, duas coisas. O passado das personagens e a guerra interior que Matt tem com ele próprio. Começando pelo passado, o primeiro a ser explorado na série é o de Daredevil. Matt escolheu o local onde passou a infância para repousar e recuperar as forças, sendo que escolheu é um eufemismo, tendo em conta o estado em que ele se encontrava. O local em questão era um mosteiro onde vivem vários órfãos que são criados e ensinados pelas Irmãs e pelo nosso conhecido Padre Lantom (Peter McRobbie). Quem se destaca aqui é a Irmã Maggie, com quem Matt tem uma relação surpreendentemente próxima, aberta e com quem discute a sua nova filosofia de vida.

Além de termos mais conhecimento sobre a vida de Matt após a morte do pai, também descobrimos, finalmente, o que se passou entre Karen e o irmão, que tenha levado à sua morte. E a backstory de Karen não desilude, antes pelo contrário, é um dos melhores episódios desta temporada. O enredo anda à volta do vilão que conquistou o seu lugar na 1.ª temporada, Wilson Fisk. A troco de informações priviligiadas, consegue sair da prisão e retomar o controlo, através de jogos mentais e psicológicos aliados a uma força um pouco sobre-humana, que o tornaram um vilão de primeira categoria. A personalidade de Fisk não é mudada ou compreendida a fundo, sendo que tudo o que o movia já havia sido explorado na temporada anterior. A sua presença, no entanto, serve para criar em Matt, pela primeira vez, a ideia de que tem mesmo que matar Fisk, abandonando o seu código, para proteger a cidade e os que ama.

“The only thing necessary for the triumph of evil is for a good man to do nothing”. É a ideologia que leva Matt a crer que o melhor passo é matar Wilson, mas sempre sozinho, sem pedir a ajuda de Karen (Deborah Ann Woll) ou de Foggy (Eldon Henson). Muitas discussões tem Matt com ilusões, produtos da sua mente, que ora tomam a forma de Fisk, ora tomam a forma do seu pai. No entanto, uma coisa é sempre igual, estas ilusões estão sempre a deitar Matt abaixo, porque no fundo é isso que ele sente que merece, o que o leva a, durante metade da temporada, agir como um lobo solitário. “I rather die as Daredevil, than live as Matt Murdock“.

Ao longo dos episódios tive sempre a sensação de estar ansioso para que o trio de Page, Nelson e Murdock voltasse a estar junto, mas o que é certo é que isso demora muito a acontecer, não comprometendo, no entanto, a qualidade da série. Tanto Matt como Karen já provaram ser capazes de roubar as atenções sozinhos.

Outra narrativa que se torna tão interessante que faz esquecer que o nosso trio ainda não esteve junto é a de Dex ou, como é conhecido nos comics, Bullseye. A maneira como Fisk lhe dá a volta à cabeça para destruir completamente a bússola moral que ele tinha construído com a ajuda da sua psicóloga foi arrebatadora, assim como a história de infância de Dex. Provavelmente um dos antagonistas que melhor faz frente a Daredevil, porque, sem problemas morais em matar, consegue vencê-lo repetidamente, enquanto estraga a sua reputação perante o público. Destaco, na sua participação, a cena de luta na igreja, onde Matt e Dex lutam, um com o objetivo de matar Karen, o outro de a salvar.  Um facto curioso é que na storyline mais semelhante a esta temporada de Daredevil nos comics, Karen é morta exatamente numa cena como esta, sendo que a única diferença na adaptação televisiva foi o sacrifício do Padre Lantom. O outro momento foi no final da temporada, quando Matt utiliza uma técnica semelhante à de Fisk, para lhe dar a volta à cabeça, e Dex entra num estado psicótico em que não sabe em quem confiar, criando o equivalente a um mexican standoff, uma luta tripartida entre Dex, Fisk e Matt.  A última cena de Daredevil é a única que nos dá um vislumbre sorridente de uma possível 4.ª temporada, uma vez que o resto da história foi toda a fechar o ciclo criado na primeira.

Tenho alguma pena que Matt nunca chegue a utilizar o fato nesta temporada, apenas o vemos no corpo de Dex. No entanto, tendo em conta a luta interior por que Matt estava a passar, fez sentido que o quisesse deixar para trás, voltando ao tempo em que combatia, apenas, vestido de preto e com uma máscara preta a cobrir-lhe a metade superior da cara, sem esquecer a vez em que lutou de fato e gravata e com o auxílio da sua bengala. Deixei para o fim o meu comentário à personagem que acabou por ser uma das mais importantes, Ray Nadeem, um homem bom apanhado numa tempestade de porcaria. Ray tomou um monte de decisões erradas quando as suas mãos estavam bastante atadas, tendo sido escolhido a dedo para ser manipulado. No entanto, quando chegou o momento da verdade, fez o que tinha a fazer e foi verdadeiramente um bom homem. Foggy assume um papel mais secundário dentro das personagens principais, seguindo uma linha um pouco paralela à de Karen e Matt, mas sem deixar de ser extremamente importante e o elemento que dá um toque de humor à série.

Na minha opinião, foi a melhor temporada até agora, conseguindo sempre um nível de qualidade elevadíssimo e constante. A série sempre foi um pouco dark, mas este ano deu um passo ainda maior nesse sentido e volta a provar o porquê de ser, para mim, a melhor série de super-heróis, seja de que universo for. Depois de ter havido dois cancelamentos, só espero que Daredevil não seja o próximo e que aquele vislumbre de Bullseye no final seja um sinal de que haveremos de ter uma 4.ª temporada. O final em si foi perfeito, Matt a regressar à sua vida original e Foggy a desperdiçar a sua oportunidade de ganhar imenso dinheiro para que eles e Karen possam voltar a formar uma sociedade de advogados. Mas uma coisa é certa, mesmo quando as coisas parecem bem em NY, “we need the Devil of Hell’s Kitchen”.

 

Melhor episódio: 

Episódio 9 – Neste episódio, Matt descobre quem é a sua mãe e tem uma conversa muito profunda consigo próprio, quando pensa que está a falar com Fisk e o seu pai. Ver Matt naquele estado vulnerável permite-nos perceber o porquê de muitas das decisões que toma e apreciar verdadeiramente o que se segue a seguir. Quase que ficamos com a ideia de que Matt se odeia e a única forma de conseguir viver com isso é assumindo a identidade de Daredevil, algo que contrasta muito com a sua maneira de pensar no final, quando diz que há muita gente que vive por causa do que ele faz. Havia muitas cenas mais impressionantes noutros episódios, como por exemplo a luta dentro da prisão ou o confronto final, mas esta luta interior é, para mim o que torna esta temporada absolutamente brilhante.

Personagem de destaque:

Karen Page – Karen sempre foi uma personagem forte, mas o que descobrimos sobre o seu passado e o seu papel involuntário na morte do irmão só torna mais impressionante tudo o que ela conseguiu ultrapassar para chegar aonde está e o facto de conseguir lidar com o que lhe aconteceu, desde ter sido despedida, até fazer frente a Fisk, revelando-lhe que foi ela que matou o seu amigo, e recusar-se a abandonar Matt quando este a estava a empurrar para fora da sua vida. Matt Murdock é quem veste o fato e combate o crime, mas Karen é a verdadeira heroína desta temporada.

Raul Araújo