A nova série Half Man, que estreou ontem na HBO Max, confirma desde o primeiro episódio que Richard Gadd está a consolidar uma identidade muito própria, já evidente em Baby Reindeer. Há aqui o mesmo desconforto latente e a mesma recusa em oferecer respostas fáceis, optando antes por nos envolver num território emocionalmente ambíguo.
A narrativa centra-se em dois irmãos “emprestados” e na relação que constroem ao longo do tempo. Somos introduzidos no presente através de uma situação estranha, quase desconcertante, onde pouco ou nada é explicado. A partir daí, o episódio recua e desenvolve-se em memórias, revelando aos poucos como essa ligação começou. Esses vislumbres funcionam como peças que se vão encaixando, mas nunca de forma totalmente confortável, iluminando gradualmente os contornos mais sinistros do presente.
O mais marcante é a forma como a relação entre os dois escapa a qualquer definição simples. Não é apenas familiar, nem apenas amorosa ou sexual. Existe uma tensão constante a vários níveis, que oscila entre proximidade e inquietação. A série aborda temas como masculinidade tóxica e relações disfuncionais entre homens com uma frontalidade pouco comum, o que contribui para uma estranheza persistente. Essa sensação torna-se frequentemente desconfortável de assistir, talvez precisamente porque raramente vemos os bastidores deste tipo de dinâmica expostos desta forma.
Gadd volta a privilegiar o desenvolvimento psicológico, construindo personagens densas através de silêncios, olhares e momentos de suspensão. Há uma atenção clara ao não dito, onde os espaços vazios carregam tanto peso quanto os diálogos, embora estes também sejam muito bem escritos. Aliás, o argumento no geral está muito bem construído, as situações bizarras acontecem sem nada o fazer prever, o que contribui claramente para nos prender, pois nunca sabemos bem o que pode vir de quem. A realização acompanha essa abordagem com um registo contido, quase frio, que reforça o distanciamento.
Os dois protagonistas apresentam atitudes opostas, mas acabam por se aproximar de uma forma inesperada e profundamente perturbadora. Essa aproximação nunca é totalmente confortável de acompanhar, mantendo sempre uma sensação de tensão latente, como se estivéssemos a observar algo demasiado íntimo para ser plenamente compreendido de fora.
O resultado é um episódio exigente e, por vezes, difícil de ver, mas do qual é impossível desviar o olhar. Mais do que oferecer respostas, funciona como um convite estranho e inquietante para mergulhar numa história que se constrói lentamente, deixando no ar uma necessidade quase compulsiva de perceber como tudo começou e até onde poderá ir.
O primeiro episódio de Half Man já está disponível na HBO Max. Os restantes cinco sairão semanalmente.