[Contém spoilers]

Agora que a temporada acabou, já podemos analisar as decisões tomadas e arcos explorados, sem expectativas ou ilusões. One World, One People é o laço do presente e o prego no caixão de The Falcon and the Winter Soldier, perdão, Captain America and The Winter Soldier. Perdão, Captain America and Bucky!

Flag Smashers

Bom, não tenho mais a acrescentar para além do que disse anteriormente. Karli (Erin Kellyman) e companhia acabam como viveram, de forma inglória. Não se percebe a relutância de Sam em lutar com Karli, mas desancar os restantes membros não há problema nenhum! Não se percebe porque é que Sam não é confrontado com a decisão moral de matar ou poupar Karli; ao invés, temos um tiro de Sharon que o livra dessa oportunidade. Não se percebe qual seria o plano sequer. Raptar os membros da GRC para exigir mudança de políticas? O que impediria que fossem mudadas novamente depois? Karli é um terrível tiro ao lado em termos de construção de uma personagem.

John Walker

Portanto, o maior antagonista da temporada (Wyatt Russell), o homem que absorveu tempo de antena que rivaliza com as personagens que dão nome à série, é remetido para três momentos no finale: a hipótese de redenção (mostrando que, no fundo, a sua viagem de bom para vilão não faz sentido); uma cena de piada com Bucky, Bucky que considera o escudo parte da sua família e que o viu cheio de sangue no episódio anterior nas mãos de John; o nascimento de U.S. Agent, um agente ambíguo que nem cimenta a transformação de John, nem o coloca num possível trajeto de redenção total. Balanço? Neutro.

Sam

De todas as personagens foi a que mais ganhou com toda a temporada. Não só Anthony Mackie esteve muito bem em todos os aspetos, como há um arco com início, meio e fim. A frase “O meu único poder é acreditar que conseguimos fazer melhor” é mais uma marcante e absolutamente fundamental para a sua transformação. Sim, Steve Rogers é um supersoldado, mas o que fez dele Capitão América foi a personalidade e o idealismo de que vale a pena lutar por um mundo melhor. Sam não é Capitão porque tem um escudo, é o Capitão porque dá continuação à mensagem de Steve.

Satisfatória é também a história de Isaiah (Carl Lumbly), que acaba por ter o reconhecimento que merece. Não só serve para mostrar que Sam é mesmo um homem de palavra, mas acaba por ser um patrocínio à ideia de recompensa que a América precisa de fazer com os seus maiores pecados. A temática mais séria da temporada, o racismo, acaba por ser outra grande vencedora nestes seis episódios.

Bucky

É quase criminoso o desfecho do arco de Barnes. A luta de Sam contra um helicóptero teve mais tempo de ecrã que o pedido de desculpas a Yori Nakashima (Ken Takemoto). De que serve ter um ator como Sebastian Stan e não o deixar “voar”? A única coisa positiva que podemos tirar é que depois deste episódio, Bucky tem a tela limpa e pode ser e ir para onde quiser. Veremos que futuro terá no Universo Marvel. Não se percebe, no entanto, porque é que Sam deixa de ser Falcon, mas Bucky continua a ser o Winter Soldier, no que ao nome da série diz respeito…

Sharon

A surpresa de Sharon (Emily VanCamp) ser a Power Broker deve ser o segredo menos bem guardado da história dos mistérios. A “revelação” guardada para o final deixa-me dividido: será que os produtores pensaram que o público era tão estúpido que não ia chegar lá ou queriam lançar o arco da personagem e não sabiam como? O que interessa agora é que ela ou é um Skrull ou trabalha para Val (Julia Louis-Dreyfus) ou trabalha para si própria… Ah, não, espera, não interessa por aí além, não! Talvez o que mais me interessa questionar é: como é que Bucky conseguiu um perdão após cometer tanto homicídio como Winter Soldier e Sharon, neta de Peggy, agente dos Estados Unidos, só conseguiu agora um perdão porque o “homem” pediu ao governo? Honestamente, espero que ela esteja apenas a trabalhar para a vingança e motivos pessoais e que faça toda a gente pagar pelo abandono.

Geral

Relendo o texto até ao momento percebo que estou a “descascar” mais no episódio/temporada do que se calhar ela merecia. Embora ao nível da temática séria e evolução dos personagens principais tenha havido um fio condutor, a série não vingou em muito mais. Uma das questões que se punha no Universo Cinematográfico era de que modo conseguiriam construir antagonistas se tivessem mais que duas horas para o fazer. A verdade é que a temporada teve cinco (John Walker, Zemo, Karli, Sharon e Val) e o sumo é quase nulo. Entre não sabermos nada deles, serem desinteressantes ou terem sido completamente ignorados quando o enredo assim o exigia, todos sofreram de algum mal.

WandaVision pode não ter sido incrivelmente revolucionária no que à fórmula Marvel diz respeito, mas pelo menos a execução foi original. Houve um fator que suscitou curiosidade durante a temporada. Esta parece simplesmente um filme que alguém esticou, cometendo os mesmos crimes e rezando para que não reparássemos nos buracos, dando-nos cenas de ação marteladas nos episódios. Não consigo deixar de pensar que houve falta de coragem e/ou engenho para ser original e explorar novas avenidas. É super irónico que os momentos finais deste One World, One People recorra às imagens com música de fundo, quando sempre fez um alto esforço para dizer em vez de mostrar. Em suma, a melhor maneira que tenho para descrever esta série temporada é: entretém, mas será facilmente esquecida.

Fala-se que haverá um Capitão América 4, com o criador da série. O mesmo produtor que escreveu este final. Eu não me sinto nada otimista, sinceramente.

Melhor:
– “I thought Captain America was on the moon.” A piada recorrente da temporada é boa… mas agora a sério, onde está Steve Rogers?

Pior:
– Percebo a simbologia de a primeira batalha de Sam ser com Batroc, mas o que dizer do seu futuro como líder avenger quando nem um humano normal consegue vencer e é obrigado a fugir? Há uma cena em que um usa uma cadeira e o outro o escudo de vibranium e ambos caem…
– Eu sei que Sam voa muito rápido, mas mal sai do oceano está seco?
– Estúpido o uso de máscaras pelos Flag Smashers neste final. Mas há alguém que não os conheça ainda?
– Como é que Walker sabia que Karli ia estar em Nova Iorque?
– Durante todo aquele confronto nas ruas de Nova Iorque, onde está a polícia?
– Nunca na vida senadores falariam daqueles temas no meio da rua em frente de jornalistas!

Vítor Rodrigues