Acabei ontem de ver a minissérie O Deus das Moscas (Lord of the Flies), que foi transmitida pelo AXN, e é uma ode ao desconforto. Desconforto a vários níveis: visual, sonoro e, sobretudo, emocional.
Convém dizer que nunca li o livro, mas já tinha sido exposto à história, ainda sem saber que se baseava num livro tão conhecido. Lembro-me de, ainda adolescente, me ter deparado com o filme de 1990 sobre uns miúdos perdidos numa ilha, já de madrugada, na televisão nacional, e de ter ficado a pensar nele. Sinceramente, ainda hoje tenho na cabeça a imagem da morte de uma das personagens, que nunca mais de lá saiu, embora a história em si já se tivesse desvanecido com o tempo. Foi precisamente por isso que decidi revisitá-la agora, já com outra idade e sabendo que era baseada num clássico contemporâneo.
A série foi filmada quase como se fosse um filme de autor, muito diferente do filme que recordava, que era mais linear nesse aspeto. Aqui há imagens poderosas e uma componente sonora muito marcante. Para ser sincero, no início achei tudo isto um pouco desconexo. Parecia que aquilo que estávamos a ver e a ouvir não batia certo. Passávamos de imagens lindas e dinâmicas da natureza para composições visuais bizarras e estilizadas, de sons do mar e do vento para música alegre e, de repente, para temas cortantes e inquietantes. Nos primeiros minutos, isso acabou por desestabilizar a experiência que eu esperava ter, até pela memória que guardava do filme e da forma como este me tinha prendido desde o início.
Mas à medida que o primeiro episódio se foi desenrolando e quanto mais mergulhava nas personagens e na sua envolvência, mais sentido tudo aquilo começou a fazer. A série não é suposto ser bonita, nem quer ser. Não é suposto ser um passeio no parque. Foi desenhada, pensada, escrita e filmada para nos deixar desconfortáveis a cada passo da jornada daqueles rapazes. E, depois de assimilar e abraçar essa estranheza, tudo passou a fazer sentido.
É uma alegoria à sociedade e à fina camada que nos separa entre o civismo e a barbárie, entre o bem e o mal, entre a ordem e o caos. Cada uma das personagens principais acaba por personificar diferentes tipos de pessoas e mostra-nos como cada um de nós poderia reagir caso a desordem tomasse conta de tudo.
Esta experiência tornou-se ainda mais impactante por ser baseada num livro de 1954 e, ainda assim, manter-se incrivelmente atual. A história é cíclica e os seres humanos são previsíveis. Há obras que conseguem captar tão bem essa essência que se torna assustador o quão atuais conseguem permanecer passadas tantas décadas.
A série tanto tem de bonita como de desconcertante, mas é, acima de tudo, um murro no estômago. Não apenas pelas imagens poderosas que apresenta, mas principalmente pelo que nos faz sentir. E fá-lo sem escolher lados. Limita-se a apresentar aqueles rapazes como eles são, sem julgamentos. Cabe-nos a nós interiorizar as suas decisões, refletir sobre elas e perguntarmo-nos como agiríamos na mesma situação, algo que hoje em dia é cada vez mais difícil de encontrar.
Por tudo isto, esta abordagem quase autoral revelou-se uma decisão ousada, mas também extremamente recompensadora. Não é uma série fácil de ver, nem pretende sê-lo, mas é precisamente por isso que fica conosco muito depois de terminar. Já me tinha acontecido com o filme e vai seguramente acontecer agora.
A minissérie O Deus das Moscas é uma produção da BBC de quatro episódios que foram agora transmitidos pelo AXN.