A Casa dos Espíritos (La Casa de los Espíritus, no título original) estreou a semana passada na Prime Video e trata-se de uma adaptação daquele que deve ser o mais icónico romance da escritora chilena Isabel Allende. É uma autora que aprecio e de quem já li 11 livros, mas nunca li esta obra e não é por acaso. Nunca fui muito fã de histórias com elementos de misticismo, realismo mágico ou como prefiram chamar-lhe, e a essência de A Casa dos Espíritos passa muito por aí. Temos uma menina que prevê as coisas, que vê e fala com os mortos e que vive num mundo muito próprio, mesmo que se delicie com o mundo como as outras pessoas o conhecem. Pensei portanto que ia ter alguma dificuldade em apreciar a série, mas estava errada. Esses elementos de que supostamente não gosto resultam extremamente bem e posso ir mais longe e admitir que fazem a diferença pela positiva.
Como muitas das histórias de Allende, também esta é um drama familiar que acompanha as várias gerações de uma família sul-americana. A trama familiar entrelaça-se com a história política, uma característica também marcante das obras da autora. A figura principal deste primeiro episódio de A Casa dos Espíritos é Clara, uma menina de uma família de estatuto privilegiado cuja infância feliz é marcada pela morte da irmã mais velha, Rosa, uma jovem de uma beleza extraordinária e com um grande coração. Rosa e Clara partilham um entendimento que torna a sua relação única no seio da família e a previsão da menina da morte da irmã marca-a profundamente. É a culpa de que poderia ter feito alguma coisa para o evitar, mas não podia. Acompanhamos estes acontecimentos trágicos de uma forma que costuma estar reservada a séries que conhecemos há mais tempo e com personagens com quem aprendemos há muito a preocupar-nos. No entanto, a verdade é que, desde os primeiros minutos, esta série envolve-nos na sua história e faz-nos gostar genuinamente destas pessoas.
Os cenários são belos, mas é à história e às personagens que não conseguimos ficar indiferentes. O elenco, que beneficia de um bom argumento, oferece-nos interpretações marcantes, com destaque para a pequena Francesca Turco e para Chiara Parravicini, que interpretam as irmãs Clara e Rosa. Iremos ver Clara a ser interpretadas por diferentes atrizes nas diferentes fases da vida e estou bastante curiosa por ver esse crescimento da personagem, até porque a versão adulta conta com Dolores Fonzi, uma atriz argentina que descobri ontem a ver um filme e de quem gostei imenso, sem saber que era a protagonista de A Casa dos Espíritos. As minhas expectativas para o resto da temporada são elevadas e não creio que vá ficar desiludida.