A Era Dourada da Televisão
| 16 Jan, 2016

409 séries ficcionais foram emitidas no não-muito-longínquo 2015. É um recorde a nível mundial e que desperta a necessidade de uma reflexão sobre a gigantesca selva televisiva com que nos deparamos. Porque estão tantas séries a sair agora? O que aconteceu ao grande fenómeno do cinema? Que influência e impacto terão a Netflix e outros serviços de streaming para este acontecimento histórico? Das 409 quais são aquelas que merecem, realmente, ser vistas?

Estas são questões fulcrais no que toca a uma análise estatística de uma afirmação de ponto assente de que estamos, definitivamente, na era dourada da televisão. As opiniões divergem, as críticas vão aparecendo, mas nada parece abrandar esta indústria. Não vamos analisar dados estatísticos, muito menos conversar pormenorizadamente sobre estas 409 séries, mas vamos refletir e tentar perceber o porquê de (finalmente) a televisão se afirmar como uma indústria de peso.

Se o cinema está, de facto, a perder qualidade é discutível, isto porque o cenário que reflete a quantidade de filmes produzidos, orçamentos, e até mesmo criatividade argumentativa pode ser facilmente comparável à televisão. Há filmes bons, filmes maus, filmes para domingo à tarde, filmes independentes, e também há séries boas, más, para domingo à tarde e independentes. A quantidade certamente não faz a qualidade, mas uma série de televisão tem um trunfo maior que o cinema não consegue ter: durabilidade. Quando um filme é realmente bom, especialmente se tiver ganho uns quantos Óscares, é-lhe literalmente atribuído o estatuto de filme de culto, ou clássico, mas enquanto isso acontece somente para uma mão cheia deles, os restantes são deixados praticamente à mercê da pirataria como forma de propaganda e de difusão via redes sociais.

Uma série não precisa de ganhar muitos Emmys para ser um fenómeno, precisa de fãs. São os fãs que respondem à durabilidade das séries na maioria dos casos. Enquanto um filme se limita a uma duração atribuída pelos estúdios que os produzem e distribuem, as séries colocam-se a si mesmas num patamar de excelência com a vantagem de ter tempo para explorarem personagens, criarem novas vertentes de história e adicionarem novos intervenientes nas narrativas. Os fãs de televisão exigem precisamente isso, não fosse Grey’s Anatomy encontrar-se na sua 12.ª temporada ou Supernatural na 11.ª. A longevidade destes dois casos pode ser justificada pelo amor dos fãs “à camisola” e, note-se, não são séries consideradas para os Emmys recentemente.

No entanto, nem sempre ser-se fã é suficiente, pois da mesma forma que umas se prolongam, já outras são vítimas de cancelamentos precoces devido a fracas audiências e que, no entanto, possuem uma legião de fãs sólida. Mas a realidade generalizada é esta: enquanto o cinema é feito por espectadores, a televisão é feita por fãs. Isto é claramente um fator do aumento de séries e também uma indireta para a exigência de qualidade. E uma das vantagens de se ter fãs é a flexibilidade que permite a expansão dos géneros, quer pela criação de spin-offs, séries companheiras ou os mais recentes ‘revivals’. A televisão estica-se até aos limites da imaginação e a população mundial prefere sentar-se num sofá ou deitar-se no conforto da cama e estar a ver um ou mais episódios porque não se paga bilhete na hora, não se tem que sair de casa ou apenas porque prefere algo mais curto do que o filme para se entreter.

E se por aqui podemos pegar na afirmação de que a televisão teve um boom significativo porque o aumento de fãs parece ter alargado os horizontes, podemos também dizer que o cinema (pelo menos em Portugal) passou de entretenimento a luxo, com o aumento dos bilhetes, ainda que isto possa não ser um problema a longo prazo. Mas para auxiliar esta procura incessante por séries novas, estão associados os novos serviços de streaming, sejam eles Netflix, Amazon Prime, Nosplay, entre outros. Estes “gigantes” permitem que séries de outros canais possam chegar a um maior número de pessoas por todo o mundo e ainda desenvolvem as suas próprias produções. Num esforço digno, através do pagamento de uma quantia simbólica da sua utilização, no combate à pirataria, os serviços de streaming certamente tiveram peso na difusão e propagação das séries de televisão a um nível mundial.

Quem, por exemplo, nunca viu The Big Bang Theory, pode agora começar do início e deixar-se levar por horas e horas de episódios até conseguir estar a par da temporada que está em exibição. Estes serviços vêm reforçar esta injeção de novas séries, sendo que a Netflix e a Amazon possuem algumas das mais interessantes apostas contemporâneas; desde a complexa Sense8, dos irmãos Wachowski, à sumptuosa Marco Polo, passando por dois brilhantes ensaios da Marvel, Daredevil e Jessica Jones, e pela ternurenta Master of None, a Netflix não mostra sinais de abrandar as suas apostas televisivas, provando que ainda existe originalidade nesta abundância louca de televisão. Já a Amazon tenta marcar pela diferença, com a pertinente Transparent, a divertida Mozart in the Jungle e a deslumbrante The Man in the High Castle.

E se os serviços de streaming não são suficientes para justificar este aumento, a adequação de temas contemporâneos e socialmente interventivos pode muito bem juntar-se à festa. Veja-se o caso de Mr. Robot, da USA Network, que é um reflexo intrigante de voyeurismo social narrado na primeira pessoa e inserido num mundo tecnológico desenvolvido, aproximado ao nosso atual ou até mesmo séries que explicitamente defendem a homossexualidade ou transsexualidade, como é o caso de Looking ou Orange is the New Black. Há uma clara força moral que enriquece as narrativas, abre a mente dos fãs e deixa-os conhecer a sociedade de forma nua e crua.

Em suma, a televisão prima por abranger um variado leque de estilos representativos da sociedade contemporânea e, mesmo se este género não for o ideal para todos, há um mundo inteiro de géneros por explorar: fantasia, comédia, drama, ação, aventura e tudo tão perto de nós, a uma distância de uns cliques no computador ou de um comando da televisão.

A oferta é variada e tem tendência a aumentar de ano para ano porque a era da televisão é agora. É nesta fase da vida do ser humano, que necessita do conforto do lar e do entretenimento que tem em seu redor, da ausência de fundos para pagar bilhetes de cinema dispendiosos, da falta de tempo para ver algo longo e maçudo, que a televisão coloca a coroa e se senta no trono.

Jorge Lestre

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