Estreou faz precisamente uma semana na RTP Play uma série de antologia portuguesa chamada Novas Narrativas de Caça e que tem no centro das suas histórias as vivências das pessoas negras. São vários os géneros de ficção ao longo destes sete episódios, desde drama, romance, terror e distopia. Como seria expectável, gostei mais de uns episódios do que de outros. Os primeiros quatro têm histórias que se acompanham bem, depois não consegui gostar dos outros dois, mas o melhor estava reservado para o final. Lá voltarei mais à frente.
O quinto episódio, passado num mundo distópico, é o mais original (se bem que o segundo é super bizarro e não no mau sentido), mas é impossível dar a conhecer um mundo alternativo em menos de 25 minutos e não acho que tenha resultado bem. Em termos de entretenimento puro, temos essencialmente os três primeiros episódios (um é engraçado, o outro deixa-nos de boca aberta e o terceiro é fofo), depois no quarto mergulhamos em temas sérios que é habitual vermos abordados nas séries e filmes americanos, mas que nunca tinha visto em contexto português. Estas histórias são-nos contadas por cineastas afrodescendentes, pessoas que viveram na pele situações semelhantes àquelas que retrataram, por isso sinto que o nosso papel como espectadores passa por ver e ouvir aquilo que nos estão a contar, sem tentativas de invalidar as suas experiências com opiniões como: “Portugal não é um país racista”. Não o são todos, mesmo que em graus diferentes? Portugal não é exceção.
É sabido que não sou a maior fã de antologias, mas tenho estado cada vez mais atenta às produções nacionais e não quis deixar de ver esta. O saldo final é positivo.
Melhor episódio:
Episódio 7 – O episódio que encerra a antologia é em todos os aspetos o mais marcante. Tem uma alma que não achei que os outros tivessem. A história é bonita e há algo de poético nele. Aqui acompanhamos a visita de Cíntia à terra dos pais para ver a família e conhecer o país ao qual o pai se recusa a voltar porque já não é a Guiné que ele conhecia. Vemos esta história pessoal entrelaçar-se com a História num sentido mais amplo, de volta aos tempos do colonialismo. Vemos esta mulher, com quase 40 anos, conectar-se a um país que em teoria não é o dela, mas que ela rapidamente sente como tal. Vemo-la a desfrutar da afabilidade das pessoas, do carinho dos tios… É uma viagem profundamente pessoal, poética até, para ela e isso sente-se deste lado do ecrã.
Personagem de destaque:
Cíntia (Isabél Zuaa) – Podia ter escolhido uma personagem do segundo ou do terceiro episódio para dar um destaque mais alargado a várias das histórias da série, mas Cíntia revela-se a personagem mais marcante da antologia. A sua história podia perfeitamente continuar, um sentimento que tive com poucos dos episódios, numa série completa.