Depois de tanto burburinho em torno de Heated Rivalry, decidi ir ver a 1.ª temporada por mim próprio e a verdade é que a série destaca-se claramente num panorama televisivo cada vez mais saturado e repetitivo. E convém ir por partes para perceber porque é que funciona tão bem.
Antes de mais, Heated Rivalry quase não parece uma série. A sensação é muito mais a de estarmos a ver um filme independente dividido em capítulos. A forma minimalista de contar a história, sem grandes artifícios narrativos ou estilísticos, aposta quase exclusivamente no argumento e nas interpretações. É isso que nos faz envolver com os personagens, querer perceber o que os move e acompanhar a forma como tudo evolui. Para conseguir esse efeito, e conseguiu, é preciso um argumento sólido. E ele está lá.
Os diálogos são excelentes, mas o mais eficaz é muitas vezes aquilo que não é dito. Como em qualquer bom guião, são as nuances, os silêncios e os pequenos pormenores que carregam significado. Tudo isso está afinado ao detalhe e só resulta porque as interpretações são extremamente naturalistas e certeiras.
O duo protagonista é o grande motor da série. Connor Storrie está magnético no papel do irreverente e provocador jogador russo, enquanto Hudson Williams constrói com grande sensibilidade um atleta tímido, reservado, que apenas quer jogar hóquei e dispensaria todo o resto. A química entre os dois é palpável e nunca forçada. Funciona tanto nos momentos de tensão como nos de intimidade. Os personagens secundários acompanham muito bem o nível geral, com destaque para François Arnaud, que brilha sempre que o argumento lhe dá espaço para isso.
Tudo isto nos leva novamente ao argumento e à forma como a série se diferencia. O storytelling não é normativo. A narrativa não segue os caminhos óbvios nem vai necessariamente para onde esperamos. Há saltos, pausas e escolhas de ritmo que são mais comuns no cinema do que na televisão. É outro ponto claramente a favor. A história não sente a necessidade de apresentar reviravoltas artificiais em todos os episódios. Algumas existem, mas surgem de forma orgânica. O verdadeiro risco, e também a maior vitória da série, está na forma como define a narrativa: mexe onde é preciso mexer, inova onde faz sentido inovar, mas mantém uma simplicidade de base que torna tudo mais eficaz.
Talvez a única série que, a espaços, me fez lembrar Heated Rivalry seja The Affair, pelo menos na sua 1.ª temporada, sobretudo na forma como trabalha perspetivas, subjetividades e a intimidade.
Estamos também perante uma história de amor impossível entre dois jovens atletas que crescem em paralelo, com tudo o que isso implica: desejo, descoberta, frustração, competitividade e muita testosterona. E a série não foge disso. Quem diria que uma história passada no gelo poderia ser tão quente? A realização não poupa nos detalhes, mas fá-lo sempre com bom gosto. Nada soa gratuito ou vulgar. As cenas mais explícitas estão ao serviço da narrativa e da construção emocional dos personagens, não existem apenas para chocar ou exibir. Não transforma cada momento íntimo num quadro estilizado como Sense8, que continua a ser um ponto alto nesse campo, mas também nunca banaliza ou explora em excesso. Nos primeiros episódios, em particular, a forma como constroem a tensão crescente entre os dois protagonistas é exemplar.
Outro aspeto onde a sensibilidade impera é na abordagem temática. Heated Rivalry não tem uma agenda política nem nos tenta conduzir a uma conclusão específica. Limita-se a mostrar uma realidade. O facto de jogadores profissionais assumirem a sua sexualidade continua a ser algo raro e com impacto real nas suas vidas pessoais e carreiras. Essa realidade poderia facilmente cair em lugares-comuns ou discursos forçados, mas a série evita isso com inteligência a maior parte do tempo. Não prega, não aponta o dedo, não dá lições. Conta a história e deixa que cada um de nós tire as suas próprias conclusões. E é precisamente por não forçar uma posição que acaba por nos envolver emocionalmente. É praticamente impossível não torcer por eles, todos.
Em suma, toda a atenção e conversa em torno desta 1.ª temporada de Heated Rivalry é mais do que justificada. É uma série relevante, atual, que aborda temas pouco explorados neste contexto específico e fá-lo com cuidado, maturidade e sensibilidade. É intimista, envolvente e deixa-nos genuinamente curiosos sobre o que vem a seguir, sobre os obstáculos que os personagens vão enfrentar e como irão lidar com eles. Se isto não é boa televisão, então fica difícil perceber o que será.
Que venha a 2.ª temporada.
Heated Rivalry estreia em Portugal a sua 1.ª temporada na HBO Max, hoje, dia 23 de janeiro. A temporada é composta por seis episódios, que serão lançados semanalmente.
Melhor episódio:
I’ll Believe in Anything (Episódio 5) – Escolher o melhor episódio desta temporada não é tarefa fácil, porque todos têm momentos fortes e cumprem uma função clara dentro da narrativa. Estive indeciso entre este e o episódio 3, que quebra o ritmo de forma particularmente interessante e quase inesperada. Ainda assim, é aqui que a série atinge o seu auge. Todo o crescimento e desenvolvimento acumulados até então, em todas as linhas narrativas, explodem neste ponto e convergem de forma orgânica. Mesmo histórias que aparentemente não se cruzam acabam por colidir com enorme precisão. Para o espectador, não há nada mais gratificante do que perceber que tudo o que foi construído tem um propósito, uma razão de existir, e que essas colisões entre diferentes mundos são executadas de forma magistral.
Personagem de Destaque:
Ilya Rozanov – Quanto ao melhor personagem, a escolha é quase impossível. Seriam sempre os dois protagonistas, porque sem qualquer um deles a série não existiria. Ainda assim, é difícil não destacar Rozanov. É um personagem cheio de nuances, complexidade e camadas emocionais, com uma vida mais complicada do que a de Hollander, o que lhe dá mais espaço para se desenvolver. Esse potencial é explorado de forma excelente pelo argumento e pela realização. Mas importa sublinhar que este Ilya só existe em função de Shane, sem ele não haveria este confronto, este crescimento, nem esta versão do personagem. É precisamente essa interdependência que torna ambos tão fortes.