Classificação

9.5
Interpretação
9.5
Argumento
8
Realização

[Contém spoilers]

Temporada: 2

Número de Episódios: 12

O que faz uma grande série? A 2.ª temporada. Uma estreia em grande é “fácil” de fazer e uma terceira, depois de ver o que resulta ou não, também não é complicado, mas raras são as séries que são bem sucedidas na segunda. O que Ted Lasso fez na 2.ª temporada foi incrivelmente arriscado, mas o pay-off é que estamos na presença de uma série e peras.

Nos primeiros dez episódios, Jason Sudeikis conseguiu escapar à armadilha de fazer uma paródia de um americano perdido na Europa. Teria sido fácil também nos doze seguintes a série continuar a focar-se principalmente em Ted e naquilo que tornou a série tão aclamada. No entanto, o sucesso de uma série faz-se de coragem e a história arriscou ao ir por caminhos não explorados e muito traiçoeiros, que podiam ser interpretados como condescendentes, demasiado negros ou, pura e simplesmente, aborrecidos.

Ted Lasso foi a serie de que precisámos após a pandemia. Mais uma vez, de maneira consciente ou não, torna a ser bastante relevante na temática da saúde mental no desporto após os Jogos Olímpicos de 2021. A maneira como Tart confronta a pressão do pai e o narcisismo, a maneira como Roy lida com o final da carreira, o medo de falhar de Danny e até mesmo a pressão da transferência sobre Sam são problemas recorrentes de quem vive do desporto e temas com que a série soube lidar com avaliação de cinco estrelas.

Nenhuma das personagens está no mesmo ponto (talvez a única exceção seja Higgins), já que todas sofreram uma evolução e foram forçadas a abandonar a zona de conforto. Para além disso, foram abordados temas difíceis e mesmo assim os episódios conseguem sempre arrancar-nos sorrisos e otimismo. Não quero repetir-me, mas não posso deixar de salientar o quanto isto é difícil de alcançar numa comédia. Infelizmente, a “maior” evolução foi a que me criou mais insatisfação…

A minha crítica principal vai no entanto para o óbvio, Nate. Eu faço parte da equipa que não engoliu esta transição. Sim, eu sei que ele foi dando sinais e sei também que os motivos que ele “atira” a Ted no finale não são os verdadeiros, mas ainda assim, não me convence. A personagem passou de vítima de bullying a bully e a primeira vitima é o próprio. Isto fica bastante evidente no nascimento deste Hyde de dentro do inocente Dr. Jekyll, quando o calcado Nate, literalmente, cospe na própria cara para ganhar confiança. Há claramente aqui um problema de daddy issues, misturado com inveja e até algum narcisismo (a Dr.ª Sharon não fez o trabalho completo!). No entanto, parece-me uma transição martelada na narrativa, numa tentativa de criar um antagonista para a 3.ª temporada.

Sim, os sinais estão lá e até as madeixas no cabelo foram introduzidas aos poucos no cabelo de Nick Mohammed, mas a transformação é um pouco de vilão de banda desenhada, com peruca a condizer. A série não apresenta motivos suficientes para a transformação ou talvez nos tenha distraído com dezenas de outras coisas para me ter parecido óbvio. Não parece natural, o que em outras séries não seria um problema, mas em Ted Lasso é um pouco.

Veremos de que modo Nate será mesmo o vilão/antagonista da próxima temporada ou se a série nos irá surpreender mais uma vez. O que me parece claro é que ele quer ser castigado e ser levado a sério. Veremos qual das duas acontecerá primeiro. Apesar da temática, esta não é uma série de futebol, mas de pessoas. Talvez a ideia seja Ted ter sido confrontado com os seus demónios para agora conseguir ajudar Nate com os seus.

Jason disse que a sua visão original era de três temporadas. Veremos se a Apple o “deixa” fazer isso. Afinal de contas, o serviço de streaming não conta ainda com um catalogo riquíssimo. Não se pode dar ao luxo de perder uma série adorada e multipremiada (sete Emmys em 20 nomeações) por motivos tão mundanos como “seria o melhor para a série”…

A análise já vai longa e nem abordei a maneira fantástica como a série aborda a evolução de Roy e Keeley, individualmente e como casal, a adição de Sarah Niles ou outros arcos que mereciam ser abordados. O que importa salientar é que Ted Lasso, após a 2.ª temporada, continua a ser a melhor comédia da televisão, na minha singela opinião. Algumas decisões criativas podem ser questionadas, mas a sobriedade e a inteligência como a série introduz e resolve os assuntos sem que perca o espírito faz de Ted Lasso um verdadeiro soro fisiológico para os olhos.

Notas:
– Precisamos de mais Flo e Nora, assim como mais sobrinha de Roy. Spin-off de Roy com Phoebe em Espanha!
– Quando questionado sobre o que lhe diz Ruppert ao ouvido na cena final, Nick Mohammed diz que o ator Anthony Head foi o autor da frase (apesar de não ser audível para o público): “You’re welcome”, o que encaixa como uma maravilha em Ruppert.
– Sim, o cabelo de Nate no final é uma peruca e, sim, foi intencional a semelhança com Mourinho.
– Trent Crimm do Independent é outro desenlace que também não faz qualquer sentido. Se o próprio tinha simpatizado com Ted anteriormente, não faz sentido que tenha de escrever o artigo. Faz ainda menos sentido que um homem que leva a profissão tão a sério depois se autodestrua.

Personagem de Destaque:
Rebecca Welton (Hannah Waddingham) – Quem diria que por trás de “shame” (de Game of Thrones) estava uma atriz tão maravilhosa. A sua presença imponente, misturada com sensibilidade e humor fazem de Rebecca a minha personagem favorita na série. Apesar do romance com Sam estar preso naquele “vai que não vai”, ela continua a ser um excelente pivot para outros arcos e nunca desilude quando a câmara se foca nela. Por isso não surpreende que o meu episódio favorito também seja…

Melhor Episódio:
Episódio 10 – No Weddings and a Funeral… este. Poderia ser o de Beard (devo ter sido dos poucos que gostou), mas a verdade é que este teve de tudo. A conversa de Rebecca com a mãe (e o humor naquela sala antes desse momento) são uma excelente montra para o que a série é capaz de fazer.

Vítor Rodrigues