Classificação

8.5
Interpretação
8
Argumento
8.7
Realização
9
Banda Sonora

Temporada: 2

Número de episódios: 8

[Contém spoilers]

Um ano após a sua estreia na Netflix, Élite regressou com uma nova temporada repleta de dramas e mistérios. A transição da primeira para a segunda temporada é sempre um risco. Élite teve uma excelente temporada de estreia e as hipóteses de que a qualidade não seja igual ou melhor são muitas. Vejamos o caso de 13 Reasons Why que teve uma primeira temporada muito boa ao ponto de arrecadar nomeações para os Globos de Ouro, por exemplo. No entanto, as duas temporadas seguintes foram um completo desastre – especialmente a segunda.

A vida de todos parece ter aparentemente voltado ao normal após o verão. Claro que é tudo fachada. Guzmán, após um verão com Lu nas Astúrias, parece continuar muito revoltado com a morte da irmã. Christian passou o verão com Carla, a ser mimado por ela de todas as maneiras para não dar com a língua nos dentes em relação ao verdadeiro assassino de Marina. Samuel passou o verão a juntar dinheiro para tirar o irmão da cadeia.

O início do ano letivo é abalado pelo reencontro destes alunos tão cheios de ódio uns pelos outros e segredos, mas também pela chegada de três novos estudantes. Cayetana, que – aparentemente – tem uma vida de sonho, Valerio – o meio-irmão de Lu – e Rebe, cuja mãe acabou de comprar a casa dos Nuñier, uma nova rica que afirma que a mãe ganhou a lotaria.

Quando já temos tanto carinho pelos personagens de sempre nem sempre é fácil gostarmos dos recém-chegados nem de os encaixar bem na narrativa. No entanto, Élite acertou em cheio em todos os novatos que adicionou. Para mim, Rebe foi a melhor de todas. Uma espécie de Nairobi da alta sociedade. Divertida, direta e determinada, Rebe fica imediatamente amiga de Samuel, Nadia e Omar. É ela que oferece o “emprego” de Samuel como distribuidor de droga e o mete em problemas.

Valerio é o meio-irmão rebelde de Lu, acabadinho de chegar a Las Encinas e com segredos bem esquisitos do seu passado com ela. No fundo, tanto Valerio como Lucrecia são filhos de um pai rico, mas que trabalha demasiado para prestar atenção aos filhos e ambos reagem ao abandono de maneiras diferentes e da mesma maneira. Lu apoia-se demasiado nos amigos e namorado e Valerio nas drogas e no álcool. E, claro, apoiam-se um no outro. Dois meios irmãos atraentes que nem sempre estão juntos acabam por confundir as coisas e transformar o que devia ser um amor fraternal numa atracção sexual. Fiquei de queixo caído com estes Jaime e Cersei Lannister espanhóis. O mais inacreditável é que ambos têm um fandom que torce imenso pela relação. Não é normal, incesto é horrível e anti-natura. Se se revelar que um deles é adotado pode ser que entre na coisa, mas sendo assim é simplesmente asqueroso.

Por fim, Cayetana. Nossa, como dá vontade de lhe espetar umas bofetadas de vez em quando. Sonsa, mentirosa e egoísta. Aproveita-se da amizade com Lu (que quando é amiga de alguém dá o corpo e alma por essa pessoa!) para roubar dinheiro e ainda encobre Polo quando ele lhe revela ter sido ele o verdadeiro assassino de Marina. Claro que aqui temos de pensar que ele a ajudou com o “jantar de beneficência” e deu dinheiro à mãe para ficarem em Madrid e Cayetana acabar a escola em Las Encinas. Mas mesmo assim. Proteger um assassino nunca é desculpa.

Se na primeira temporada o mistério andou em volta de descobrir quem matou Marina, aqui girou em relação ao desaparecimento de Samuel. Ao longo da temporada, vêmo-lo meter-se em esquemas que poderiam voltar-se contra ele. A sua relação com Carla. As entregas de droga. O escalar das constantes brigas com Guzmán. Samuel não é propriamente a personagem mais interessante de todas (de longe!), mas a sua relação com Carla ajudou em muito a sua história desta temporada – bem mais do que a sua busca por justiça. Carla é uma personagem do caraças e só ajudou a de Samuel. Nunca pensei que estes dois resultassem tão bem, mas também nunca achei piada à sua relação com Marina. Muito curiosa com o lhes está guardado para a próxima temporada. Depois da maneira como as coisas deles ficaram (ela a descobrir que ele fingiu o desaparecimento para ela contar o que aconteceu a Marina), vai ser muito giro acompanhar a próxima temporada.

Pobre Guzmán. Adoro-o e ele é capaz de ser o meu personagem favorito juntamente com Rebe. É de louvar a lealdade e o amor que ele sente por Marina. O coração de Guzmán está em mil pedacinhos e só começará a curar-se quando o culpado pela morte da irmã estiver preso. Acho tão injusto o que os seus melhores amigos lhe fizeram. Polo já sabemos que é uma ratazana nojenta e psicopata. Não me parece que sinta muitos ressentimentos por ter morto a irmã do melhor amigo, mas vê-se que a consciência lhe pesa. No entanto, Ander é capaz de ter sido bem pior amigo. Mesmo sabendo da verdade, prefere ficar de boca calada simplesmente porque as vidas de todos seriam mais fáceis se continuassem a pensar que fora Nano o autor do crime. Ander andou bem insuportável esta temporada, revoltado com o segredo, afetando todos os aspetos da sua vida – família, amizades e o seu namoro com Omar.

Adoro a minha querida Nadia, mas têm de começar a arranjar a esta miúda histórias que não girem em volta de Guzmán. Especialmente quando essa carta já foi usada na temporada passada. Claro que ela acabou por dar o passo seguinte, envolvendo-se com Guzmán e perdendo a virgindade com ele. A história do vídeo foi só uma maneira de trazer a relação dos dois à estaca zero outra vez. A vergonha de Nadia por Lu ter divulgado o vídeo ao mundo (a sério Valerio, mas tu não sabes a irmã que tens?) fez com que ela decida fechar-se em casa e na loja dos pais, porque sente com certeza que se está a envolver demasiado no mundo de Las Encinas. E logo ela que só queria ter boas notas.

Élite não é uma série que vá arrecadar todos os Emmy Awards nem a melhor série teen que alguma vez vi na vida. Mas é uma série de bastante qualidade que vem provar mais uma vez que a Netflix só faz bem em apostar em séries europeias e as espanholas têm andado em alta nos últimos anos com La Casa de Papel, Vis a Vis, Las Chicas del Cable, etc. Élite é interessante, é viciante e faz-nos sonhar a todos com a vida que gostávamos de ter tido na altura da adolescência. Não todos, não quero generalizar. Porém, garanto-vos que o meu sonho com 16 anos era que os meus pais me deixassem não só ir à discoteca, mas ir durante a semana. E mais! Beber uns copos valentes e aparecer com cara de princesa no dia seguinte às 8 da manhã na escola. Que sonho.

Polo continua à solta e finalmente todos sabem que é um criminoso. Por um lado, tenho receio que a história se repita e ande sempre sempre à volta do assassinato de Marina. Contudo, também tenho fé nos nossos argumentistas. Terceira temporada, vem rápido que nós já estamos desertos.

Melhor Episódio:

Episódio 7 – Sem dúvida que é o episódio mais chocante, com mais revelações e desenvolvimentos, que nos prende ao ecrã do início ao final. É o episódio que toda a gente descobre que Cayetana é uma farsa e que a festa de caridade que ela e Lu organizam não passa de um esquema para conseguir dinheiro. Lu (depois de ter sido traída por todos os amigos) sucumbe ao desejo que sente por Valerio e o mesmo acontece com Nadia, que se entrega finalmente a Guzmán. Guzmán parece começar realmente a acreditar nas palavras de Samuel depois de ver Ander e Polo discutirem após a festa. É um episódio emocionante em que tudo acontece e nos deixa loucos para a season finale.

Personagem de Destaque:

Carla Rosón Caleruega (Ester Expósito) – Juro-vos que foi difícil chegar só a um personagem. Na verdade, com exceção de Ander, Polo e Cayetana eu adoro todos os personagens. Muito raramente isso acontece comigo numa série, especialmente de adolescentes, mas a verdade é que os argumentistas criaram personagens fantásticos. Carla foi a escolhida porque basicamente a temporada andou à volta dela, do seu sentimento de culpa, do que sente em relação a Samuel e o afastamento dos amigos devido ao grande segredo que guarda e que a está a comer viva. Ester Expósito dá aqui uma grande prestação e abriu-nos o mundo de uma Carla mais humana e que certamente ainda terá muito para dar.

Maria Sofia Santos