Estreou hoje na RTP Play a série Novas Narrativas de Caça, uma antologia de ficção composta por sete episódios independentes, escritos e realizados por cineastas afrodescendentes.
O episódio começa com esta frase: “Até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça”. Uma versão muito melhor da famosa frase “a história é escrita pelos vencedores”. Trata-se de um provérbio africano que me fez perceber o porquê da escolha deste título para a série. Não sei se todos os episódios vão ser precedidos de uma frase impregnada de sabedoria ou se esta serve de mote para toda a série, mas gostei.
O primeiro episódio, intitulado Moamba, é uma espécie de versão portuguesa do filme Get Out. Não é nada, estou só a brincar, mas aquele almoço de família tem o seu quê de história de terror. Leandro vai a casa dos pais da namorada pela primeira vez, vai-lhes ser apresentado e não há problema em ele ser negro, porque os pais não sou pessoas preconceituosas. Onde é que já ouvimos isto? Em todo o lado. As pessoas nunca são preconceituosas até que abrem a boca e o preconceito lhes sai através das palavras. Nesse aspeto, este episódio podia ser o retrato da realidade de muitas casas e penso que a intenção é precisamente esta. Mostrar que a piadinha racista ainda está presente e que a falta de noção também. E aí pecam todos, menos Leandro. A namorada, a mãe e, especialmente, o pai. Os pais porque assumem coisas e dizem outras que não deviam. A jovem porque parece menos preocupada em defender o namorado e fazê-lo sentir-se à-vontade do que em dar lições ao pai. Não que não deva, porque deve, mas não daquela forma.
Não querendo ser óbvia, Leandro, interpretado por Gonçalo Cabral, é a personagem mais interessante do episódio. Lida bem com todos os acontecimentos do almoço, sendo diplomático. Percebe-se que também ele reparou na falta de noção, mas talvez já esteja habituado. O episódio ganha pontos por retratar uma questão em relação à qual qualquer pessoa está ciente. Quantos não são os almoços de família onde se ouvem piadinhas racistas (ou homofóbicas ou machistas)? O argumento parece um bocado óbvio demais, o que se reflete nas interpretações, mas será essa a intenção?
Gostei, mas a antologia continua a ser um conceito que para mim, enquanto série, não convence. No entanto, era capaz de ver mais meia dúzia de episódios de continuação desta história.