Classificação

7
Interpretação
7.4
Argumento
7.3
Realização
7.2
Banda Sonora

(Atenção: esta review pode conter spoilers!)

“You know, when you took off your mask, I never in a million years expected it to be you. Someone like me. I’m glad it was.”

No passado dia 19, Batwoman regressou aos nossos ecrãs com um novo episódio da sua primeira temporada: How Queer Everything Is Today!

Neste episódio, Alice celebra o seu último ato de vingança com Mouse enquanto Gotham se entretém com o encontro inesperado de Batwoman. Devastada com a morte da sua mãe, Mary concentra-se nos preparativos para o julgamento de Jacob e Sophie pede conselhos amorosos a alguém improvável. Quando lidam com a mais recente ameaça a Gotham, Luke dá prioridade a manter a identidade de Batwoman segredo e Kate tem de decidir se está disposta a honrar a identidade de Batwoman, assim como a sua.

How Queer Everything Is Today! marca o primeiro episódio de Batwoman depois de Crisis on Infinite Earths, o evento crossover mais ambicioso das séries da DCTV até à data. Dados os acontecimentos de Crisis, os fãs das várias séries que participaram na crossover ficaram com uma grande questão por responder: de que forma irá a crise influenciar as séries individuais? É um tema que começa, desde logo, a ser explorado nas várias instalações, como é o caso de Supergirl, Legends of Tomorrow e, é claro, Batwoman.

Crisis veio a influenciar não só a narrativa das várias séries, como passaremos a falar em seguida, como também as suas próprias personagens. Esta influência é imediatamente aparente em Kate, que, enquanto Paragon da Coragem, vê agora um peso acrescido no seu papel enquanto vigilante oficial da cidade de Gotham. Grande parte da história deste episódio assenta no facto de Kate sentir que está a ser desonesta para com a sua cidade e aqueles que nela vivem. Com rumores de que Batwoman está envolvida com um patrulha da GCPD, Kate tem de escolher entre deixar Gotham acreditar no que quer ou arriscar reivindicar a sua identidade.

Surpreendentemente, a escolha de Kate é facilitada pela “vilã” deste episódio. Parker Torres (Malia Pyles) é uma aluna do secundário que, após ver a sua sexualidade exposta aos seus pais conservadores pela sua ex-namorada num ato de vingança, usa as suas habilidades enquanto hacker para causar caos em Gotham, ameaçando expor os segredos dos habitantes da cidade se estes não angariarem a quantia que lhes pede. Parker pretende utilizar o dinheiro para recomeçar a sua vida longe dos seus pais, mas é intercetada por Batwoman antes que possa causar mais estragos.

Kate acaba por sentir alguma empatia para com a personagem e, talvez mais importante ainda, sente responsabilidade para com ela. De forma bastante auto-consciente, a série usa o discurso de Parker para colocar em evidência o facto de que a representação de personagens LGBT+ (assim como outras minorias) nos media continua, em grande parte, limitada a personagens secundárias que servem de ajudantes às personagens principais. Mesmo dentro do Arrowverse, esta continua a ser a tendência, sendo Legends of Tomorrow e, agora, Batwoman, parte da exceção à regra.

A série parece ser capaz de entender e explicar a urgência de colocar personagens como Kate no papel principal ao invés de continuar a limitá-las a posições de menor importância, e volta a demonstrar o seu aspeto crítico através da intervenção de Vesper Fairchild, a nossa voz estilo Gossip Girl que pontua vários momentos do episódio. A certo ponto, Fairchild questiona “o que aconteceu com a política ficar de fora dos nossos super-heróis?”, um argumento bastante popular na internet que nunca falha em fazer-me rir. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento de banda-desenha sabe que, por detrás de toda a ação, estas são inerentemente objetos de crítica política. Batwoman, a par e passo com outras séries da DC, não é exceção à regra, e agrada-me o facto de não ter medo de causar polémica. Demonstra ser uma série segura de si e que conhece bem a sua audiência – algo que, até agora, tem funcionado de forma excecional, na nossa opinião.

Kate não só expõe a sua sexualidade perante todos, através de um artigo publicado na revista CatCo e escrito por ninguém menos do que a nossa Kara Danvers (cortesia da fusão das várias terras na Terra-Prime), como também revela a sua identidade a Parker (ainda que não por escolha própria). A bilionária acaba por tornar-se num modelo para a jovem hacker, que acaba por ter apenas algumas horas de serviço comunitário como consequência das suas ações. De entre as várias personagens que têm aparecido no decorrer da série, Parker parece encontrar-se no grupo daquelas com potencial para, mais cedo ou mais tarde, regressar a Batwoman para ajudar a Kate, pelo que veremos se voltaremos a ouvir falar da rapariga.

Entretanto, este episódio marca também o aniversário de Kate e, por associação, Alice. A irmã de Batwoman tem sido, desde cedo, uma presença incontornável na série. Com uma personalidade simplesmente magnética, Alice continua a sua espiral descendente de maluquice, estando convencida que tudo aquilo que fez, fê-lo por Kate – incluindo a morte de Catherine, a quem se refere como “uma inimiga em comum” com Batwoman. A personagem acredita que a sua relação com a sua irmã ainda não chegou a um ponto sem retorno, ainda que Kate não pense o mesmo. Para Alice, tudo o que está no caminho de ter a sua irmã de volta é o seu complexo de herói, e parece que não irá descansar até que Kate tire a máscara de vez.

Num episódio repleto de momentos importantes, a maior bomba tem ainda assim a ver com Alice – ou, melhor dizendo, Beth. Como foi referido anteriormente, os acontecimentos de Crisis tiveram as suas ramificações nas várias séries. Bom, no caso de Batwoman, podemos dizer que estamos a ver em duplicado. Ainda que Mary tenha sido a primeira personagem a reparar nesta anomalia, foi Kate a primeira pessoa que realmente deu de caras com Beth, confundindo-a, de forma compreensível, com Alice. Parece que, aquando da fusão das várias terras, Beth conseguiu encontrar o seu caminho para Gotham (de forma semelhante ao que aconteceu no mais recente episódio de Supergirl com um outro personagem). De imediato, questiono-me se esta será a mesma Beth que vimos na Terra-99, ou outra completamente diferente.

De qualquer forma, a aparição de uma nova Beth levante questões importantes para a série, nomeadamente sobre o futuro de Alice. Se até agora tem sido relativamente difícil para Kate separar Beth de Alice, por se tratar literalmente da mesma pessoa, de que forma irá a sua atitude mudar agora que tem uma verdadeira oportunidade de ter a sua irmã de volta? Será que irá facilitar a sua decisão, ou renovará a sua esperança em Alice? E de que forma reagirá Alice às notícias? Definitivamente que esta decisão narrativa abre todo um mundo de possibilidades, pelo que estamos ansiosas em ver o que está para vir.

Não podemos dar esta review por concluída sem antes falar um pouco sobre Mary, Sophie e Luke. De forma natural, a primeira aparece ainda destroçada com a morte da sua mãe, mas resolve focar-se no julgamento de Jacob, que se aproxima a passos largos. Quando tudo corre mal, no entanto, Mary aceita o consolo de Kate, pelo que parece que, por fim, as duas personagens estão no caminho certo para repararem a sua relação.

Já Sophie aparece neste episódio um pouco fora de controlo – com o seu casamento basicamente terminado e com a firma para que trabalha completamente desacreditada devido ao aprisionamento de Jacob, Sophie é deixada a lidar com a sua identidade, um trabalho que acaba por provar ser mais complicado que aquilo que esperava. Perto do final do episódio percebemos que a decisão de Batwoman é importante não só para personagens como Parker, mas também para Sophie, que parece ver na heroína um exemplo a seguir.

Por fim, Luke continua a ser pouco aproveitado nestes episódios, ainda que as suas poucas intervenções não passem despercebidas. Num episódio que, como referimos, marca o aniversário de Kate, este parece ser o único a reconhecer o facto, demonstrando os seus dotes culinários quando oferece a Kate um pequeno queque com uma vela e um morceguinho. Afinal, o personagem parece ter bastante tempo livre e seria de valor explorar um pouco mais a Luke.

Em suma, este foi um forte regresso para Batwoman, com boas performances, uma narrativa atraente e relevante, e plot twists que deixam qualquer um a pedir por mais. Certamente que nos aguarda uma jornada emocionante – e cá estaremos para a acompanhar.

Inês Salvado e Margarida Rodrigues