Classificação

8
Interpretação
7
Argumento
8
Realização
7
Banda Sonora

Antes de nos iniciarmos no enredo de Mercy Street, devemos rever um pouco o período histórico no qual a série se insere. Nos inícios do século XIX, os Estados Unidos da América viveram uma das maiores cisões político-morais da sua história devido à guerra civil entre a Union e a Confederary. Para quem não conhece esta parte da História Contemporânea, o principal foco da cisão entre o norte (Union) e o sul (Confederacy) foi a escravatura. Por exemplo, antes da  Guerra Civil – também chamada Guerra de Secessão -, ao número de votantes acrescentava-se três quintos da população escrava do estado (para se fazer a repartição de peso dos votos de cada estado).

Com a eleição de Lincoln, o qual tinha como objetivo abolir a escravatura, a tensão entre estados esclavagistas e estados que já tinham abandonado a escravatura aumentou. Embora este seja o principal tema, várias colisões políticas ajudaram a aumentar as tensões. Por exemplo, em 1854 após a compra – à França, sim à França! – de uma grande parte do território que atualmente ocupam os estados centrais, foi dada a possibilidade de cada região escolher a sua posição face à escravatura. O que dificultou a já relação deteriorada entre ambos.

Juntamente com isto tudo, e aguentem mais um pouco que a aula de História está quase no fim, as diferenças fundamentais entre o Sul e o Norte vêm-se na sua representação de um país ideal: O Norte a favor de um idealismo de “homem livre, terra livre, trabalho livre”; e o Sul com um lema “propriedade privada, escravos, capitalismo selvagem”.

É nesta tensão social que se insere Mercy Street, mas não será uma série sobre o desenrolar da Guerra de Secessão – pelo menos não de uma perspetiva normal -, mas focada no quotidiano da Mansion House, Virgínia (território ocupado pela Union), um hospital de guerra. O foco principal cai sobre a enfermeira Mary Phinney (Mary Elizabeth Winstead), uma enfermeira voraz pela causa abolicionista.

Este foco dá-nos o segundo tema principal da série: a posição das mulheres num mundo gerido por homens, para homens (como é dito na série – no spoilers intented: “Homens lutam, as mulheres rezam”).

Mary Phinney é viúva de um nobre alemão, e embora a razão pela qual uma baronesa – por título – se tenha juntado à causa do Norte não seja muito explorada, Mary encontra muita tensão na sua chegada à Mansion HouseA equipa médica do hospital não a vê com bons olhos e os primeiros minutos do episódio serão consagrados à tentativa de dissuasão da sua permanência.

A principal rivalidade, que posteriormente poderá vir a dar frutos na série e que não terá durado mais do que uma cena, é entre Mary e a enfermeira Anne (Tara Summers). Anne é uma enfermeira conceituada, estudou lado a lado com Florence Nightingale – vá, vou conter-me para não dar outra aula de História – e que vê a chegada da nova enfermeira-chefe como uma afronta.

Mas esta possível rivalidade não é de todo o foco deste episódio. Com o hospital no meio de uma zona de guerra, vários sulistas encontram-se hospitalizados sob cuidados de uma equipa de abolicionistas. Embora Mary, no seu espírito revolucionário, tente demover esta prática, será ao Dr. Jedediah Foster (Josh Radnor) que caberá relembrar que “aqui apenas há um tipo de soldado: o ferido”. Mas esta postura igualitária será perdida uma vez que as posições de Dr. Jedediah Foster face aos escravos é muito dúbia e racista.

O episódio dá-nos uma boa introdução aos dramas do hospital, fazendo-nos lembrar ER e The Knicks. A caracterização das personagens, e das práticas médicas, está à altura de um drama de época. Podemos ver práticas como o uso de morfina para combater a dor serem usadas com receio e os vestidos magníficos de  Emma Green (Hannah James).

Resumidamente, o episódio deixou-me com água na boca pela sua precisão histórica e inovação trazida à visão que poderíamos ter sobre este período.

Tiago Cortinhal