Hoje são inúmeros os assuntos tabu, os assuntos controversos, os assuntos que ardem que nem rastilho de pólvora, especialmente na internet. Assuntos estes que têm como base uma só: a Igualdade – ou deveria eu dizer – a Desigualdade. Sejam eles o feminismo, a homossexualidade, ou qualquer outro tipo de orientação sexual, a identidade de género, o racismo ou a xenofobia, atualmente não há um dia que se passe sem se encontrar alguma forma de aparato nas redes sociais sobre um destes tópicos.

Normalmente este aparato começa com algum comentário negativo de algum anti-feminista, homofóbico, transfóbico, racista ou xenófobo, ou com algum comentário ignorante de certa pessoa, seja ela famosa ou não; e acabam, felizmente, com a comunidade internauta a concluir tudo o que há de errado com esse comentário e a sensibilizar para a Igualdade.

No passado domingo, ao ver a cerimónia dos Emmys, havia uma categoria em particular pela qual ansiava. Todas as outras não me aqueciam nem arrefeciam muito, mas esta era verdadeiramente renhida. Estou a falar da categoria de Melhor Atriz Principal em Drama, com três nomeadas com 100% de potencial para receber a estatueta, de entre as restantes: Taraji P. Henson, Tatiana Maslany e Viola Davis.

Na minha opinião, qualquer uma delas era mais que merecedora de ganhar o prémio. E embora seja uma fã incondicional de Orphan Black e adorasse ver o trabalho da Tatiana condecorado, ficaria feliz com o prémio nas mãos de qualquer uma delas.

No entanto, qualquer que fosse o desfecho, qualquer que fosse a decisão do júri, tinha certeza de uma coisa: Um daqueles assuntos controversos ia surgir.

Felizmente ganhou uma das três que mencionei (se tivesse ganho qualquer uma das outras nomeadas era ridículo). Ganhou Viola Davis pelo seu incrível trabalho como protagonista em How To Get Away With Murder. E sendo ela a primeira mulher afroamericana a ganhar um Emmy na categoria, era mais que espectável que no seu discurso surgisse o assunto da igualdade de cor.

Viola apontou, e muito bem, num discurso que espetou a faca num dos principais problemas de Hollywood, que o que separa as mulheres de cor do que quer que seja é a oportunidade. Não é preciso pensar muito para entender o quão certa Viola está. Como é que é suposto vermos mulheres que não sejam caucasianas a serem reconhecidas por serem excelentes protagonistas quando quase não há, tanto na televisão como no cinema, papéis para protagonistas que não sejam caucasianas?

O que há então de errado com o discurso de Viola Davis? Simples: Ela ainda ter que o fazer.

O que me deixou triste nisto tudo foi, em pelo século XXI, ainda ser necessário fazerem-se estas observações, fazerem-se estes discursos, haver esta controvérsia no ar.

Já não deveríamos estar nós numa época da história da humanidade em que não fosse preciso falar das desigualdades de oportunidades? Vivemos numa época de mentalidades alegadamente abertas e compreensivas, nos nossos feeds de notícias do facebook todos apoiam causas nobres, todos apoiam a igualdade. Aqueles que não o fazem, também raramente se expressam em contrário. Mas depois se nos virarmos para o dia a dia, a falta de igualdade e aceitação continua a ver-se em todo o lado. Ainda estar a discutir desigualdades baseadas na cor de pele de uma pessoa parece-me absurdo.

Imaginem como seria bom repetir a cerimónia do passado domingo, repetir o momento em que Viola Davis sobe ao palco para receber o seu Emmy e fazer o seu discurso sem ter que endereçar quaisquer desigualdades. Em que gastaria ela o tempo? Talvez a agradecer à família, aos colegas, ao gato ou ao cão, como fazem tantos outros, despreocupadamente. Como seria bom que as manchetes não precisassem de fazer referência à vitória de Viola por ter sido a primeira mulher afroamericana a ganhar um Emmy na categoria Principal de Drama, mas sim por ser uma atriz fantástica a desempenhar um excelente trabalho na série que protagoniza.

Porque é que ainda é preciso virar tudo para o racismo, para as desigualdades?

Em 2005 – reparem que já lá vão 10 anos – Morgan Freeman deu aquela que considero provavelmente a melhor resposta de sempre à pergunta “Como acabar com o racismo?”

A resposta dele, simples e concisa foi: “Stop talking about it.” (Parem de falar sobre o assunto)

Dez anos depois ainda não conseguimos chegar a este objetivo, ainda continuamos a forçar o assunto.

Não, não é ao deixar de se falar sobre o assunto que se resolve o problema. O diálogo e a educação social são indispensáveis para o entendimento e compreensão, visto que muita gente ainda precisa deles.

Mas sim, já se devia ter deixado de falar sobre o assunto, porque já não devia sequer haver um problema.

Quantos mais anos serão necessários até um ator ou atriz, seja ele de que raça for, tenha ele a orientação sexual que tiver, identifique-se ele como identificar, possa subir ao palco para receber um prémio sem ter que sensibilizar para um problema de desigualdade na sociedade?

Não sonho com mundos perfeitos, sei que isto é impossível, pelo menos num futuro próximo, mas às vezes acho que só não andamos para a frente porque não queremos. Porque o que atrai, o que é empolgante, o que gera burburinhos na internet é o escândalo e o drama. E então, em vez de cultivar entendimento e compreensão, muitas vezes a única coisa que é cultivada é o sensacionalismo e a discórdia.

Mélanie Costa