A 1.ª temporada de Off Campus, da Prime Video, acaba por ser muito mais do que aquilo que inicialmente se poderia esperar. No fundo, fiz aquilo que não se deve fazer… julguei o livro pela capa. E a capa até era bonita, nada a apontar, mas afinal o interior tinha bem mais substância do que parecia à primeira vista.
À medida que a temporada se vai desenrolando, a série vai-se despindo dessa primeira impressão mais superficial. Começa num registo claramente mais leve, centrado em festas, álcool e relações intensas, mas rapidamente se percebe que isso não é tudo. Continua lá, e ainda bem, porque faz parte do charme, mas não é de perto nem de longe o que define a série. O curioso é precisamente essa mudança quase silenciosa. Sem grandes anúncios ou pretensões, vamos entrando no mundo, nas histórias e nos traumas de cada personagem, e a série começa a ganhar outra profundidade. Aquilo que parecia só diversão fácil vai-se tornando algo mais emocional do que eu estava à espera de admitir. Há também uma forma interessante de lidar com temas mais sérios. Nada é demasiado óbvio ou forçado, não há ali aquela necessidade de sublinhar tudo como se nós não percebêssemos entrelinhas. Os temas aparecem integrados na narrativa e nas escolhas dos personagens, o que faz com que tudo pareça mais natural.
E depois há algo que me surpreendeu mais do que esperava, a forma como a série desconstrói os estereótipos clássicos. Os rapazes do desporto, a rapariga certinha, a nerd, a artista ou a musical, todos esses rótulos acabam por ser só o ponto de partida. A série percebe depressa que isso não chega e vai desmontando essas caixas, mostrando que cada um deles é muito mais do que aquilo que faz. Não é sobre o que são no papel, é sobre o que são enquanto pessoas. No meio disto tudo, dou por mim a mudar de opinião mais do que uma vez. Houve momentos em que o meu “personagem de destaque” foi trocado como quem muda de playlist, o que diz muito sobre a forma como a série vai distribuindo atenção e camadas por todos eles.
Outro ponto que acaba por dar um sabor especial à série é a parte musical, que encaixa muito bem e ajuda a criar identidade própria. Não está ali só para encher espaço, ou fazer as cenas serem mais dramáticas ou engraçadas ou emocionais, está intrincado na história.
No fim, esta temporada acabou por ser uma surpresa muito mais positiva do que estava à espera. Entrei a achar que era mais do mesmo e saí a perceber que afinal havia ali mais qualquer coisa do que parecia à primeira vista. Não reinventa o género, não precisa, mas consegue ser mais envolvente do que aparenta e isso já diz muito. Que venham mais e assim e agora já percebo porque a Prime Video renovou logo Off Campus para uma 2.ª temporada. Sabia o que estava a fazer e o potencial do que tinha em mãos.
Os oito episódios que compõem a 1.ª temporada de Off Campus já se encontram disponíveis na Prime Video.
Melhor episódio:
Episódio 7 – The Faceoff – O episódio de destaque acaba por ser este, pois é onde a história principal atinge o seu pico de tensão. O mais interessante não é só esse momento de clímax, mas a forma como a série escolhe não o encerrar num simples cliffhanger, optando antes por explorar imediatamente as consequências do que aconteceu. Isso dá mais peso às decisões dos personagens e mostra uma vontade clara de fugir ao caminho fácil, ao previsível e aos clichés, tratando o impacto emocional com mais maturidade e respeito.
Personagem de destaque:
Hannah Wells (Ella Bright) – O personagem de destaque nesta temporada de Off Campus não foi nada fácil de escolher, precisamente porque a série consegue dar espaço a várias histórias que acabam por brilhar por razões diferentes. Vi-me investido na forma como Garrett (Belmont Cameli) tenta fugir ao seu estereótipo e ao peso do seu legado e na forma como John Logan (Antonio Cipriano) lida com as suas emoções de maneira mais fechada e defensiva, mas mantendo um alto nível de percepção do que se passa à sua volta. A jornada de Allie (Mika Abdalla), com a sua tentativa se redefinir, e de Di Laurentis (Stephen Kalyn), que esconde o seu lado mais genuíno atrás de piadas constantes e da atitude de bad boy, acabam por surpreender. Mas no meio disto tudo, foi inevitável que Hannah, pela sua história e pela sua evolução, acabasse por ser o centro emocional da temporada e os momentos musicais dela foram obviamente um dos pontos altos da trama.