O primeiro episódio desta minissérie deixou-me com elevadas expectativas e a verdade é que A Casa dos Espíritos (La Casa de los Espíritus) conseguiu cumpri-las, apesar de um ou dois episódios que ficaram aquém dos restantes. A componente de realismo mágico e misticismo que eu receava tornaram, na realidade, a história especial. Sei agora que já posso dedicar-me a ler os outros livros de Allende que evitei até aqui.
A série tem um universo muito rico, repleto de mulheres fortes, uma característica muito presente na obra da escritora, e debruça-se sobre três gerações de uma família pautada pela tragédia, mas também pelo amor. Clara, Blanca e Alba amaram intensamente, mas também sofreram e perderam muito. No entanto, esta não é apenas a história delas. É a história de Férula, de Rosa e até de Esteban. O cancro que destruiu a vida de tantos à volta dele e que no fim morreu sozinho, tal como a irmã lhe disse que aconteceria. A única coisa redimível nele é a relação com a neta, relação que não sobreviveria à descoberta dela da verdade.
A Casa dos Espíritos é uma minissérie marcante. Mostra-nos os dois lados, o bom e o mau da vida, e consegue conjugar muito bem os dois extremos. A felicidade pura da infância de Clara, a paz que Férula encontra junto da cunhada, os dias de Blanca com o seu primeiro e único amor, uma casa repleta de vida e carinho para Alba enquanto crescia… A morte de Rosa, a expulsão de Férula, a suposta morte de Pedro, a violência física e emocional que Clara e Blanca sofreram às mãos de Esteban, a tortura sofrida por Alba… Quando foram buscar Alba a casa para a prenderem e Esteban observava, sem nada poder fazer, enquanto lhe batiam, não consegui deixar de pensar que ele próprio tinha feito pior à mulher e à filha muitos anos antes. Só que ela estava a ser maltratada por estranhos enquanto a mãe e a avó tinham sido violentadas na própria casa, às mãos de quem as devia amar. No entanto, as coisas que fizeram a Alba foram inimagináveis. Tal como a tantas outras na mesma situação, violaram-lhe o corpo para lhe quebrarem o espírito. Mas não conseguiram. Este debruçar sobre a realidade política da América Latina é também um elemento muito marcante das obras de Allende e não é difícil fazermos um paralelismo à nossa própria ditadura.
Podes encontrar A Casa dos Espíritos na Prime Video.
Melhor episódio:
Episódio 3 – A pequena Clara já se tornou uma jovem mulher. Agora casada com Esteban, começam uma vida a dois, da qual Férula, a irmã dele, se torna uma parte muito importante. As cunhadas desenvolvem uma relação muito próxima. Férula parece encontrar em Clara aquilo que nunca teve com mais ninguém. Por outro lado, Clara parece recuperar com Férula um pouco daquilo que tinha com Rosa, a irmã que ela tanto amava. Clara tem um papel importante junto das pessoas que trabalham para o marido, criando uma escola para as crianças e tentando mostrar às mulheres que têm direitos. Ela partilha a sua vida com aquelas pessoas, não é apenas a mulher do patrão. É impossível não gostar dela. Durante uns anos, Clara e Esteban foram felizes, mas tudo muda quando ela descobre uma difícil verdade sobre o passado dele. Não o perdoa. Nem devia, sinceramente. Só que ela é um espírito livre e nunca aceita ser o tipo de esposa que se espera naquela época, ainda para mais num país conservador. No entanto, a parte que me dói mais a assistir é ver Férula a ser expulsa pelo irmão. Ela e Clara não se tornam a ver em vida, mas voltarão a estar juntas. Neste universo temos que acreditar que assim é. Dolores Fonzi assume o papel de Clara na versão mais velha.
Personagem de destaque:
Clara del Valle Trueba – As três versões de Clara em diferentes idades complementam-se na perfeição e são brilhantemente interpretadas por Francesca Turco, Nicole Wallace e Fonzi. A história começa com ela e é impossível não a considerar a figura central da série, mesmo que nos deixe no sexto episódio e só volte muito brevemente para amparar a neta nos seus momentos mais difíceis. Turco empresta algo de muito puro e genuíno à sua Clara e Wallace continua esse caminho até que a realidade das ações do marido a atingem. Algo muda nela, como mudaria qualquer pessoa. A Clara de Fonzi tem a mesma bondade das anteriores, mas de uma forma diferente. Daquela forma como só as pessoas que passaram por coisas horríveis conseguem ser generosas com os outros. Foram quebradas por dentro, mas não se quebraram para o mundo. Pelo contrário, parecem tentar fazer dele um lugar melhor e ninguém representa isso melhor do que Clara.