A 2.ª temporada de The Pitt, o drama médico da HBO Max, chegou ao fim depois de mais 15 episódios a acompanhar em tempo real um turno da equipa do serviço de urgência de um hospital fictício de Pittsburgh.
Depois de uma excecional 1.ª temporada, que levou o já sobrecarregado serviço de urgência ao seu absoluto limite com o afluxo de vítimas de um tiroteio num festival de música, a 2.ª temporada de The Pitt assume uma abordagem diferente.
Em vez de tentar replicar a escala dessa crise, esta nova temporada decide focar-se num longo e sufocante dia de verão, que coincide com o Dia da Independência dos Estados Unidos. Conseguimos prever os casos de insolação, as queimaduras de quem vai passar o dia em frente ao grelhador e as lesões causadas pelo manuseamento do fogo de artifício, mas a temporada não abdica completamente de acontecimentos inesperados. Ao longo destes novos episódios, The Pitt introduz o colapso de um escorrega aquático e a presença de agentes do ICE no serviço de urgência, para além de um ataque informático que obriga o hospital a desligar os sistemas e a regressar ao analógico. Porém, ao contrário da 1.ª temporada, nada disto converge para um caos total. A série recusa essa escalada, conseguindo extrair um drama igualmente envolvente do retrato de um sistema de saúde em rutura e das pessoas que nele tentam sobreviver.
De facto, nesta 2.ª temporada, a maior crise no hospital é interna, centrada sobretudo no estado mental do Dr. Robby (Noah Wyle), que acaba por contaminar toda a equipa, já por si fragilizada pelos seus próprios problemas. É um tipo de tensão menos explosiva, que se instala ao longo da temporada e culmina num final contido, que evidencia o absoluto desgaste das personagens, mesmo quando não têm de lidar com as consequências de um tiroteio num festival de música. Um líder volátil, consumido pela sua ideação suicida, aliado a um sistema de saúde em rutura e um cenário político tenso é mais do que suficiente para levar esta equipa ao limite. E, nesse aspeto, há que destacar a performance de Wyle. O ator interpreta uma personagem que, nesta temporada, não seria difícil de odiar: um homem irascível que recusa admitir não estar bem e que já não tem o discernimento para perceber o impacto que isso tem sobre quem o rodeia. E, mesmo assim, é impossível não torcer por ele.
Ainda assim, acho que a temporada peca por colocar demasiado peso no arco de Robby à custa do resto das personagens, principalmente as femininas. A série insiste constantemente na sua crise mental e doutoras como Mohan (Supriya Ganesh) e McKay (Fiona Dourif) parecem perder tempo de ecrã.
O arco da Dr.ª Mohan é particularmente frustrante. Durante a 1.ª temporada, Mohan esforçou-se para provar que tinha lugar naquele serviço de urgência, apesar de Robby não concordar com os seus métodos. Num mundo ideal, gostaria de vê-la a tornar-se mais segura de si e a mostrar que é uma excelente médica por causa (e não apesar) dos seus métodos. Adorava ver Robby a perceber que eles os dois não são assim tão diferentes, que, na verdade, olhar para Mohan é como ver-se ao espelho e, quem sabe, um dia tornar-se o seu grande mentor, tal como Adamson tinha sido para ele. No entanto, a saída de Ganesh já foi anunciada e a atriz não regressará para a 3.ª temporada da série. E eu, em parte, compreendo essa decisão. Mohan percebe que nem sempre pertencemos aos lugares onde queremos estar e, no contexto de The Pitt enquanto hospital de aprendizagem, a rotatividade dos médicos faz sentido. Ainda assim, enquanto espectadora, é um exercício ingrato investir emocionalmente em personagens que, pelos vistos, podem simplesmente desaparecer. Foi a mesma coisa com a Dr.ª Collins na última temporada e provavelmente a história irá repetir-se no final da próxima.
No geral, sinto que a série começa a mostrar algumas das limitações impostas pelo próprio formato. O facto de cada temporada decorrer ao longo de um único dia acaba por se tornar um entrave ao acompanhamento do desenvolvimento das personagens. Grande parte do seu crescimento acontece entre temporadas, sendo depois apenas comunicado aos espectadores a cada nova temporada, o que inevitavelmente reduz o impacto emocional desse percurso. Em teoria, continuo a adorar o conceito, mas, na prática, começo a ter pena de não poder acompanhar estas personagens para lá das quinze horas que cada temporada retrata.
Para além disso, também comecei a questionar se o modelo de estreia semanal não terá condicionado a minha apreciação desta 2.ª temporada. Não me interpretem mal, adoro que a HBO continue a apostar neste modelo, obrigando-nos a abrandar e a absorver melhor cada episódio e criando uma sensação de comunidade, onde falamos dos episódios com os nossos amigos, colegas de trabalho e/ou desconhecidos na internet porque estamos todos a acompanhá-los ao mesmo tempo. Mas a verdade é que vi a 1.ª temporada praticamente de uma só vez e, visto que a série acompanha as personagens em tempo real, isso acabou por destacar o caos que os profissionais de saúde que trabalham no serviço de urgência têm de suportar e a rapidez com que têm de lidar com ele. A imersão ininterrupta é, claro, a vantagem de ver qualquer série de uma só vez, mas para uma em que o tempo é tão crucial para o enredo, parece especialmente importante fazê-lo.
Apesar de tudo, The Pitt continua a destacar-se por aquilo que tornou a 1.ª temporada tão especial. Vivemos tempos assustadores deste lado da TV e há algo de quase subversivo em acompanhar personagens que tentam fazer o bem. É sempre bom relembrar que, no final das contas, e apesar do caos, da dor, da morte, ainda há pessoas boas a tentar pôr as coisas no lugar. É pena que a série nem sempre confie nessa ideia sem sentir necessidade de, quase didaticamente, a sublinhar, sem qualquer subtileza, como se temesse que os espectadores não estivessem a prestar atenção. E, vamos ser sinceros, se calhar não estão. Na verdade, o mais provável é estarem a fazer scroll no Instagram enquanto “veem” a série. No fundo, esta falta de subtileza acaba por refletir o mundo em que vivemos, onde as coisas mais importantes têm de ser ditas em voz alta para não se perderem no ruído.
As duas temporadas de The Pitt estão disponíveis na HBO Max.
Melhor episódio:
9:00 AM (Episódio 3) – O terceiro episódio desta temporada é muito focado nas histórias dos pacientes, insistindo na dimensão mais humana da série. É uma carta de amor ao amor, às relações que nos sustentam e destroem e uma lembrança que, apesar de tudo, nunca estamos realmente sozinhos. Há uma storyline em particular que envolve uma casal divorciado que é de partir o coração e que acaba por complementar as histórias de outros casais que se encontram nas urgências naquela hora.
Personagem de destaque:
Dr.ª Mel King (Taylor Dearden) – Desde a 1.ª temporada que Mel tem um lugar especial no meu coração. É uma querida e uma excelente médica, que, nesta temporada, ganha uma nova dimensão quando se apercebe que toda a vida viveu para cuidar da irmã e, no processo, se esqueceu de si mesma. Agora que a irmã está a ganhar independência, Mel é confrontada com o facto de não saber quem é para além de uma cuidadora, tanto na sua vida profissional, como na sua vida pessoal. A cena final, já depois dos créditos, mostra-nos uma Mel mais solta, quem sabe mais pronta para, na próxima temporada, cuidar mais de si do que das outras pessoas.