Terminou ontem a 1.ª temporada da antologia Love Story, focada na relação de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette. É um bocado esquisito ver séries que envolvem pessoas reais da história recente. Sobretudo quando essas pessoas ou os seus familiares e amigos ainda estão vivos. No entanto, confesso que só tive essa sensação no último episódio. Senti-me uma espécie de intrusa a assistir à tragédia alheia. Uma intrusa na dor de Caroline, uma entre muitas. Uma intrusa no sofrimento daquela mãe, que perdeu duas filhas. Mas o momento que mais me marcou foi quando Ann, a mãe de Carolyn, disse as seguintes palavras a Caroline sobre a filha: “Ela disse que já não reconhecia a pessoa em que se tinha tornado. E agora essa pessoa ficará imortalizada para sempre. Só gostava que tivesse vivido o suficiente para ser recordada por outra coisa”. Todos aqueles que viram a série puderam assistir a isso mesmo. Ao quanto o mundo de Carolyn e a própria se ‘encolheram’ à medida que entrou na órbita dos meios de comunicação e dos paparazzi em particular. Como é que uma jovem que sempre levou uma vida normal aguenta ser ‘arrastada’ para aquele mediatismo todo tão constante?
Aquela vida foi o que John sempre conheceu. Não significa – nem estou a dizê-lo – que tenha sido fácil, mas era a norma para ele. Cresceu sob a luz dos holofotes, assim viveu e assim morreu. Portanto, John não compreendia como era para Carolyn e, no meio disso tudo, perderam-se da relação. Não irremediavelmente, não creio, mas perderam. E Carolyn precisava de tempo para voltar a ser quem era. The cool girl. Acabei a série, este último episódio, a pensar nesta expressão. Não sei se nasceu de Gone Girl, livro escrito pela incrível Gillian Flynn, mas é daí que a conheço. E depois andei na internet a ler mais coisas sobre os Kennedy e os Bessett e li que, para a adaptação cinematográfica de Gone Girl, Rosamund Pike foi encorajada pelo realizador do filme, David Fincher, a inspirar-se em Carolyn. É preciso conhecer bem o sentido em que a expressão é usada para perceber a forma como faz sentido usá-la com Carolyn, mas só no bom sentido. Porque ser a cool girl não significa, de todo, ser uma psicopata maluca como a que temos na história de Flynn. Mas é um facto que há algo de inerentemente cool em Carolyn. O próprio aspeto físico, a forma como se veste, o quanto parece inatingível ao início, mas se transforma à medida que se vai conhecendo bem…
Contudo, apesar de se tratar de pessoas reais, acabei por ver a série como se não conhecesse ninguém porque esta história trágica acabou quando eu era miúda. Crescida o suficiente para me poder lembrar (recordo-me perfeitamente de quando a Princesa Diana morreu, dois anos antes), mas não é algo do qual tenha qualquer memória. Aliás, quando comecei a ver a série nem sabia como ia acabar, embora me tenha spoilado a mim mesma ao ir à página da Wikipédia ainda durante o primeiro episódio.
Love Story é uma antologia e não sei o que será das próximas temporadas, mas esta foi bastante boa. Começa de uma forma que agarra ao ecrã, mas sem ser especialmente marcante, e acaba a deixar-nos com a sensação de que vamos ficar a pensar na série durante muito tempo. O argumento e a prestação do elenco nestes três últimos episódios, em especial, é muito boa. É aqui que a série nos deixa entrar verdadeiramente na mente, no coração, dos seus protagonistas, o que nos permite conhecê-los muito bem. As dificuldades na relação de John e Carolyn são mostradas de uma forma que nos deixa frustrados e envolvidos ao mesmo tempo e, para mim, não há nada mais importante numa série, filme ou livro do que fazer-nos sentir coisas. Raiva, felicidade, frustração, paz, tristeza… A única coisa que não quero sentir é indiferença. E não senti, de forma nenhuma.
E, ainda para mais, parece que somos mesmo transportados para o passado, até pela banda sonora, com as boas velhas músicas dos anos 90. A incrível Linger de The Cranberries, por exemplo, Dido… E depois temos o guarda-roupa, que merece ser elogiado. A sério, o visual de Carolyn, cabelo e roupa, é absolutamente incrível e eu não quero saber de moda para coisa nenhuma, mas é impossível não reparar. É a personificação de que menos é mais. E John… Bem, dá mesmo aquela sensação de que era genuíno e que isso era grande parte do porquê de as pessoas serem obcecadas por ele. Com aquele jeito de miúdo, de boné com a pala para trás, todo descontraído.
Comecei a ver a série mais por curiosidade do que por interesse genuíno, mas fiquei rapidamente convencida de que Love Story tinha uma boa história para contar e que pessoas competentes se tinham unido para lhe dar vida. Foi até um bocadinho difícil ter que esperar pelos episódios semana a semana. É daquelas séries que se quer ver toda de seguida.
Os episódios desta 1.ª temporada de Love Story já se encontram todos disponíveis no Disney+.
Melhor episódio:
Episódio 7 – Carolyn descobre verdadeiramente o que é deixar de viver no anonimato. Não é ingénua e sabia que não ia ser fácil, mas ninguém poderia imaginar o quão impossível se revelaria. O assédio constante dos paparazzi, os meios de comunicação de uma forma geral sempre obcecados com eles, o deixar de levar uma vida normal para passar a lidar com os olhares do mundo inteiro… É brutal para Carolyn e também não é fácil de assistir. Ainda nem 7 anos eu tinha quando a Princesa Diana morreu, mas não me esqueci do choque que parece ter sido para o mundo. Nunca me esqueci do ano em que aconteceu. Nunca deixei de pensar que se os paparazzi não a tivessem perseguido, ela teria visto os filhos crescer. E vi Carolyn a rever-se na princesa. Como não? E vemos o tal mundo de Carolyn a encolher-se. Vemo-la a ficar vulnerável como nunca antes. Vemos que John, também ele a tentar lidar com as coisas, não faz ideia nenhuma de como a ajudar. Há alturas até em que é impossível não pensar que também ele é parte do problema, mesmo que também seja uma vítima do mediatismo e não tenha pedido nada daquilo. Acho que é estranho para nós na Europa, principalmente num país pequeno como Portugal, ver os americanos a tratarem a família de um presidente morto como uma obsessão. Nos Estados Unidos, tudo é passível de se tornar parte da “cultura pop“.
Personagem de destaque:
Caroline Kennedy (Grace Gummer) – Já falei o bastante sobre Carolyn e sobre John, mas Caroline é uma figura importante ao longo de toda a série e merece também atenção. Não só, mas grandemente por aquilo que vemos dela no último episódio. Inicialmente, nem fiquei convencida com a escolha de Gummer para o papel. Não senti aquele clique, mas acabei por mudar de ideias.