Classificação

9
Interpretação
9
Argumento
9
Realização
9
Banda Sonora

Confesso que sou uma daquelas pessoas fascinadas com crimes e psicopatas. Gosto de ler e estudar muitos desses casos, ver filmes e séries do género e tentar entrar na mente destes criminosos. Por isso, o caso da Central Park Joggercomo ficou conhecido, despertou de imediato o meu interesse. Esta série – ou melhor, minissérie, – documental relata em quatro episódios de praticamente uma hora cada o que aconteceu.

Mas vamos lá a um breve resumo, para entenderem o caso. No dia 19 de abril de 1989, por alturas da Páscoa, a polícia encontrou o corpo de Trisha Meili, de 28 anos, no Central Park. Trisha costumava correr no parque e naquele dia foi atacada, violada e deixada para morrer no chão sem o mínimo de humanidade. Esteve doze dias em coma, mas conseguiu sobreviver, só que, infelizmente, não se lembrava de nada. Na mesma madrugada, dezenas de adolescentes negros do bairro East Harlem, que fica perto do Central Park, estavam a apedrejar ciclistas, a bater em corredores ou a roubar comida a mendigos. Raymond Santana, Kevin Richardson, Korey Wise, Yusef Salaam e Antron McCray foram presos e pressionados pela policia para assumirem o crime mesmo que não existissem quaisquer indícios de que estavam envolvidos. A polícia interrogou os rapazes durante mais de 30 horas. Não os deixava beber, comer ou mesmo dormir até eles confessarem. A dada altura, sob forte desgaste físico e psicológico, os rapazes aceitaram o acordo da polícia para assumirem o crime mesmo não o tendo cometido.

Este caso ficou famoso. Para quem não sabe do desfecho, mais tarde o verdadeiro assassino confessou o crime e os rapazes foram soltos, mas esse não é o tema que a série de Ava DuVernay quer tratar. A série explora bem o racismo e a descriminação que ainda hoje existe para com pessoas de raça negra. Confesso que escrever “pessoas de raça…”, seja ela qual for, custa-me. São pessoas, ponto. Mas a verdade é que a supremacia branca é algo que me faz confusão. Hoje as coisas estão melhores, mas mesmo assim ainda existe e o que mais me custou ver neste episódio nem foi a violência do crime ou a pressão da polícia para ter um culpado. Foi a forma como os miúdos perceberam, até antes dos próprios familiares, que tinham de assumir aquilo porque senão ia ser bem pior para eles. É duro ver injustiças, mas é ainda mais duro perceber que nem existe vontade de lutar pela justiça. Pessoalmente existe uma personagem que me tocou muito, que foi o Kevin. Talvez por ser apresentado como um miúdo puro e cheio de sonhos que se vê numa situação que lhe estraga tudo sem culpa nenhuma.

Tecnicamente não posso dizer muito que não seja elogiar. Boa escolha de atores! Boa realização! E parece-me, embora ainda não tenha visto todos os episódios, que foi uma boa escolha a divisão em quatro partes. O argumento também foi muito bem escrito e acho que a história está bem retratada. E claro, tanta qualidade tinha de ter bons nomes por trás. Dois deles são dois monstros do entretenimento como Oprah Winfrey e Robert De Niro.

A série está também a criar um movimento contra a forma como as pessoas de raça negra são tratadas aos olhos da lei, parafraseando o titulo dado em português pela Netflix. Espero que relatos e retratos como este cheguem a quem de direito e que futuramente não ouçamos mais notícias como as que ainda vamos ouvindo sobre a forma como as minorias são tratadas. Vejam esta minissérie: é o mais simples e direto que posso ser!

Carlos Real