Classificação

9.8
Interpretação
9.8
Argumento
9.8
Realização
9.8
Banda Sonora

[Esta review contém major spoilers. Se ainda não viste o episódio, não leias o que se segue abaixo. Foste avisado.]

Estou absolutamente sem palavras. Ao longo destes nove anos foram poucas as vezes que The Walking Dead conseguiu criar um efeito de puro choque generalizado nos espectadores e que ofereceu um episódio a roçar na perfeição. The Calm Before entra diretamente para o topo da hierarquia dos melhores episódios da série, sem qualquer espaço para dúvidas.

A cena inicial daquele casal desconhecido foi uma boa premonição daquilo que esperava algumas personagens e também da construção de todo o episódio. Por um lado a felicidade e a sensação de esperança que a feira entre as comunidades trazia; por outro, a retaliação dos Whisperers e a reviravolta que isso significa.

Toda a primeira parte do episódio assentou na ideia de que realmente estas pessoas conseguiram construir algo de bom no meio de tanta coisa má e de que podem pensar em coisas frívolas como ir ao cinema ou comprar roupa. Seria fantástico se realmente assim o fosse, não seria? Tivemos discursos (por momentos, a visão de Carl de como deveria ser o futuro realizou-se), reencontros (Carol figura-se como uma espécie de modelo a seguir aos olhos de Judith, parece-me), pactos (um último momento positivo antes da tempestade). Foi, verdadeiramente, o “reino” das maravilhas e foi bom enquanto durou.

Tudo se altera quando Daryl, Carol, Michonne e Yumiko partem e, claro, dão de caras com um grupo de walkers. De referir que antes, quando encontravam zombies pelo caminho, uma pessoa já nem se preocupava, estava garantido que iam matá-los e seguir viagem. Mas com os Whisperers? Damn. Medo genuíno. A produção tem feito um trabalho do caraças com estes vilões. Acho que os grupos nunca enfrentaram uma ameaça deste calibre e começo a duvidar se terão capacidade para os derrotar num futuro próximo.

Enquanto sofremos por antecipação, percebemos que Alpha se infiltrou na feira e todos ali presentes estão à sua mercê. Quando apareceu pela primeira vez com a roupa da morta do início tive alguma dificuldade em perceber se ela estava a usar a máscara também ou se era mesmo a sua cara. Lá mais para a frente percebi que estava lavadinha e que não tinha nenhuma “pele” por cima. Ela é ainda mais esquisita em modo “normal” do que em modo Alpha e ganha ao Daryl sem qualquer problema na javardice corporal.

Por momentos pensei que Alpha fosse desprovida de qualquer tipo de emoções humanas e que tivesse matado a filha. Parece que não. E Lydia conseguiu finalmente defender-se. Foi pena não ter coragem para matar a mãe logo ali e ficar com o assunto resolvido. Se pensarmos bem, é por causa dela que os Whisperers são um problema de todo, por isso, mesmo que Lydia tivesse morrido, não me teria afetado.

A caminhar para os 10 minutos finais, o episódio ganha proporções de tragédia shakespeariana e a inquietação toma lugar. Alpha mostrar a horda massiva a Daryl deixa antever que há hipóteses de caírem em falso. Não se mostra o nosso maior trunfo ao inimigo, Alpha. Toda a gente sabe isso. Quando a “fronteira do norte” é mencionada é a vez da angústia se sentar à mesa. Contudo, Daryl e companhia estão livres e safaram-se a mais uma. Por fim, a dita fronteira é avistada ao longe e a última convidada chega, a antecipação. Por esta altura já estava a fazer figas para que fossem personagens secundárias e pouco importantes.

Não sei se consigo transpor para palavras aquilo que senti quando cada cabeça foi revelada, mas vou tentar. Quando mostraram as três primeiras, respirei de alívio e pensei “Ufa, são os Highwaymen. Menos mal”. Depois mostraram as dos quatro adolescentes de Kingdom e a de Tammy e também me senti aliviada, ainda que triste por Earl. E pronto, depois veio o pior. Enid e Tara naquelas estacas foi uma facada enorme no coração. Não esperava de todo que fossem matar estas personagens, não quando há outras que podiam muito bem ser dispensadas (estou a pensar em Gabriel, Rosita e Eugene). Quanto a Henry, é-me indiferente, mas tenho pena pela Carol. Coitada, se virmos bem já é o quarto filho que perde.

Foi uma cena brutal, no sentido em que foi crua e horrível e daquelas que me vai ficar para sempre na memória. Não tinha uma reação assim a um episódio de TWD desde que Negan matou Glenn (pure ugly crying, já agora). Negan foi daqueles vilões feitos para despertar mixed feelings no espectador e para pender sempre mais para o lado do gostar. Mas Alpha, é outro patamar de ódio. Não há como sentir outra coisa que não desprezo e raiva por esta personagem. Posto isto, tenho de dar os parabéns a Samantha Morton. Não é qualquer uma/um que consegue fazer o espectador odiar uma personagem com tanto vigor e são poucos os atores na história das séries que alcançaram esse feito. Todo o pacote – roupa, aparência, voz, linguagem corporal -, fazem de Alpha uma verdadeira vilã e de Norton uma grande atriz.

A season finale muito provavelmente não vai ultrapassar a espetacularidade de The Calm Before, mas aguardam-se grandes coisas de qualquer das formas. Sem dúvida que é um dos finais de temporada mais aguardados da história da série. Demasiadas coisas aconteceram para que consiga mencioná-las todas aqui, mas sintam-se à vontade para comentarem as vossas partes preferidas ou pormenores que tenham gostado.

Beatriz Caetano

P.S. Fui só eu ou vocês também sentiram muitas vibes medievais neste episódio?
P.S.1. Acho que a produção se inspirou em Game of Thrones para algumas partes do episódio. As cabeças nas estacas fazem muito lembrar a morte de Ned e a morte de duas mãos cheias de personagens de uma vez só traz à memória o Red Wedding.