Classificação

10
Interpretação
9
Argumento
9
Realização
8
Banda Sonora

[Pode conter spoilers!]

Temporada: 1

Nº de episódios: 8

The Act, um original da Hulu, propõe-se a ser uma antologia, mudando a sua história a cada temporada. Esta primeira temporada aborda o assassino de Dee Dee Blanchard (Patricia Arquette) às mãos da filha, Gypsy Blanchard (Joey King), e do namorado desta, Nick Godejohn (Calum Worthy).

The Act estreia-se no mundo das séries como uma temporada quase perfeita. A produção da Hulu acerta em muitos aspetos, mas houve pequenas falhas. É precisamente pelo que achei menos positivo que começo esta análise. Apesar de sabermos que é a adaptação de uma história verídica e que, como tal, não pode, nem deve ser fielmente transportada para a TV, sinto que faltou um pouco de expansão do universo de mãe e filha. Todos os episódios foram muito sobre as relações maternais, inclusive, quando conhecemos a relação que Dee Dee tinha com a sua mãe, (Margo Martindale), que digamos, também não era mais saudável. Ao longo dos 8 episódios, a história gira muito em volta da relação entre as duas, esquecendo-se, por exemplo, do pai (Cliff Chamberlain), que aparece apenas num episódio. Sinto que, Chloë Sevigny como Mel e AnnaSophia Roob como Lacey (curiosamente mãe e filha com uma relação bem diferente) foram um pouquinho mal aproveitadas, só tendo verdadeiro destaque nos primeiros dois episódios e no último. Ou seja, a falta de aposta nas personagens secundárias tornou, em certo ponto, nomeadamente os episódios a meio da temporada, a história lenta e repetitiva.

Mas todo este pequeno pormenor menos feliz é totalmente compensado por vários pontos a favor. Comecemos pelas interpretações do elenco. Patricia Arquette já é bem conhecida por todos nós, por isso, a sua versão de Dee Dee acaba por não surpreender quem já conhece o seu talento e trabalhos passados. Não quero dizer que não está excecional, porque esteve, mas é ultrapassada por Joey King que entrega ao espectador uma Gypsy absolutamente arrebatadora de tão parecida com a verdadeira que está. A sério, é assustador em certos momentos! São as duas que nos fazem ficar completamente viciados nesta história verídica, que apesar de sabermos como acaba, queremos saber o que levou Gypsy aos seus atos. Suspeito que vai estar entre as nomeadas na temporada de prémios.

Também todos os cenários que são construídos para a história revelam-se maravilhosos. Sobre isto aconselho também que vejam o documentário sobre esta história e verão todas as semelhanças e pormenores que não se esqueceram de apresentar ao espectador. E, de facto, os cenários que montaram transmitem ao espectador toda a sensação de que algo surreal estava a acontecer ali. O controlo e poder que Dee Dee exercia sobre a filha fica espelhado em todos os pormenores da casa onde vivem. Tantos brinquedos, que Gypsy recebia para ir ao médico, tudo tapado para que não seja possível ver o que se passa dentro. São o complemento genial para a atuação de Patriccia Arquette e Joey King

Mas, confesso-vos, que aquilo que mais me deixou colada em de The Act é os sentimentos que provoca. Sentimos muita raiva em relação à maneira como Dee Dee trata Gypsy, como se comporta perante a sociedade, mas também não conseguimos sentir apenas compaixão e pena por Gypsy. Para mim, é sinal de que estamos perante um produto de qualidade quando somos levados a ter sentimentos tão distintos como a raiva e a compaixão pelas suas personagens.

Deixo aqui uma pergunta. A pena atribuída a Gypsy foi justa? Em minha opinião não, porque entendo que a construção e planeamento de todo o crime foi dela, com requintes de frieza, e não de Nick, que acabou por apanhar prisão perpétua.

Por fim, The Act, destaca-se sobretudo pela interpretação e construção das personagens, já que a história é conhecida e o final é-nos desvendado logo no início. Ninguém em The Act está completamente inocente, nem é completamente culpado. Todos tiveram culpa no que aconteceu, inclusive os médicos que nunca se interessaram verdadeiramente pelo caso. Apesar de sabermos como vai acabar aquela história, queremos e ficamos a saber como foi que levou alguém a cometer tais atos.

Melhor episódio:

Episódio 8 – Todos são bons, mas gostaria de destacar o último. Pela conclusão da história e sobretudo porque é aquele em que ficamos mais dúbios em relação a Gypsy. Houve momentos em que percebemos o quanto sente falta da mãe, mas também o quando manipulou Nick para que este cometesse o crime. Acrescento ainda o diálogo entre Gypsy e Mel. Apenas genial!

Personagem de destaque:

Gypsy Blachard – Não é, de todo, apenas vítima da mãe que teve. Gypsy é também manipuladora e sabia de, pelo menos, parte das mentiras da mãe, com atitudes que ajudam na construção de toda a farsa de Dee Dee. É aquela personagem que mais desperta sentimentos ambíguos no público.

Catarina Lameirinhas