Quando se fala em séries de animação, pelo menos aquelas dirigidas a um público adulto, a maioria de nós pensará automaticamente em The Simpsons. A série apareceu há quase trinta anos, previu uma série de acontecimentos – sendo o mais preocupante de todos a eleição de Donald Trump – e aquela família amarela tornou-se icónica, tanto nos Estados Unidos como por cá. No entanto, há muitas outras séries de animação para adultos e decidimos juntar-nos para vos falar um pouco sobre algumas das nossas preferidas, em homenagem ao Dia Internacional da Animação, que se celebra amanhã.

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American Dad!: Não, eles não são os Tanners com o extraterrestre Alf, mas sim os Smith, acompanhados de Roger, um ser vindo de outro planeta, e Klaus, um peixe que já foi um homem. São estes os seis elementos que formam esta família peculiar, mas bem divertida. O pai trabalha na CIA, a mãe é dona de casa, a filha mais velha está sempre a desafiar o conservadorismo do pai com as suas opiniões políticas liberais e o filho mais novo é o típico nerd que é gozado na escola. No entanto, os melhores personagens são os não-humanos. A dinâmica familiar, a vida amorosa de Hayley, os problemas de Steve e o trabalho de Stan estão no centro de muitos dos enredos desta série que se distancia de outras ao não se debruçar especificamente numa crítica à sociedade ou em alusões à cultura pop. American Dad! faz uso do humor sobretudo com recurso às particularidades dos seus personagens e, apesar de não fugir a um certo exagero e estereótipos, tem realmente piada. É impossível resistir a Klaus!

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Bob’s BurgersEsta série não começou como uma das mais populares e tem sido satirizada constantemente por The Simpsons, mas nos últimos anos tem vindo a ganhar destaque no mundo da animação. Criada por Loren Bouchard, estreou em 2011 e segue as aventuras dos Belcher, que vivem num apartamento por cima do restaurante da família. Apesar da falta de popularidade, Bob’s Burgers conseguiu marcar presença no mercado televisivo devido ao seu humor simples e personagens com quem facilmente nos relacionamos. Bob é o típico pai de família que deseja viver de forma simples, mas que é constantemente atraído para as aventuras dos que o rodeiam. Linda, a mãe, não perdeu a força da juventude e adora puxar o marido para confusões. Tina é a sátira perfeita da adolescente fangirl que vive constantemente dividida entre os rapazes e as loucuras dos irmãos. Gene foge ao estereótipo dos rapazes e é um amante de música, com um ligeiro toque de drama queen. Louise, a irmã mais nova, a rapariga dos sete ofícios, gosta de mostrar a aparência dura enquanto por dentro é apenas uma menina.

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Bojack Horseman: Desengane-se quem ainda pensa que ”desenhos animados são só para crianças”, pois nem sempre é assim. E vamos provar-vos isso com Bojack Horseman, uma série criada em 2014 por Raphael Bob-Waksberg e que foi este ano classificada pela revista Thrillist como a melhor série original da Netflix. Aborda não só assuntos da atualidade (de forma bastante satírica), como também pinta um retrato muito fiel de alguns problemas de cariz psicológico, como é o caso da depressão, vício e traumas. Bojack é um ator que viveu os seus tempos áureos nos anos 90, altura em que foi protagonista de uma famosa série intitulada Horsin’ Around. A sua fama acaba por diminuir bastante após o fim da série e portanto ele quer muito voltar a ser uma celebridade. Bojack é um indivíduo muito complicado e que por vezes acaba por se tornar uma vítima da sua personalidade extremamente auto-destrutiva, pois essa característica leva-o muitas vezes a magoar os seus amigos (Diane, Todd, Princess Carolyn e Mr. Peanutbutter) e, consequentemente, a viver grande parte da sua vida na solidão. A série tem personagens muitíssimo complexos, como é o caso do protagonista, cuja história de vida (e sobretudo infância) nos levam a compreender facilmente o porquê de ser como é. O vocabulário da série é rico em asneiras e expressões bruscas que ajudam imenso a retratar bem o que cada personagem está a sentir e isso torna a série ainda mais apelativa. No início, não recebeu as melhores críticas e era considerada uma série ”fraca”, mas agora é universalmente elogiada e consegue facilmente deixar o espectador a pensar na vida.

Disenchantment

Disenchantment: Esta série é mais um produto da fantástica imaginação de Matt Groening e tem tudo aquilo que The Simpsons não nos oferece: uma história contínua e um humor negro e sarcástico tão diferente das piadas e paródias diretas. Com um enredo bem construído e ao mesmo tempo divertido, Disenchantment segue as aventuras de Beanie, uma princesa rebelde; Elfo, um elfo fora do normal; e Luci, o demónio mais sarcástico de sempre. Decidida a ser mais do que uma escrava da sociedade monárquica, Beanie vive segundo as suas próprias regras, apoiada pelos seus melhores amigos. Esta série foi uma deliciosa surpresa que preencheu o vazio deixado por Futurama.

Family Guy

Family Guy: Bom, talvez tenha sido o paralelismo à série The Simpsons ou o pormenor que as diferencia que me tenha levado a começar a ver Family Guy. Esta obra prima de Seth MacFarlane conta a história do dia a dia da família Griffin: o pai Peter, a mãe Lois, a maluca da filha Meg, o zé-preguiçoso do Chris, o génio-no-corpo-de-um-bebé Stewie e o cão-mais-fluente-em-inglês-de-sempre Brian. Eu sei, eu sei, os haters vão dizer que é uma cópia de The Simpsons, mas não. A diferença está nos episódios únicos e imprevisíveis, no dom de fazer piadas burras e ao mesmo tempo inteligentes nas entrelinhas (que acho que The Simpsons não consegue), na loucura que esta família é, nela encontrando, ao mesmo tempo, a sua forma de normalidade. Family Guy é um ótimo passatempo e uma ótima forma de nos rirmos durante um bocado. Acima de tudo, prima pela capacidade de ter piada sem estar constantemente a satirizar a realidade mais infeliz de alguns estereótipos ou grupos sociais. Se é um ensinamento cultural e moral maravilhoso? Nem por isso. Mas é uma mixórdia de personalidades que não encaixam e que convivem na mesma casa, em que cada um tem a sua história e o seu momento e conseguem dar ao espectador momentos de entretenimento maravilhosos. E, agora a sério, quem é que consegue resistir à relação amor/ódio de Stewie e Brian?

Final Space

Final Space: Esta é ainda uma série “caloira”, tendo apenas uma temporada na Netflix, apesar de já ter outra confirmada para 2019. É uma das melhores estreias de 2018 no mundo da animação e grande parte do seu encanto prende-se à ótima exploração do pequeno plantel de personagens. Gary, Mooncake, HUE, Quinn, Avocato, Little Cato e até mesmo KVN são um bando com o qual facilmente se criam laços apenas em dez episódios e cada um deles possui tantas camadas como uma cebola ou como o Shrek. Com interpretações excelentes destaca-se o talentoso David Tennant no papel do vilão Lord Commander, cujo plano é usar Mooncake para libertar o “Final Space” e trazer o fim do Universo, e só Gary e companhia estão entre ele e o seu objetivo. Cheguei-vos a referir que Gary é um género de cowboy espacial, como Peter Quill nos filmes dos Guardians of the Galaxy da Marvel, e que quando encontra o pequeno alien Mooncake está a cumprir uma pena na prisão, onde não se podem comer bolachas? Já estão curiosos? A animação é outro dos pontos fortes: espantosa e com um estilo moderno completa bem o sentido de aventura que a série transmite, assim como a banda sonora atua como a cereja no topo do bolo. A narrativa é muito bem construída, entregando-nos uma história que se equipara a ler um agradável livro ou ver um bom filme. “May I have a cookie now?”.

Futurama

Futurama: Também criada por Matt Groening, Futurama teve sete temporadas distribuídas entre 1999 e 2013. É verdade que nunca atingiu a popularidade da “irmã mais velha” The Simpsons, mas é uma das séries animadas mais fascinantes que alguma vez existiram. Imaginem que no último dia de 1999 estavam a trabalhar na distribuição de pizzas em Nova Iorque, que a vossa falta de inteligência vos leva a ter uma vida miserável e marginalizada, até ao momento em que, acidentalmente (ou não), tropeçam e acabam criogenizados durante um milénio. É exatamente isto que acontece ao personagem principal, Fry. Ao acordar num mundo futurista, ele consegue emprego na Planet Express, uma empresa de entregas interplanetária, onde integrará a equipa mais improvável do universo: Leela, a alien ciclope; Bender, o robô perverso; o Professor Farnsworth, o génio e inventor dono da empresa; Zoidberg, o doido alien humanoide que parece a fusão de uma lula com um caranguejo; e Amy, a multimilionária e herdeira de boa parte de Marte, que estagia na empresa. Esta equipa vai viver inúmeras aventuras fantásticas na Terra e no espaço, sendo que algumas delas poderão raiar o ridículo. É neste contexto que acompanharemos Fry, no seu novo mundo, rodeado pelo insano desenvolvimento tecnológico onde, apesar de tudo, se sente verdadeiramente em casa pela primeira vez. Apesar da comédia, as séries de Matt Groening conseguem ter o dom da profecia, o que torna delicioso tentar imaginar o mundo daqui a mil anos, com toda aquela tecnologia e com a convivência entre espécies interplanetárias. Apesar de cancelada, garantimos que (re)ver Futurama vai proporcionar-vos momentos de lazer e aprendizagem, não só sobre o nosso futuro, mas também sobre o nosso passado.

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Rick and Morty: Eles conquistaram o pequeno ecrã, tornando-se rapidamente um fenómeno equivalente a La Casa de Papel, no sentido em que a certa altura toda a gente andava a falar desta série de animação e se ainda não tinhas visto estavas quase excluído da sociedade. Rick and Morty é uma comédia que conta a história de um cientista genial, mas louco, que explora os mistérios do universo com o seu neto, que é muito pouco inteligente, e a dinâmica entre os dois é icónica e hilariante. Para além de Rick e Morty há um leque grande de personagens que contribuem para tornar esta série muito engraçada, a começar pela irmã de Morty, Summer, os seus pais Bett e Jerry e, de vez em quando, temos participações especiais como a de Cornvelious Daniel, interpretado por Nathan Fillion. Existem atualmente três temporadas que perfazem um total de 31 episódios, com alguns clássicos como Pickle Rick ou Rickshaw Redemption, mas é difícil apontar simplesmente um ou dois episódios porque nestes todos existem muitos que são espetaculares e poucos são os menos bons. Aliás, por algum motivo a série está cotada com 9.3 no IMDB. Para terminar, mais um motivo para ver Rick and Morty é que a série fez história entre as séries de animação, tendo conseguido ser renovada por mais 70 episódios de uma assentada. Segundo o cocriador, Dan Harmon, era a quantidade de que precisavam para prosseguir com a narrativa, portanto podemos esperar algo em grande.

Samurai Jack

Samurai Jack: “Long ago in a distant land…” a maior parte dos fãs sabe de memória esta parte introdutória de uma das séries de animação mais marcantes de sempre. Samurai Jack contou com quatro temporadas na Cartoon Network (2001-2004), um período de pausa de 13 anos e finalmente uma derradeira temporada na Adult Swim (2017). Durante o seu tempo de exibição, entre muitos prémios, conseguiu o feito épico de arrecadar sete Emmys. A série destaca-se pela forte componente de ação, com batalhas violentas e intensas; uma animação fantástica que atingiu patamares abismais na sua última temporada; por um leque de personagens cativantes e complexas; e uma história bastante completa com começo, meio e fim. Jack é um modelo de herói a seguir, com valores exemplares no que toca à honra, persistência e esperança na luta contra o mal e, apesar de muitas das suas batalhas serem violentas, nunca Jack se desviou do seu caminho do correto, sendo um herói praticamente tão imaculado como o seu kimono branco. A história pô-lo frente a frente com Aku, a personificação do verdadeiro mal, que prestes a ser derrotado na sua primeira batalha consegue recorrer a uma magia suja e enviar Samurai Jack para um futuro distante onde o seu reinado é absoluto e o seu poder divino. Esta série é sem dúvida um must-see que facilmente entra para o meu top 3 de séries de animação. Agora que a nostalgia bateu forte vou só ali rever os melhores momentos de Samurai Jack. “Back to the past, Samurai Jack!”

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South Park: “Má animação e piadas de esterco“ foi o que a maioria dos críticos teve a dizer aquando da produção do piloto de South Park, que esteve para ser cancelada mesmo antes da sua estreia. Vinte e um anos depois e agora na sua 23.ª temporada na Comedy Central, a série não só é conhecida nos quatro cantos da Terra como possui uma enorme legião de fãs, cinco Emmys, um filme de sucesso, videojogos com boas críticas e ainda um lugar no livro de recordes do Guinness como série animada com mais palavrões. South Park é hoje a terceira série animada que está há mais tempo em produção e exibição nos Estados Unidos, logo atrás de The Simpsons e Arthur. “Screw you guys, I’m going home”. Stan, Kyle, Cartman e Kenny são amigos de infância, nada a ver com os miúdos de Stranger Things, mas com os quais certamente conseguimos libertar muitas gargalhadas. A liberdade criativa dos criadores Trey Parker, Matt Stone e Brian Graden permitiu à série crescer de forma a ser não só verdadeiramente cómica e um bom entretenimento, com o uso do humor negro e a crítica satírica a serem já também imagens de marca da série e que mantêm atual a abordagem a temas relevantes e que afetam a sociedade. Para além do estilo absurdo, violento e com várias alusões sexuais, a série destaca-se pelas muitas referências culturais pop e pela paródia a inúmeras celebridades. Quanto à família de personagens de South Park, a cada temporada se pode constatar pelo opening atualizado que mais e mais personagens são criadas, sendo tão grande como a de Simpsons e havendo personalidades para todos os gostos. “I’m goin’ down to South Park, gonna have myself a time.”

Beatriz Pinto, Beatriz Reis, Diana Sampaio, Emanuel Candeias, Joana Henriques Pereira,

Raul Araújo e Rui André Pereira