Classificação

9
Interpertação
7
Banda Sonora
7
Realização
9
Argumento

Temporada: 1

N.º Episódios: 8

No passado dia 1 de fevereiro, a Netflix estreou no seu serviço a série Russian Doll, da autoria de Leslye Headland, Amy Poehler e Natasha Lyonne, sendo que esta última assume o papel de protagonista. A premissa da série tem como base a repetição do dia da morte da protagonista, que coincide com o seu 36.º aniversário.

[Se não gostam de possíveis spoilers, voltem atrás agora!]

Deixem-me começar exatamente pela estrela principal, Natasha Lyonne, que nesta comédia muito dark veste a pele de Nadia, uma mulher que chega aos 36 anos com muito passado por resolver, envergando uma camuflagem de durona, mas que no fundo adora as pessoas que a rodeiam. Sei que esta definição pode parecer cliché, mas o grande trunfo de Natasha Lyonne e da sua Nadia nestes oito episódios é a transformação de um cliché numa personagem verdadeiramente interessante que, condimentada com um humor negro bestial, lhe confere um toque diferenciador em relação a todas as outras personagens baseadas nesta premissa. Na verdade, o papel parece ter sido feito para Lyonne e é difícil imaginar outra atriz no seu lugar.

A história em si começa num ritmo algo lento, onde é dado privilégio à apresentação de todas as histórias que vão ser exploradas durante os oito episódios. Para alguns, o ritmo lento com que a história se desenrola nos primeiros quatro episódios pode parecer cansativo e levar a desistir da série. Contudo, se virem com atenção, reparam que há uma opção que privilegia a apresentação sobre todos os pormenores das personagens em detrimento de acelerar as suas conclusões para cativar o espectador. Na segunda metade da temporada, o ritmo da história aumenta um pouco, mas não deixa de apresentar pormenores que justifiquem os seu rumos, ou seja, a série tem uma mitologia bem construída. Apesar de no início parecer confusa, o final apresenta-se coerente.

Permitam-me aqui deixar um comentário sobre a duração da série. Em média são 25 minutos por episódio, abaixo dos habituais 40/45 minutos, mas que obrigam a série a não se deixar envolver em cenas sem nenhuma importância para a construção da história. Aqui, a aposta neste formato, a juntar ao facto de ser constituída apenas por oito episódios, justifica-se completamente e chegamos ao fim satisfeitos, à exceção de um pormenor que refiro mais a frente.

Todavia, para mim, o grande trunfo de Russian Doll é a temática subjacente que nos é apresentada ao longo da série. Quando comecei a ver – e aqui partilho a minha visão sobre a série – esperava que a conclusão da história ou o porquê de estarmos a reviver o mesmo dia, com os mesmo protagonistas, e que apesar de mudarmos o rumo das escolhas, acabarmos sempre com mesmo resultado, fosse a opção mais fantasiosa, como uma maldição, alguma vingança, etc. E somos levados a acreditar ainda mais nisso com o rumo que a personagem segue nos primeiros episódios, na procura de uma justificação para aquilo que lhe está a acontecer. Contudo, os guionistas optaram por uma solução bem mais complexa, mas que não deixa de fazer sentido. Nadia e Alan (Charlie Barnett), personagem que nos é introduzido a meio da temporada e que, tal como Nadia, revive o dia da sua morte, que coincide com o dia em que resolve pedir a namorada em casamento, embarcam numa viagem onde, juntamente com o espectador, vão descobrir as consequências de uma vida cada vez mais focada no eu e na individualização do indivíduo na sociedade. Passamos horas mergulhados em nós mesmo e não nos damos conta dos outros, das suas vidas e dos seus problemas, esquecemo-nos que as nossas vidas e as nossas escolhas têm impacto na vida daquele que nos rodeiam, mesmo que à partida pareçam tão distantes. Russian Doll é mestre em mostrar como somos mais felizes quando estamos mais próximos das pessoas de quem gostamos.

Todas as histórias que nos são apresentadas ao longo destes oito episódios têm finais interessantes e chegamos ao fim satisfeitos com todas as opções que são tomadas e que pelo rumo que a série toma se tornam perfeitamente justificadas. Todavia, fica a sensação de que talvez a história da infância da protagonista tenha ficado um pouco mal explicada. O episódio onde somos levados a conhecer mais a fundo Nadia, a sua mãe e Ruth (Elizabeth Ashley) consegue levantar um pouco do véu sobre este passado que, percebemos, é fundamental na construção da personagem de Nadia e no ponto em que está a sua vida, mas que deixa muito por explicar em relação a vários aspetos. Talvez este tenha sido o único episódio em que pedia mais minutos.

Em conclusão, aconselho vivamente que vejam Russian Doll. Numa época em que as séries sobre grandes mistérios, teorias e super-heróis se multiplicam, a nova aposta da Netflix traz uma perspetiva bem diferenciada dos demais produtos. Aliando a duração dos episódios e da temporada às suas personagens, Russian Doll faz valer bem a pena os minutos que passamos a assistir.

Melhor episódio:

Episódio 8 – A história tinha evoluído muito, os personagens já tinham percorrido o seu caminho, feito as suas aprendizagens e só faltava saber o que iriam fazer com o conhecimento alcançado. Pois bem, as suas escolhas fazem todo o sentido e dão à historia uma conclusão que é um elogio a toda a temporada. Fica a dúvida: haverá espaço para uma segunda?

Personagem de destaque:

Alan Zaveri – Nadia é uma personagem bastante boa, com uma construção primorosa, mas Alan, que apenas participa em parte da temporada, supera um pouco a protagonista. Passo a explicar: Alan planeia o melhor dia da sua vida e tudo lhe corre como não devia, o que leva Alan ao desespero e a cometer erros. Todavia, consegue encontrar o perdão e ultrapassar os obstáculos, algo que sinto que em Nadia não ficou completamente superado.

                                                                                                                                                  Catarina Lameirinhas