[Contém Spoilers!]

O Mundo Não Acaba Assim. Talvez seja esta a frase de que todos temos que nos convencer. Faço parte da geração que sobreviveu ao virar do milénio e ao fim do mundo Maia em 2012. Quem diria que 2020, tão promissor, ia trazer tanta mudança à nossa vida? À força das circunstâncias, devido à pandemia trazida pelo novo coronavírus, fomos forçados a esquecer a proximidade física de todos os nossos colegas de trabalho e familiares. No mundo artístico, as produções e as gravações pararam por completo.

Artur RibeiroFilipe Homem Fonseca, Luís Filipe Borges, Nuno Duarte e Tiago R. Santos são cinco mentes criativas que se aliaram à Távola Redonda Produções e se reinventaram nas produções televisivas para nos trazer um conceito diferente. Esta foi uma minissérie filmada e produzida em casa e transmitida pela RTP.

Durante estes seis episódios somos apresentados a uma miríade de personalidades e personagens, cada um com a sua história para contar. A ex-namorada psicótica, o heterossexual que se descobre homossexual, o viciado em sexo, o casal separado um do outro fisicamente, as desportistas do virtual, os artistas sem trabalho, os amantes e os maridos e as esposas, “os extraterrestres que se perdem”, enfim… Perdemos nós também a conta às histórias que se contam em O Mundo Não Acaba Assim.

Desde já tenho forçosamente que elogiar a ideia. Aquilo que nos acompanhou durante o decretado período de Estado de Emergência foi a arte e a capacidade que todos os artistas tiveram de se reinventar para nos fazer companhia durante o isolamento social. O ser humano é um animal social e esta série demonstra-nos precisamente isso. Confesso que não vi a série enquanto ela foi sendo lançada semanalmente na RTP por inteiro. Acabei por vê-la mais tarde, provavelmente porque parte de mim talvez não quisesse de todo que o meu entretenimento fosse um reflexo da minha vida: videochamadas e comportamentos erráticos. E de facto é isso que O Mundo Não Acaba Assim faz muito bem. São imensos os atores que protagonizam esta história para nos trazer excertos da nossa realidade enquanto isolados fisicamente dos nossos e do nosso mundo.

Todas as personagens e as histórias que aqui nos são contadas são fotografias de uma vida que facilmente pode ser a nossa. Conectarmo-nos com os amigos, com antigos amores, com a família que está longe, desconectarmo-nos de todos… Desde crises de ansiedade a laivos de exercício físico obsessivo, a aproximações consideradas anormais num dia a dia comum, disso foi feito o nosso isolamento social. Costuma-se dizer que falar sobre o que sabemos é essencial para contar uma boa história. Foi isso que fizeram! Há histórias das quais me aproximei mais do que outras, mas de um ponto de vista geral todas elas são válidas e realistas.

Outro dos pontos que tenho que destacar é a entrega dos envolvidos na produção. Tiveram que pegar em vídeos amadores gravados pelos atores em casa e transformá-los em qualidade visual televisiva. Desde já os meus parabéns por essa boa concretização. Não é fácil, mas conseguiram trazer-nos ao pequeno ecrã uma série visualmente apelativa, mesmo com as condicionantes adjacentes.

Precisamos de falar sobre O Mundo Não Acaba Assim porque também é um reflexo e uma análise social na qual nos podemos rever mais ou menos. Todas ou quase todas as emoções pelas quais passámos e passamos durante o estado de isolamento social estão refletidas aqui. Os últimos episódios da série começam a refletir, inclusive, o processo de desconfinamento. Desde os mais “relaxados” até aos mais ansiosos, que são claros no seu receio de voltar a sair de casa e no conforto de estar entre quatro paredes. Numa nota mais pessoal, essa talvez seja a reflexão e a representação mais preocupante, mas que em nada está longe da verdade de muitos, inclusive da minha verdade.

Talvez a parte a que menos terei achado piada foi o facto de terem dedicado quase um episódio inteiro à pornografia. É sem dúvida uma representação despida de filtros e adorei as cenas protagonizadas por Teresa Tavares e Raquel Rocha Vieira – foram de facto uma representação bonita e ao mesmo tempo realista da necessidade sexual do ser humano. Gostei menos da história protagonizada por Sabri Lucas; achei o personagem um tanto ou quanto vazio demais para ser real; e uma vez que me tomou quase o 6.º episódio por inteiro, acabei por sentir menos identificação.

Há uma cena que quero imenso destacar que é um tanto ou quanto diferente das outras e à luz da nossa realidade atual talvez seja a última que vou mencionar. Morrison e Moore são um gato e um cão que conversam em videochamada sobre o comportamento humano: desde as mudanças que os animais de estimação sofreram em ter os seus humanos sempre em casa, até à representação das mudanças que os animais sentiram em nós, donos. Para além disso, há uma reflexão muito ilustrativa da natureza humana, a acomodação. A certa altura ouvimos ambos a comentar “São bichos estranhos os humanos… acostumam-se a tudo, até a andar de açaime”. Hoje, no nosso desconfinamento, não é verdade? Não estamos todos, devagarinho, a habituar-nos a um novo normal?

O Mundo Não Acaba Assim e não acaba mesmo. Somos melhores que isso! Mas a série vale a pena e está disponível na RTP Play. Porque não ganhar coragem e vermo-nos ao espelho?

Joana Henriques Pereira