[Contém spoilers!]

Unorthodox é uma daquelas séries que nos faz pensar na disparidade entre as diversas culturas que existem por este mundo fora. Durante os quatro episódios que compõem esta minissérie somos levados a conhecer os mundos de Esther Shapiro, mais conhecida por Esty. E, sim, não me enganei, são mesmo os mundos, porque a vida de Esty em Brooklyn é completamente diferente daquela que ela vive em Berlim.

Ao longo da narrativa vamos seguindo a história da protagonista na atualidade, desde a altura em que esta decide mudar-se para Berlim, ao mesmo tempo que nos são revelados flashbacks daquela que era a vida que ela tinha na comunidade hassídica ultraconservadora no bairro em que vivia em Brooklyn. Esta escolha narrativa acentua ainda mais a disparidade que existe entre as duas culturas, o que nos faz a nós, na série representados por Berlim, perguntar como é possível ainda hoje se viver como Esty vivia.

Apesar de nos ser difícil compreender, as pessoas que vivem nestas comunidades já nasceram naqueles costumes e muitas delas não conhecem outro mundo senão aquele. A própria Esty diz que é diferente, mas, apesar disso, o seu objetivo de vida, no início, continua a ser o mesmo de muitas outras mulheres hassidistas, casar e constituir família. Contudo, Esty esconde um segredo de toda a gente: tem uma paixão pela música e pelo piano. Quando a inquilina da casa do pai fica sem dinheiro para pagar a renda, Esty propõe-lhe que esta lhe dê aulas de piano em troca do valor da renda. Esty começa então a ter aulas às escondidas, pois as mulheres não são bem-vindas neste tipo de atividades. Mas voltando ao objetivo de Esty: casar e constituir família. Como tudo nesta cultura, há todo um ritual para que isto aconteça. Não há cá paixão nenhuma, nenhum encontro ao acaso e muito menos com alguém fora da comunidade. Tudo é planeado ao pormenor. A família fala com o schadchan (uma espécie de casamenteiro), que prepara um schidduch (encontro arranjado com o propósito de a noiva e o noivo se conhecerem), que serve para saber se há algo equivalente ao que nós chamaríamos “química” entre as duas partes. E não esquecer que antes disto, Esty teve de se passear pelo supermercado para que a mãe do “candidato” a pudesse aprovar. Parece tudo bastante retrógrado, não parece? Após o entendimento entre as duas partes, realiza-se o grande casamento, todo ele também envolto num enorme ritual, bastante bem explorado na série. Depois de os noivos serem declarados marido e mulher, os rituais continuam: os noivos devem consumar o casamento. Ambos vestidos de branco, devem começar a “trabalhar” para constituir família. A mulher não pode dormir com o homem quando estiver menstruada, devem ter relações todas as sextas-feiras à noite e ela deve ficar por baixo. Parece tudo um bocado ridículo, não parece? É aqui que as coisas começam a correr mal. Esty não consegue ter relações sexuais, o que se prolonga durante vários meses e o que a leva a começar a ser posta de parte pela própria família e, principalmente, pela família do marido. Isto porquê? Porque a única coisa que importa nesta cultura é a mulher ser boa esposa e mãe. São estas as duas únicas tarefas que as mulheres têm de desempenhar e que Esty não está a conseguir fazer com sucesso.

Outro dos pontos que sobressai nesta cultura é a falta de individualidade. Se repararem bem, todas as mulheres usam perucas iguais e vestem-se com roupas semelhantes. Os homens, eles também utilizam roupas iguais. Um aspeto que ajuda a perceber como esta cultura é fechada em si mesma, sem se deixar contaminar pelo mundo exterior, e como faz tudo para preservar este afastamento do mundo.

Ao mudarmos o cenário para Berlim, entramos num novo mundo para Esty. Uma cidade multicultural e que lhe oferece a liberdade de poder ser quem ela quer ser. O grupo com quem ela contacta é todo ele multicultural, acentuando ainda mais a diferença que existe entre os dois mundos que Esty conhece. Esty tem de se adaptar a todo um novo mundo, a roupas novas, a costumes novos, ao simples facto de ter liberdade para fazer o que quiser e, acima de tudo, seguir o seu sonho no mundo da música, deixando para trás todas as amarras que toda uma cultura lhe impôs.

Infelizmente, esta é uma realidade que assombra muitas mulheres em todo o mundo. Ainda existem demasiadas culturas que veem o sexo feminino como um sexo menor em relação ao masculino e, por essa razão, as mulheres são escravizadas e têm de seguir as ordens do marido ou de uma cultura ou religião que ficou parada no tempo. Uma das cenas que mais me impressionou foi a rejeição da avó. Quando Esty está em Berlim e telefona à avó em Brooklyn, a chorar, esta desliga-lhe o telefone. Estas religiões demasiado ortodoxas, para pegar no título da série, não toleram que alguém saia daquele meio, tal como aconteceu com a mãe de Esty. Se tens uma forma de ver o mundo diferente, ou te conformas e continuas a viver como até então, ou corres o risco de nunca mais seres aceite na tua família ou comunidade. Até porque a maioria das pessoas que vivem neste meio não conhecem outra realidade. Vejam o exemplo de Yanky. Ele não sabe trabalhar com um smartphone e está constantemente a questionar Moishe se podem fazer isto ou aquilo quando estão em Berlim. Também não se esqueceu de levar todas as roupas e pertences imprescindíveis à sua religião. Por esta razão, não considero Yanky uma má pessoa que obriga a mulher a seguir à risca todos os rituais judaicos, mas sim alguém que cresceu num meio que acredita que aquelas regras é que são as corretas e toma-as como certas sem questionar.

Eu penso que a solução não passa por culpabilizar todas as pessoas envolvidas nesta cultura, mas sim aquelas que sabem que estão a reprimir as mulheres e continuam a fazê-lo conscientemente, como costuma ser o caso de alguns líderes. No fim da série, acredito que Yanky comece a ver o mundo com outros olhos e que contribua para uma menor rigidez no futuro da sua comunidade.

Se pensarmos bem, mesmo na nossa cultura ocidental, as mulheres continuam a ser muito reprimidas e vistas como donas de casa, cujo principal objetivo é ter filhos e ser boa mãe. O sucesso profissional e a satisfação pessoal das mulheres ainda é visto como algo secundário por muita gente, já para não falar das desigualdades que existem em muitos setores, como no caso dos salários mais baixos para as mulheres.

Em suma, Unorthodox traz-nos uma reflexão sobre o papel da mulher numa cultura fechada e antiquada que parece não ter progredido no tempo, sendo, ao mesmo tempo, um sinal de alerta para os desafios que muitas mulheres ainda enfrentam nos dias de hoje, assim como um sinal de esperança para muitas raparigas que vivem em meios como este, podendo ver na personagem de Esty, que é baseada na história real de Deborah Feldmann, um exemplo de como é possível sair daquele mundo e seguir os seus sonhos. Precisamos de mais séries como estas, que cheguem a muita gente e mostrem que, apesar de vivermos todos no mesmo planeta, há uma grande diversidade de mundos que o constituem, cada um com as suas características, mas nem todos com um ambiente favorável a todos os membros da sociedade.

Cláudia Bilé