Contém spoilers.

El Camino chegou! Está disponível desde sexta na Netflix a longa-metragem que se propõe a fechar a história de Breaking Bad.

O filme gerou uma grande onda de ansiedade e expectativa ou não estivesse relacionado com uma série multi-premiada, que ao longo de cinco temporadas acumulou Globos de Ouro e Emmys de melhor série dramática e também de representação, realização e argumento, entre outros.

Quanto a mim, considero que há séries e filmes intocáveis. Breaking Bad é um deles – creio que é mais ou menos consensual que Breaking Bad proporcionou no ano de 2013 um dos melhores finais de sempre de uma série televisiva. Foi de facto um final muito satisfatório para as personagens principais, Walter White e Jesse Pinkman. White conseguia, depois de um percurso muito negro, redimir-se, cumprir o seu propósito de garantir a sustentabilidade folgada do futuro da sua família e morrer como um herói, tornando possível a liberdade do seu companheiro Jesse que havia estado “escravizado” por um grupo de neo-nazis que o obrigavam a produzir metanfetaminas. Assim sendo, a minha posição inicial é que este filme não era necessário.

Hoje assisti ao filme. Foi excelente para mim voltar a um cenário e universo que me empolgou ao longo de cinco temporadas. Relativamente a reencontros não tinha grandes expectativas. Nesse ponto em particular de rever personagens de Breaking Bad, o spin-off Better Call Saul tem cumprido e muito bem. Quanto a arcos em aberto, o único mais incerto era de facto o de Jesse Pinkman, mas confesso que gostava dele aberto, permitindo a cada fã imaginar o final que quisesse. Preservo gravada na memória aquela fortíssima imagem de Jesse Pinkman a acelerar rumo ao incerto e à liberdade, com riso e choro e gritos próprios de uma pessoa quebrada, mas ao mesmo tempo aliviada pelo fim do pesadelo e pelas possibilidades ilimitadas que o futuro reservava. Por outro lado, é justo dizer que se alguém poderia e tinha a legitimidade de voltar a tocar em Breaking Bad é justamente Vince Gilligan, que assumiu a responsabilidade pela escrita e realização do filme.

El Camino é o nome do modelo Chevrolet no qual Pinkman foge do cenário final de Breaking Bad. O filme é todo de Pinkman e de Aaron Paul, que entrega um desempenho notável e ao melhor nível a que nos habituou ao longo da série, talvez até superior, mais psicológico e mais intenso que nunca. O rapazola descontraído que tratava todos por “Bitch” ficou para trás, Jesse é agora uma pessoa mais adulta e mais amargurada. Todos os cameos e personagens que revemos são meros acessórios que nos ajudam a compreender o caminho de Pinkman na luta contra os seus fantasmas interiores.

Os flashbacks ajudam-nos a compreender o processo que quebrou Jesse e que o foi tornando numa pessoa bem diferente de que White conheceu inicialmente. De facto, no final no filme parece-me que Pinkman está mais parecido com Walter White do que nunca, aquele rapaz desorientado que se viu envolvido no negócio do tráfico de metanfetaminas, mas que se manteve um bom rapaz com um coração bom já não existe e este já não pensa duas vezes em pegar numa arma e em fazer o que é preciso para sobreviver.

El Caminho parece-me sobretudo um episódio epílogo que serve o propósito de dar uma narrativa mais fechada ao arco de Jesse Pinkman, mas que poderia fazer parte de uma temporada. Tenho algumas dúvidas que funcione como filme com uma história isolada e independente do passado de Breaking Bad, o que condicionará com certeza o interesse para espectadores que não fossem fãs da série. Para todos os fãs, é um filme de visualização obrigatória, que não belisca a qualidade da série original, proporciona sequências dignas de um thriller de alta tensão, uma implacável luta pela sobrevivência com uma tonalidade obscura e envolvente, planos e fotografias inovadoras e ambiciosas à imagem de Vince Gilligan e que nos colam a Jesse nesta jornada a cada instante. Até tivemos direito a uma cena digna de western.

Como ponto negativo noto apenas que, não sendo Breaking Bad uma produção com grandes preocupações em termos de efeitos especiais, tendo passado seis anos, é por demais evidente que os atores envelheceram e torna-se estranho vê-los claramente mais velhos em cenas prévias ao final da série.

O argumento não me surpreende completamente, mas permite a Jesse ter um final merecido, leva-nos ao passado, a momentos anteriores ao final de Breaking Bad, o que nos permite rever personagens marcantes como Mike ou Skinny Pete. Voltar a ver Walter num diálogo curioso com Pinkman que projeta uma possibilidade de futuro mais auspicioso para Jesse foi um presente para os fãs, mas não foi forçado, fez sentido na sequência inserida e é um bem-vindo regresso ao passado.

Mantenho que não era um filme que precisássemos. Ainda assim, para mim, foram duas horas bem passadas, a marca de qualidade Breaking Bad estava lá, fomos mais fundo no psicológico de Pinkman do que já havíamos ido na série, o que é natural sendo ele o centro da ação, mas também só é possível por um desempenho pleno de intensidade, onde Aaron Paul tem cenas onde nem precisa falar para demonstrar todo o sofrimento interno da sua personagem. Um filme genuíno que não fica muito aquém da qualidade da série original e do spin-off.

Quem já viu? O que acharam?

 

André Borrego