O período de confinamento pode ter sido mau em muitos sentidos, mas foi bom em termos de séries, deu para descobrir algumas coisas novas. Andava pela Amazon a investigar o catálogo e deparei-me com Lodge 49, uma série de duas temporadas sobre a qual pouco sabia. Pensei: porque não? Não me apetecia muito começar a ver algo que já tivesse uma infinidade de episódios e a sinopse desta série deixou-me curiosa o suficiente para carregar no play. Agora vou apresentar-vos sete razões para fazerem o mesmo.

[Livre de spoilers]

1 – Série diferente: Sabem aquela sensação de que a maioria das séries que andam por aí são muito similares a outras? Parece que os produtos verdadeiramente originais são a exceção e que o restante é mais do mesmo. Lodge 49 é diferente de qualquer série que já tenha visto. O personagem principal é Dud, um jovem que está a ter dificuldades em lidar com a morte do pai e consequente encerramento do negócio de família. Apesar de tudo, ele é otimista por natureza, só precisa de encontrar um propósito para a sua vida. Talvez isto não vos pareça a ideia mais inovadora do mundo, mas garanto que o é na execução.

2 – Nunca se sabe o que esperar: Muitas séries têm o seu quê de previsíveis; outras dão-nos um verdadeiro nó ao cérebro. Lodge 49 não pertence a nenhuma dessas categorias. Vai deixar-vos de boca aberta várias vezes, o que é bom, porque cada episódio é uma surpresa, mas as coisas fazem sentido no tipo de série que é. Isto significa que os acontecimentos se enquadram bem na essência e na identidade que Lodge 49 criou para si.

3 – Comédia e drama na dose certa: Sempre gostei de dramas mais do que de qualquer outro género, mas quem diz que uma série não pode ser séria e cómica ao mesmo tempo? Lodge 49 é muito forte nestes duas vertentes: por um lado, prima muito pelos momentos feel good, com os personagens a fazerem coisas loucas e um bocadinho absurdas, mas que parecem espontâneas, e depois, por outro lado, temos questões sérias, como a solidão, o desemprego, a incerteza do futuro, o sentimento de não se saber quem se é verdadeiramente e de não se pertencer a coisa nenhuma… Há partes bastantes tocantes e que nos fazem sentir aquilo que os personagens estão a viver.

4 – Toda a envolvência do lodge: Não vou traduzir a palavra lodge porque acho que não faz sentido. A Amazon usou ‘loja’ para a tradução portuguesa, mas parece-me desadequada e as opções do dicionário também não representam bem o que a palavra significa verdadeiramente no contexto desta série. É justo dizer que o lodge foi o lugar onde Dud encontrou um sentido para a sua vida. O lodge 49 é uma de muitas sedes da Ordem dos Linces por todo o mundo. Está longe de ser uma ordem secreta, mas encontra-se envolvida num certo misticismo; o espaço tem o seu quê de grandioso e esconde vários segredos. O lodge já viu melhores dias; outrora, os membros foram muitos, agora nem por isso, só que os membros da Ordem têm ali uma espécie de segunda casa, um lugar onde podem conviver uns com os outros e criar laços. As relações que se criam entre vários destes personagens são muito interessantes.

5 – Uma panóplia de personagens caricatos: O elenco principal não é muito grande, mas há uma série de personagens recorrentes também muito interessantes. Dud é aquele tipo que até tem bastantes azares na vida, mas que está sempre pronto a ajudar todos à sua volta. Mais de metade do tempo anda vestido como se fosse para a praia – o que não é absurdo de todo, visto que mora em Long Beach, na Califórnia – e parece um daqueles miúdos grandes que acreditam nas coisas mágicas da vida. Depois temos Ernie, Larry, Connie, Scott ou Blaise, membros da Ordem. Há algures por ali um triângulo amoroso pouco secreto. No entanto, os personagens mais caricatos serão mesmo Jeremy, Champ e Gerson, que trabalhavam com Liz, a irmã de Dud. Apesar de haver núcleos diferentes de histórias, os personagens têm algumas oportunidades para se misturarem, o que produz sempre momentos engraçados. Depois há ainda o mal-humorado dono da loja de penhores à qual vários dos personagens recorrem ao longo da série, a antiga namorada do pai de Dud e Liz, o escritor que nunca atravessa um período de bloqueio… Mais haveria, mas vamo-nos ficar por aqui para não revelar os segredos todos.

6 – Liz Dudley: Esta é a minha personagem preferida da série. Entre ela e Dud, Liz parece, sem dúvida, aquela que conseguiu manter a sua vida sob controlo depois da morte do pai. Só que não é bem assim, as coisas também são difíceis para ela. Liz é aquele tipo de personagem com quem é fácil identificarmo-nos porque parece muito autêntica. Tanto se esconde dentro do frigorífico e parte acidentalmente – já com os copos – o vidro da mesa de apoio da sala, sem nunca se dar ao trabalho de o mandar arranjar, como é a pessoa que decide “pegar no touro pelos cornos” e resolver os problemas da sua vida. Liz é uma das personagens que protagoniza momentos mais divertidos da série, mas também a responsável por alguns dos melhores momentos dramáticos de Lodge 49.

7 – O final: A forma como uma série se despede é muito importante para a sua imagem global. Boas séries ficaram manchadas por finais péssimos e séries razoáveis ficaram na memória porque souberam despedir-se em grande. O final de Lodge 49 vai na linha daquilo que foi a série até ali. Apesar do cancelamento, a série tem o final digno que qualquer fã que investiu o seu tempo em algo merece. Não vou dizer que foi um final estrondoso, mas a série teve um nível de qualidade constante (só houve ali um episódio repleto de flashbacks de que não gostei muito) ao longo dos seus vinte episódios e despediu-se no mesmo registo.

Diana Sampaio