Quando me falaram de Le Bazar de la Charité fiquei com alguma curiosidade, mas tinha outras séries prioritárias na minha lista e só depois de ter despachado essas é que decidi começar a ver esta produção francesa. Ora, o nome da série, que se pode traduzir como O Bazar da Caridade, é emprestado do evento de caridade que tinha lugar no final do século XIX, em França. Foi precisamente no terceiro ano desse evento, corria o ano de 1897, que ocorreu o incêndio que inspirou esta série. Este acontecimento terrível já tinha inspirado alguns filmes, mas é com esta minissérie, uma produção conjunta entre a TF1 e a Netflix, que esta história chega às massas. No meu caso, foi amor à primeira vista. Tenho um fraquinho por séries francesas, mas estava longe de imaginar que ia gostar tanto de Le Bazar de la Charité.

[Pode conter pequenos spoilers]

1 – Um dos melhores pilotos que já vi em televisão: Muitas vezes, as séries precisam do seu tempo. Não só para nos conquistarem, mas também para crescerem, para atingirem o seu potencial máximo. No entanto, a qualidade de Le Bazar de la Charité é revelada desde o primeiro instante. Esta série tem um dos melhores e mais fortes pilotos que já vi em televisão. Não dá para descolar o olhar do ecrã nem por um segundo. Ainda não conhecia aquelas pessoas, ainda mal tinha mergulhado nas suas histórias, mas preocupei-me com elas da mesma forma que o faço com aquelas velhas personagens que já acompanho há anos. A sério, a forma como este incêndio nos é mostrado é magnífica. Tudo começa devagarinho, quase sem razões para preocupação, mas o sentimento de apreensão começa logo a surgir. Tudo é construído de forma a deixar-nos com a tensão à flor da pele. Quando o incêndio deflagra a sério, é o caos. É assustador em termos humanos, mas brilhante em termos televisivos. As pessoas ficam em pânico, precipitam-se para a única saída existente empurrando-se umas às outras e espezinhando-se. O desespero toma conta de todos. São momentos fortes, muito fortes, que não deixam ninguém indiferente. Depois, quando parecia que não seria possível que aquelas pessoas, sobretudo mulheres, que estavam rodeadas pelas chamas sobrevivessem, um jovem destemido arranja forma de ajudar e de salvar mais algumas. Há um contraste excecional entre o egoísmo e a estupidez de alguns e o altruísmo de outros, que puseram as suas próprias vidas em risco para salvar pessoas que não conheciam.

2 – Episódios viciantes do início ao fim: Se o primeiro episódio é extraordinário, também os outros o são. Talvez o piloto seja aquele que tem o maior impacto pela gravidade dos acontecimentos que estão em causa, mas os restantes sete episódios também não desiludem minimamente. Esta é uma daquelas séries raras em que não há momentos menos bons, é sempre em alta. Há sempre coisas a acontecer, mas a história não é contada de forma precipitada. Tudo se encaixa na perfeição, sem recursos a momentos mortos para cumprir tempo de ecrã. Nem dei pelo tempo dos episódios a passar e só deixei o último para o dia seguinte porque já era bem tarde e assim também prolonguei por mais umas horas esta experiência fantástica. Cada episódio me fez querer ver com muita vontade o próximo e podem acreditar em mim quando vos digo que quando não estava a ver a série estava a pensar nela. É mesmo daquelas que ficam na nossa mente!

3 – Excelentes momentos dramáticos: Depois de um piloto tremendo em momentos dramáticos, o segundo episódio também se revela exímio nesse aspeto. Depois do incêndio, somos transportados até aos hospitais, onde os muitos feridos – tantos deles com imensa gravidade – recuperam e onde familiares desesperados procuram notícias dos seus entes queridos. Alguns tiveram sorte e encontraram os familiares vivos, outros só conseguiriam descobri-los na morgue. Muitas vidas se perderam, mas uma luta diferente estaria diante daqueles cujas vidas foram completamente alteradas devido àquele incêndio. Lidar com um rosto, com um corpo, todo queimado tornou-se a realidade de alguns e o medo da rejeição por partes das pessoas amadas, o medo de nunca mais conseguir arranjar um emprego, tornou-se um novo pesadelo. Não tão diretamente ligadas ao incêndio, há ainda outras histórias relevantes, como a da mulher que procura escapar ao marido abusivo e refazer a vida apenas com a filha.

4 – Componente histórica: Sendo uma série de época, a componente histórica não podia ficar de fora. Numa França a poucos anos de entrar no século XX, a morte pela guilhotina ainda era praticada, a condenação à pena capital parecia ser aplicada de forma um pouco leviana com a falta de existência de provas, principalmente tendo em conta os valores em que este país assenta; a aristocracia quer lugares de poder no mundo da política e alguns deles estão dispostos a qualquer coisa para o conseguirem; a classe baixa, que quer um país, um mundo, melhor, é tratada como se de terroristas se tratasse e é usada como bode expiatório do incêndio… Os supostos homens honrados não são dignos desse nome, porque foram eles que deixaram aquelas mulheres morrerem, enquanto as gentes do povo se chegaram à frente para salvarem vidas. As mulheres estavam longe de poder gozar de igualdade e, apesar de o divórcio ser permitido por lei, os homens não deixavam que as esposas se separassem deles. Suponho que muitas destas questões reflitam a verdadeira França desta altura, em que era um escândalo que uma menina de bem se envolvesse com um rapaz de uma classe inferior, mas em que os homens casados podiam saltar de cama em cama sem que as mulheres pudessem fazer alguma coisa que não olhar para o lado e fingir que isso não estava a acontecer. Uma época em que as aparências são, basicamente, tudo o que importa. É interessante viajar-se até alturas em que nenhum de nós viveu e descobrir como eram as coisas nessa altura. Pelo menos para quem gosta de História!

5 – O elenco: Seja em filmes ou em séries franceses, a qualidade do elenco não costuma desiludir e em Le Bazar de la Charité o elenco é também excelente. Não há nenhum personagem pouco convincente e até os miúdos são bons nos seus papéis. É claro que há personagens de quem se gosta mais do que outras, mas garanto que os atores são todos competentes naquilo que fazem: podem crer que vão detestar os personagens detestáveis, que vão sentir empatia e torcer por aqueles que estão a passar por questões complicadas e que até vão dar o benefício da dúvida àqueles que se inserem no meio dos dois extremos. Cada um desempenha o seu papel de uma forma natural e credível.

6 – Personagens femininas fortes: As três personagens principais da série são mulheres. Bastante diferentes, é certo, mas todas com narrativas muito interessantes sobre as quais queremos saber o desfecho. Alice, Adrienne e Rose são mulheres fortes, ainda para mais se tivermos em conta a altura em que a narrativa se passa. O papel das mulheres era supostamente em casa, enquanto boas esposas e mães dedicadas, sem que os seus sonhos tivessem realmente alguma importância. No entanto, estas três são mulheres bem à frente da sua época e que souberam lutar pelos seus próprios destinos.

7 – Audrey Fleurot: Bem, parece que de cada vez que me deparo com uma série francesa de qualidade, lá está Audrey Fleurot, a Hortense de Un Village Français e a Joséphine de Engrenages. Ok, isto também não é propriamente coincidência. Passei a gostar tanto da atriz que quando sei que está num projeto novo, tenho sempre um bom incentivo para espreitar. Mais uma vez, Audrey não desilude. Tal como os outros papéis em que a vi – e que não são só os das séries que mencionei -, também aqui ela dá vida a uma personagem fascinante. Audrey é uma atriz muito talentosa e mostra sempre uma garra tão grande nos papéis que interpreta que é impossível não gostar de a ver no ecrã. Pardon, Marion Cotillard, mas a verdade é que foste destronada do lugar de minha atriz francesa favorita!

Diana Sampaio