Classificação

7.5
Interpretação
8.5
Argumento
9.5
Realização
9
Banda Sonora

[Não contém spoilers]

Terra Nova é a mais recente produção portuguesa a ser transmitida na RTP1 e disponível na RTP Play. O projeto iniciou-se como uma longa-metragem, contudo, devido à pandemia da COVID-19, a sua estreia nos cinemas ficou impossibilitada e, como tal, o filme foi adaptado à televisão, estreando agora com uma divisão de 13 episódios semanais.

Na sinopse pode ler-se que Terra Nova acompanha o dia a dia das famílias das comunidades piscatórias da costa portuguesa na década de 1930, abordando a vida dos pescadores, as suas relações familiares e pessoais, os conflitos políticos da época. Dito assim, parece uma história quase banal e típica, um tanto ou quanto superficial. Mas desenganem-se.

O que chama mais à atenção neste primeiro episódio são as paisagens e os cenários. Num live do Instagram sobre a apresentação da série, foi mencionado que pouquíssimas cenas foram gravadas em estúdio, o que só abona a favor desta produção. Com Nazaré como pano de fundo, todas as cenas exteriores são de cortar a respiração pela beleza que envolve as narrativas que se desenrolam. A crueza e a nudez do mar, da praia, das ruas contribuem para que o espectador se envolva na época que é representada e se coloque ao lado das personagens e das suas histórias.

O episódio é calmo e com um ritmo lento, o que não torna os 48 minutos aborrecidos ou desinteressantes; pelo contrário. Permite que possamos absorver a torrente de personagens que são apresentadas, definir em que lugar da narrativa se enquadram, as ligações que têm com as outras personagens e que possível rumo tomarão nos próximos episódios. O elenco é extenso, mas muito bem escolhido. Alguns nomes mais sonantes são os de Pedro Lacerda, João Catarré, Ricardo de Sá, Virgílio Castelo, Sandra Faleiro, Catarina Rebelo ou Vítor Norte de entre muitos outros que compõem as caras desta série. Nem todos são introduzidos no piloto, que termina com um certo cliffhanger, deixando no espectador a curiosidade e a vontade de ver o próximo episódio.

Se as paisagens e os cenários são o que mais agarra neste primeiro episódio, as caracterizações e interpretações não ficam atrás. Tal como A Espia, também Terra Nova retrata uma época real da História portuguesa, demonstrando como eram as vidas dos pescadores na década de 30, como viviam as suas famílias e em que situação estava a conjetura política da altura. Ingredientes ideias para uma série que tem tudo para ser um êxito. Inicialmente tive algum dificuldade em associar nomes de personagens a caras, mas com certeza que com o decorrer dos episódios essa confusão passará. Achei ainda interessante o sotaque dos pescadores e das suas famílias – não sei até que ponto é preciso (nos anos 30 a linguagem não era como é hoje) e fez-me alguma impressão, mas dá um certo toque à série.

Nos últimos tempos temos visto uma grande aposta na ficção televisiva portuguesa com enorme qualidade. É certo que Terra Nova não estava planeada para ser uma série, mas ainda bem que foi adaptada e que podemos acompanhar o desenrolar desta história com ânsia de saber mais e que desfecho terá. O foco desta últimas produções parece ser o que por cá aconteceu no último século e só posso ficar contente por isso. É uma oportunidade de conhecer e aprender mais sobre o nosso país através de histórias cativantes e bem contadas. A próxima aposta, também pela mão da RTP, intitula-se O Atentado e vai retratar uma tentativa de assassinato de Salazar.

Quanto a Terra Nova, vejam. Tenham em mente que não vão ver uma produção milionária da Netflix, acelerada, viciante, cheia de espetáculo. Mas lembrem-se que por cá faz-se muito com pouco e esta série é mais um excelente exemplo desse dizer. A narrativa, as personagens, os cenários e as caracterizações vão agarrar-vos até ao último minuto.

Beatriz Caetano