Classificação

6
Interpretação
7.4
Argumento
6.2
Realização
8
Banda Sonora

Shots Fired apresenta um piloto que nos deixa à cabeça alguns bons argumentos para seguirmos esta série. No entanto, diálogos e personagens à partida mal construídos e pobres deixam-nos de pé atrás quanto ao potencial desta série.

Mas comecemos pelo que de bom esta série tem para oferecer. O mais óbvio e interessante é que aborda um problema muito actual, que facilmente nos relembra a realidade nos Estados Unidos: os tiroteios, as disputas entre polícias e gangues e toda a problemática racial por detrás desses confrontos, o que demarca esta série do vasto leque de policiais. Isto é, tem um plano de fundo judicial bem mais complexo do que a mera investigação policial. E porquê? Porque a trama começa depois de um tiro disparado sobre um jovem branco, que pôs fim à sua vida, por parte de um polícia de raça negra. O interesse maior desta série estará em perceber a motivação daquele desfecho, se porventura terá sido abuso de poder? Qual a origem deste confronto? E que peso terá tido a diferença racial, uma vez que é levantada a dúvida se seria dado tanto relevo e se uma investigação seria aberta se tivéssemos uma troca de papéis com um polícia branco a disparar sobre um jovem de raça negra, ou seja, irá aprofundar a questionável isenção do sistema criminal e judicial? O cenário do “potencial crime” é a terra onde vive uma comunidade que está longe de ter uma boa relação com a polícia, onde com certeza há crimes que virão ao de cima e, por outro lado, uma comunidade unida, na qual um grupo se reúne “aos domingos”, como se de um ritual religioso se tratasse, para mostrar compaixão pelos que sofrem com a perda dos seus entes queridos.

A dupla destinada a investigar este caso é composta por Ashe (Sanaa Lathan) e Preston (Stephan James, Race). Ashe é uma mãe divorciada que vê o ex-marido afastar a sua filha de si. Apresenta-se com um perfil impulsivo, rebelde, de certo modo solitário, não parecendo estar muito determinada com a responsabilidade deste caso, num momento em que a sua cabeça está mais focada na filha, o que traz ao de cima um sentimento de revolta, problemas de raiva e um comportamento lascivo desmedido. Já o seu parceiro, Preston, parece mais comprometido com o caso, sendo mais calculista e menos emocional. Ainda que haja espaço para evolução ao longo dos 10 episódios planeados, não me parece que acrescentem muito, nem um nem outro, à história.

Outro ponto que considerei positivo foi a banda sonora, desde a trilha inicial do genérico até às músicas que foram surgindo ao longo do episódio. Mas será que uma série sobrevive só com a boa história, realística, e com um som de fundo agradável? Não me parece. Vimos séries recentes fazerem um excelente trabalho neste campo e a mais óbvia de todas será American Crime Story. A diferença estará sobretudo nos desempenhos que foram brilhantes. Em Shots Fired encontramos algumas caras conhecidas da televisão e do cinema como Stephen Moyer (True Blood), que interpreta um tenente local, Aisha Hinds (Under the Dome), que é a líder espiritual dos “grupos de Domingo”, ou Will Paton (Armaggedon) que é o xerife local e Helen Hunt (As Good As It Gets), que faz de governadora, e todos terão um papel a desempenhar no desenrolar deste caso, mas a verdade é que o comando da série não está ao seu cargo e apesar de lhe solidificarem a credibilidade, não a salvam por si só. O facto de se desenrolar ao longo de apenas 10 episódios poderá ser um ponto a favor para os que tenham ficado curiosos quanto à resolução desta investigação que o piloto deixou em aberto.

André Borrego