Classificação

8
Interpretação
8.5
Argumento
7.8
Realização
8.5
Banda Sonora

Em 2000 estreava um dos meus filmes favoritos, Frequência. Um filme que contava a história de John e Frank Sullivan (Jim Caviezel e Dennis Quaid), pai e filho que conseguiam comunicar através de tempos diferentes a partir do mesmo aparelho de rádio. A base científica no filme para isso ser possível estava relacionada com um fenómeno meteorológico que interferia com os sistemas de comunicação, originando este resultado por meios inexplicáveis. Assim sendo, para desfrutar do filme em pleno bastava ignorarmos a base científica incoerente para o fenómeno de base. Mas isso pouco importava, porque o resultado era uma ideia que funcionava muito bem, o facto de um filho poder comunicar com o pai que já morreu e trocarem ideias. Além do mais havia um assassino em série que nunca foi apanhado e que cometia crimes nos dois tempos. Sendo John um polícia, tinha os detalhes que poderiam ajudar o pai, que era bombeiro, a travar o assassino. Acontece que as mudanças no passado tinham consequências drásticas no futuro.

Pois bem, em 2016, e à semelhança do que tem vindo a ocorrer com outros filmes, decidiram fazer uma adaptação para o pequeno ecrã. Sendo um filme que adoro e que revejo várias vezes, fiquei dividido: por um lado tinha curiosidade em ver como isto poderia funcionar em formato série, mas receio ao mesmo tempo, porque é difícil recriar à altura algo que já era tão bom e temos já muitos exemplos que não correram bem. Para aumentar os meus receios foi a CW a pegar neste projeto, um canal que não é conhecido pelas séries com as histórias mais profundas e com as personagens mais bem elaboradas, tendo até várias séries de qualidade questionável.

Felizmente, parece-me que estamos na presença de uma das melhores séries que já passou pela grelha da CW ou, pelo menos, tem potencial para isso. A série tem algo de muito interessante. Por um lado, não se limitou a copiar tudo do filme, trocou detalhes bastantes personagens centrais, nomeadamente a protagonista que é, desta vez, uma mulher. A linda Peyton List (que devem recordar de The Flash e The Tomorrow People) é Raimy Sullivan, que faz as vezes de John Sullivan, conseguindo falar com o pai, Frank Sullivan, (e que morreu 20 anos antes) através do seu velho rádio, guardado na garagem e que subitamente começa a funcionar após ser ativado por um raio. Frank é também um polícia na série, o que facilita o desenrolar da ação relativamente à caça ao assassino. Este assassino ficou famoso pelos crimes “Nightingale”, onde todos os alvos eram enfermeiras e o assassino deixava um crucifixo na cena do crime. Mas o que a série tem de verdadeiramente interessante é que alia estes dados novos a pequenos detalhes que nos fazem recordar o filme, como o facto de se aperceberem com que estão a comunicar porque são ambos fãs de basebol e estando ela em 2016 consegue enumerar factos de jogos que estão a acontecer em 1996. Na série tentou juntar-se um pouco de mecânica quântica e a Teoria das Cordas para tentar fortalecer a base científica subjacente ao fenómeno. Mas mais uma vez digo que não é relevante, a fórmula é muito interessante e apenas temos de nos desligar da impossibilidade inerente ao fenómeno.

Facto curioso na série – o primeiro dia em que pai e filha comunicam é a véspera da morte do pai. A informação que a filha soube da morte do pai foi a suficiente para lhe dar a hipótese de sobreviver. Acontece que mexer com o passado traz consequências para o futuro: o pai não foi morto 20 anos atrás no seguimento de um longo trabalho de infiltrado que daria para o torto, mas morreria cinco anos atrás num acidente de automóvel. Por outro lado, o pai ficou apenas ferido naquela noite em que morreria e isso levou a que fosse visitado no Hospital pela filha e pela mulher, mulher essa que era enfermeira e que se cruzou assim no caminho do assassino, tomando o lugar de uma das suas vítimas. Raimy vive agora sem o pai e sem a mãe, que estava viva antes das mudanças no passado. Mas tem a oportunidade de, através do rádio, aconselhar o seu pai para evitar as suas mortes.

Outro dado totalmente novo da série é o toque de CW, que tem sempre de juntar algum romance ao enredo: Raimy vivia com o seu namorado, Daniel, que depois das alterações no passado não a reconhece e tem outra namorada.

Continuo com algumas reticências em perceber como é que isto poderá funcionar como série durante cerca de 20 episódios como costumam ter as séries da CW, mas quanto ao piloto posso dizer que adorei e a série promete bastante.

André Borrego