Classificação

4.5
Interpretação
5
Argumento
6.4
Realização
5.7
Banda-Sonora

Vou supor que todos os leitores ou espectadores futuros de Damien conheçam o clássico onde foi inspirado: The Omen, de 1976, realizado por Richard Donner. Para os que não estão familiarizados, The Omen conta a história de uma família que vê a sua vida ameaçada com o nascimento de um rapaz com uma aura negra. Uma criança que é, por si só, a encarnação bíblica do Diabo. Este clássico do terror no cinema trouxe uma visão original que combina folclore com factos bíblicos, criando uma fórmula incrivelmente eficaz e que perpetuou o terror religioso. O remake, de 2006, foi um fiasco, muito porque não procurou trazer nada de novo; as ditas sequelas (uma de 1978 e outra de 1991) também não conseguiram chegar ao mesmo patamar de realismo visual quanto o original e, agora, em 2016, sob a forma de série, o resultado também não foi propriamente positivo.

A narrativa deste piloto segue um Damien já crescido, uma versão jovem de Jensen Ackles com o nome Bradley James, que promete tornar esta visão de terror do cinema de culto num chamariz de jovens adolescentes. Damien Thorn é um fotógrafo especializado na captação de imagens de guerra e, na Síria, descobre uma misteriosa mulher que lhe roga uma praga muito bizarra. Este ato desperta algumas memórias da infância do jovem (a originalidade é tanta que bastou colar algumas imagens do clássico de 76) e, com a ajuda da sua amiga Kelly Baptiste, procura descobrir quem é esta misteriosa mulher. Damien parece estar bem protegido, com os Rottweilers já conhecidos da História do Cinema, que são uma espécie de guardiões e executores da vontade do jovem e, por onde passam, deixam um rasto de morte.

Não é à toa que a estratégia de colocar um realizador de nome, neste caso, Shekhar Kapur, responsável pelos épicos Elizabeth e The Four Feathers, que Damien tenta fazer jus ao legado que representa no pequeno ecrã. O problema deste piloto é que liga o que é cinema maduro a uma temática “aliviada” para um público mais adolescente e que remove alguma da mística que embelezava o terror adulto e graficamente poderoso. Claro que é necessário haver uma certa ligação com os clássicos, mas também é preciso saber manusear este aproveitamento com inteligência: colocar flashbacks com base em imagens do filme e “atirá-las à força” contra os olhos dos espectadores não é, de todo, a melhor opção. A ação é despachada a um ritmo pouco plausível, fazendo com que o público não crie empatia com nada nem ninguém. As cenas mais fortes, ainda que bem filmadas, não chegam para justificar o tempo nem para reforçar o caráter e/ou ambiguidade da construção do protagonista.

Se o filme primava por colocar de parte um final feliz e de manter viva a presença do Mal no nosso meio, já a série deixa claro que irá ter um desenlace positivo, onde o Bem irá triunfar. Isto, por si só, revela pouco cuidado na junção dos elementos chave e, portanto, Damien cai por terra, não surpreendendo, nem trazendo algo de novo ou nostálgico. Mesmo assim, por uma questão de princípio, irei acompanhar a série e, quem sabe, a opinião poderá divergir do que é, até agora, um mero episódio adolescente que ficava bem contado numa noite de Halloween e mais nada.

Jorge Lestre