Classificação

9
Interpretação
8.7
Argumento
9
Realização
9
Banda-Sonora

Amarillo, Texas. O nosso Jimmy McGill faz uma visita aos idosos que são vítimas do abuso da Sandpiper; uma visita algo esquiva e falaciosa, mas que leva Jimmy a convencer novos clientes a aderirem ao caso. Numa ida à casa da sua nora e neta, Mike descobre que algo se passa nas ruas e que a segurança de ambas pode estar em perigo. Apesar de tudo, Jimmy precisa de conquistar Kim de volta, mas os seus negócios ilegais levam a um afastamento na sua relação, ainda que Jimmy cheio-de-truques-na-manga McGill consiga apostar numa nova maneira de angariar legalmente clientes, sem ter de subornar ninguém ou agir nas costas dos seus parceiros: criar um anúncio televisivo.

Scott Winant assina a realização de “Amarillo”, um episódio fantástico que combina a já habitual escrita magistral com performances magníficas do elenco. Bob Odenkirk, que dispensa qualquer apresentação, continua a trabalhar o pré-Saul Goodman de forma gradual, onde alimenta a persona vigarista de Breaking Bad, dando-lhe um tom humano e bem-intencionado; já Jonathan Banks, outra personalidade que também não precisa de se apresentar, vai mostrando a árdua vida de Mike, contribuindo para um enriquecimento dramático que se torna necessário para equilibrar a boa disposição do seu colega McGill.

Better Call Saul continua a seguir um registo de excelência, num trabalho extraordinário de guionistas dedicados e de uma fotografia brincalhona que torna o spin-off de Breaking Bad num must-see incrivelmente fiel às suas origens. Aqui vemos quem é bom a fazer o que sabe fazer melhor, ainda que isso implique escapar/ quebrar as regras. Há uma intencionalidade bondosa no meio deste espalhafato de vigarice, há humanidade na conduta destes outsiders da sociedade que procuram fazer precisamente o que é correto através do incorreto; há uma simplicidade quotidiana que é tão credível que não nos deixa esquivar os olhos por um segundo. Isto, resumidamente, mostra que a televisão é o campo certo para trabalhar as relações humanas, para levar o espectador a aproveitar todos os segundos de ver as suas personagens favoritas no pequeno ecrã, sem se sentir aborrecido ou achar a história pretensiosa.

Ainda que tenha tido um final algo abrupto e inexplicado, “Amarillo” continua a saga de Jimmy McGill e Mike Ehrmantraut com uma qualidade já típica e que se torna ainda mais fácil e tolerável de ver do que a sua série-mãe, ainda que muitos não concordem. Mas, mesmo que isto seja discutível, é inegável que Jimmy e Mike, ainda que se cruzem esporadicamente, são duas das mais versáteis, minuciosas e carismáticas personagens apresentadas na televisão até aos dias de hoje.

Não posso também deixar de mencionar a fantástica entrada de Jimmy no autocarro que leva estes velhinhos adoráveis até ao restaurante e os convence a aceitar o seu contributo para arrasar com a Sandpiper. Não é um spoiler, mas é uma cena onde todos os fãs de Better Call Saul entendem a destreza hábil dos argumentistas em realçar este divertido advogado. Se esperam por cameos frequentes de Breaking Bad, podem esperar sentados, mas, enquanto se sentam, deliciem-se com uma das melhores séries de televisão do momento. E vejam a maneira artística como se separam as duas séries companheiras: desde a mudança de tonalidade, à abordagem cómica, à mestria de caracterização, à fotografia, à banda-sonora, aos comportamentos únicos que nos levaram a adorar estes dois indivíduos.

Jorge Lestre