É certo que as séries têm, em grande parte, uma função de entretenimento, mas são muito mais do que isso. São uma forma de conhecermos variados sítios e pessoas, de alargarmos os horizontes e de aprendermos que há muito para além do mundo que está à nossa volta. Muitas vezes é possível retirarmos mensagens importantes das séries que vemos, mas há algumas que se dedicam especialmente a transmitir uma mensagem e a debater temas relevantes, alguns deles ainda um pouco tabu numa sociedade que ainda tem um longo caminho a percorrer. Assim sendo, vamos debruçar-nos sobre algumas séries e os temas importantes que estas abordam.

Mary Kills People

Mary Kills PeopleA eutanásia é um tema que está bem presente para nós portugueses, tendo sido discutido na Assembleia da República há menos de três meses. Mary Kills People foca-se no suicídio assistido, que difere da eutanásia na forma como é administrado o medicamento letal, sendo que, em ambos os casos, pressupõe-se que todo o processo seja supervisionado por um profissional de saúde. Na série, o paciente é que ingere o medicamento que lhe é fornecido por Mary, uma médica (enquanto que no caso da eutanásia seria um profissional de saúde a administrar diretamente o medicamente no paciente). Existem várias doenças que podem levar um paciente a tomar a opção de pôr termo à vida, incluindo cancros, doenças degenerativas ou paralisias, todas elas incuráveis. Para além da doença em si, o motivo só poderá ser verdadeiramente explicado por quem se encontra nesta situação, mas muitas vezes vai além da dor física. Pode também passar pela dor psicológica, querer morrer com dignidade, não querer ser um fardo na vida dos familiares ou simplesmente querer-se acabar com o sofrimento dos entes queridos. Independentemente do motivo, deveria ser um direito humano decidir quando e como morremos, visto que também temos a oportunidade de realizar escolhas sobre como vivemos. Mary Kills People explora estas questões, seguindo Mary e Des, também médico, que legalmente são conselheiros de fim de vida e ilegalmente ajudam pessoas a morrer com dignidade, fornecendo pentobarbital (medicamento usado por veterinários e nalguns casos de condenados à morte) misturado com uma bebida a gosto. Quais são os principais problemas deste ato ilegal na série? A perseguição da polícia, o traficante que adquire pentobarbital e começa a chantagear Mary, uma dose mal calculada e o doente não morre ou uma amiga da filha de Mary que ingere um pouco do medicamento ao pensar que se tratava de uma droga recreativa e acaba no hospital. Quando as coisas são feitas legalmente, a probabilidade de ocorrer complicações é muito menor e, em Portugal, temos a prova disso com a legalização do aborto, que fez com que a taxa de complicações no procedimento diminuísse bastante. No fundo, irá sempre haver discordâncias sobre a morte e o que significa morrer para cada pessoa, contudo, deveria sempre prevalecer a liberdade de escolha do paciente.

13-reasons-hannah-suicidio

13 Reasons Why: Goste-se ou não desta série, a verdade é que ela nos deixou a falar sobre temas como o suicídio adolescente, bullying e violação. São tópicos complicados, polémicos, sensíveis, e a Netflix viu-se ‘obrigada’ a colocar avisos nos episódios para que os espectadores estivessem cientes daquilo que os esperava. A 1.ª temporada levou-nos numa viagem para entender o quanto os outros e as suas ações ou inações são capazes de exercer uma grande influência em nós, principalmente na adolescência, quando mais necessitamos da aceitação de terceiros e de sentir que não estamos sozinhos. A 2.ª temporada, através do caso da defesa no julgamento, tentou ‘demonizar’ Hannah, mostrando-a como uma rapariga promíscua que procurava atenção em todos os lados onde a pudesse ter. Aqui está mais um problema bem enraizado na sociedade, que é o de rotular de oferecidas as raparigas enquanto dá palmadinhas nas costas aos rapazes que acumulam conquistas. No entanto, mesmo que Hannah não seja um anjinho (e não tem que o ser), isso não diminui em nada aquilo que passou. Escola, colegas, família, ninguém viu sinais de que estava seriamente a contemplar o suicídio. E qual foi a posição da escola? Impedir que se falasse sobre suicídio com medo que potenciasse novas mortes. Varreram o assunto para debaixo do tapete, enquanto continuavam a acontecer coisas impensáveis naquele liceu. O violador do Bryce safou-se com a maior das facilidades e os bullies continuaram a proteger-se uns aos outros. Alex também tentou matar-se; Tyler continuou a ser maltratado na escola. Tyler é um creepy que tira fotos às raparigas pelas janelas do quarto, mas foi também ele uma vítima de atletas que agem como se fossem os donos daqueles corredores. E aconteceu aquilo que já tem acontecido em tantos liceus americanos: o puto ostracizado cansa-se de ser uma vítima e decide pegar numa arma e vingar-se. Este tiroteio, que nem chegou a acontecer, e embora fictício, mostra uma grande necessidade de revisão da lei das armas, mas também de implementação de uma política de tolerância zero em relação ao bullying, para que nenhuma vítima seja levada a pensar que a única forma de acabar com aquilo é tornar-se ela própria o agressor.

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Orange Is the New Black: De uma escola passamos para um cenário muito mais cruel. Litchfield pode ser uma prisão de segurança mínima, mas desde o início da série que fomos apresentados a temáticas pouco soft. Como não podia deixar de ser, há o consumo de drogas. Pennsatucky, Nicky, Leanne, Angie e Tricia têm todas um historial de dependência, mas é esta última que nos oferece a história mais interessante, até porque nos faz perceber que os piores criminosos de Litchfield não são as reclusas. Pornstache aproveitava-se da sua condição favorecida enquanto guarda para fazer entrar droga na prisão; Coates é um violador; Humphrey e Piscatella são verdadeiros psicopatas. Não que os outros sejam irrepreensíveis, mas estes são verdadeira escumalha e aproveitaram-se do seu papel de autoridade para humilhar e violentar aquelas mulheres das mais variadas formas. Bayley também causou a morte de Poussey, mas não é verdadeiramente mau. Foi um acontecimento trágico e que merece punição, mas não creio que tenha havido qualquer intenção de matar ou de magoar, o que levanta outra questão: Bailey, tal como outros, não tinha claramente a formação adequada para o trabalho e isso custou a vida de uma pessoa. No entanto, é impossível falar desta série sem mencionar os ataques de que Sophia foi alvo simplesmente por ser trans. Numa prisão em que as mulheres formam grupos, Sophia nunca pertenceu a nenhum e esteve sempre desprotegida, de certa forma. No entanto, Orange é especialmente relevante a retratar as más condições nas cadeias. Também cá se têm ouvido denúncias sobre a alimentação execrável das nossas prisões e o mesmo aconteceu em Litchfield. Infestações de bichos, contrabando e guardas cruéis são o dia a dia daquela prisão. Aquelas mulheres não são apenas números nas estatísticas dos estabelecimentos prisionais, são pessoas a quem não devem ser vedados direitos básicos e dignidade e é importante recordarmo-nos disso.

The Handmaid's Tale

The Handmaid’s TaleÉ, de certa forma, engraçado que um livro de 1985, no qual se baseia esta série, se enquadre tão bem nos dias de hoje, considerando que estamos a viver uma altura em que as vozes das mulheres finalmente começam a ser ouvidas (Time’s Up), ao mesmo tempo que os EUA resolveram eleger um presidente conservador, machista, homofóbico e xenófobo. The Handmaid’s Tale explora uma realidade onde os Estados Unidos são substituídos pela República de Gilead. O novo governo totalitário baseia-se em leis divinas do Antigo Testamento e é organizado num novo regime militarizado, com novas hierarquias, onde os homens ocupam todas as posições de poder e as mulheres são menosprezadas ao máximo, não podendo trabalhar, possuir bens ou dinheiro ou fazer coisas simples como ler ou escrever. Como se isto não fosse uma imagem assustadora o suficiente, existe ainda uma escola para “treinar” as poucas mulheres férteis a serem escravas de casais poderosos, participando em rituais de fecundação (que na realidade são violações), de modo a darem-lhes filhos. O fanatismo na série é levado ao extremo e, apesar de ser ficção, não deixa de parecer uma horrível possibilidade, se pensarmos nas injustiças e violência do mundo todos os dias. Na série conhecemos June, uma editora que é despedida por ser mulher, fica com a conta bancária a zeros e quando é apanhada a fugir com o marido e filha é separada deles e obrigada a ser uma escrava parideira. A Emily, que tinha uma mulher e um filho, não é permitida a saída para o Canadá devido a ser fértil; acaba então com o mesmo destino de June, sofrendo ainda mutilação genital por amar alguém do mesmo sexo. Até mesmo Serena, a mulher de um dos Comandantes, é castigada de cinto pelo próprio marido por estar escrito na Bíblia que é isto que deve acontecer quando uma esposa não cumpre as ordens do marido. The Handmaid’s Tale é a série mais devastadora a nível emocional que já alguma vez vi e a angústia que sinto a cada episódio não é apenas pelo conteúdo fictício, mas também por saber que na vida real ainda existem ataques a mulheres, à comunidade LGBTQ, a pessoas de cor ou a pessoas que apenas por serem diferentes são humilhadas por outras que se acham seres todos poderosos. A Idade Média já terminou há bastante tempo, mas às vezes questiono-me se algumas pessoas sabem disso.

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American Horror Story: Cult e The Good Fight: Goste-se ou não de política, é impossível negarmos a sua relevância e desligarmo-nos dela. Numa altura em que os Estados Unidos têm como presidente uma anedota como Donald Trump, é claro que as séries não poderiam deixar a política de lado. Quando digo que ele é uma anedota não quero dizer que faz rir; muito pelo contrário, dá mais vontade de chorar. Trump já mostrou ser machista, homofóbico e racista, mas ainda assim foi eleito, o que prova que o problema está longe de ser só ele e que também se estende a uma sociedade que preferiu eleger este bully porque, ao contrário de Hillary Clinton, ele não faz parte do ‘sistema’. Talvez as pessoas tenham visto algo de ‘refrescante’ nele, mas eu só vejo um milionário que pouco ou nada percebe de política externa e que está ligado ao lobby das armas. Eu cá preferia alguém do ‘sistema’ outra vez! The Good Fight assentou boa parte da discussão desta 2.ª temporada numa crítica ao presidente, dando inclusive a conhecer coisas que não me recordo de ter ouvido nos noticiários de cá, como a história dos golden showers. Os personagens da série, no geral, são democratas, mas a maior crítica de Trump é Diane, que se mostra bem afetada pelo resultado das eleições. American Horror Story tem uma abordagem mais interessante, do meu ponto de vista. Mais subtil, mas ao mesmo tempo mais forte, porque mostra como é fácil utilizar as nossas fobias e os nossos medos contra nós e o quanto somos moldáveis, não conseguindo controlar na totalidade aquilo que somos. Explorou ainda temas como a opressão, o feminismo e o patriarcado, que tanto destaque têm tido nos últimos tempos. E como não, quando o bully supremo governa o – supostamente – mais poderoso país do mundo? Povo americano, por favor, votem melhor em 2020!

Westworld + Humans

Westworld e HumansApesar de Westworld e Humans terem histórias bem distintas, ambas exploram a existência de entidades mecânicas com aparência de humanos e que, para além de serem inteligentes, possuem consciência, sonhos, desejos e sentimentos. Esta é uma realidade que provavelmente existirá no futuro da humanidade e que nos leva a pensar: eticamente como é que o Homem irá lidar com uma situação destas? Em ambas as séries existem consequências deste tipo de criação. Em Westworld vemos um parque de diversões apetrechado de robôs idênticos a humanos que promete satisfazer qualquer desejo dos milionários que o visitam. Eventualmente, os robôs acabam por revoltar-se contra os humanos. Já Humans decorre num futuro próximo onde existem robôs idênticos a humanos, inseridos na sociedade, com a função de servirem no que seja necessário. Após ganharem consciência, os robôs começam a lutar para terem os mesmos direitos que nós. Desde sempre que o Homem lida mal com coisas que receia ou desconhece. Quando o ser humano trata animais, que são seres vivos, como se fossem objetos, não admira nada que também tratem máquinas, mesmo tendo uma aparência humana, mal e porcamente. Se são seres com consciência e com sentimentos não deveríamos tratá-los como gostaríamos que nos tratassem a nós? É possível avaliar o carácter de alguém consoante a forma como trata um animal e podemos pensar da mesma forma caso robôs como os de Westworld e Humans existissem. Será que o ser humano iria lidar de forma diferente com a clonagem de humanos? Provavelmente não.

Na próxima semana vamos ter a segunda edição desta rubrica, com novos temas e séries diferentes.

Ana Velosa e Diana Sampaio