Vamos começar sem rodeios, Pure é a melhor estreia que vi este ano. Sem exageros. Atual, hilariante, profunda, mas acima de tudo, como diriam os ingleses, groundbreaking.

Pure é uma comédia dramática britânica, produzida para o Channel 4, que estreou em janeiro deste ano. Adaptada da obra biográfica de Rose Cartwright, com o mesmo nome, Pure segue a vida de uma jovem de 24 anos, Marnie (Charly Clive), que se debate com a forma “Puramente Obsessiva” (pure O) do Transtorno Obsessivo Compulsivo, que a faz ter pensamentos sexuais constantemente e questionar a sua sexualidade, moralidade e toda a sua existência. Marnie decide sair da sua pequena vila escocesa e mudar-se para Londres, numa jornada de descoberta e exploração da sua sexualidade e do que se passa dentro dela.

Juntamente com Marnie, vamos descobrindo, ao longo dos 6 episódios da série, o que é realmente este transtorno psicológico do OCD (em português, TOC), que muitas vezes é mal interpretado e definido somente pelos sintomas que mais comummente produz: os rituais compulsivos de ordem, por exemplo.

Pure brilha especialmente em dois aspetos:

Através da jornada de auto-descoberta de Marnie, vamos também nós tendo uma ideia do que é a realidade de viver com Transtorno Obsessivo Compulsivo. Vamos percebendo que a sua origem está nos pensamentos intrusivos que geram depois os tais mecanismos compulsivos, como uma forma de aliviar esses pensamentos, mecanismos estes que acabam por gerar um ciclo que só piora o estado de ansiedade e stress dessas pessoas; que a base destes pensamentos intrusivos muda de pessoa para pessoa e que os próprios sintomas compulsivos são diferentes, mas que em comum têm a forma como é excruciante viver com este transtorno. Percebemos o que está na base do TOC e ainda que há formas de TOC que não geram os comportamentos compulsivos que estamos habituados a ver associados à doença, como no caso de Marnie, o que pode dificultar ainda mais o seu diagnóstico e tratamento.Pure

Os flashes que temos do que se vai passando na cabeça de Marnie, o voice-over dela a relatar as dúvidas que estes pensamentos a fazem ter e o remoinho de emoções que tudo isto lhe causa, permitem que nós, leigos espectadores, consigamos entrar um pouco naquilo por que ela passa. Pure consegue isto de forma exímia.

Mais importante, a série toca ao de leve, mas de forma muito eficaz, no problema que afeta a nossa sociedade relativo à estigmatização e falta de compreensão sobre as doenças mentais. Depois de diagnosticada, Marnie vê-se mais que uma vez confrontada com amigos a dizerem-lhe coisas como “Não tens nada OCD, tu és uma desorganizada,” ou “Toda a gente tem esse tipo de pensamentos.” Comentários que revelam a incompreensão e falta de tato que muitos de nós temos para com as pessoas com doenças mentais, desde a depressão a outros transtornos, que acabam por ser mais negativos do que úteis para quem está a lidar com esses problemas.

Aliada às questões relevantes de saúde mental que a série introduz, e que a tornam única nisso, Pure junta ao drama uma linha de humor hilariante, possíveis devido a um elenco maravilhoso.

A estreante Charly Clive desempenha o papel de Marnie de uma forma tão natural e aliciante que nos prende completamente à personagem. Joe Cole (Black Mirror, Peaky Blinders) supera também as expectativas no papel de Charlie. E também a contribuir para a agradável e profunda surpresa que é Pure temos Kira Sonia Sawat (Black Mirror) como Shereen, Niamh Algar como Amber e Anthony Welsh (Black Mirror) como Joe.

Um verdadeiro must see, que infelizmente me parece que nunca vai ter o reconhecimento ou alcance que merece. Espero com este artigo conseguir convencer alguns de vocês a darem oportunidade a esta pérola.

Mélanie Costa