[Contém spoilers]

Cortesia da HBO Portugal, a semana passada comecei a ver Patrick Melrose, uma minissérie de cinco episódios baseada nas obras semi-autobiográficas de Edward St. Aubyn, The Patrick Melrose Novels. Quando a série estreou, há muitos meses, a sinopse chamou-me logo à atenção, também pelo facto de ser inspirada em livros. No entanto, só agora surgiu a oportunidade de a ver e se as minhas expectativas eram elevadas, só tenho a dizer que não foram, em nada, defraudadas.

Patrick Melrose é uma das melhores coisas que vi nos últimos tempos, mas é uma história muito triste, tal como parecem ser sempre as minhas séries, livros e filmes preferidos. Há qualquer coisa de belo no horrível. Não num sentido sádico de se sentir prazer no sofrimento dos outros, mas porque é mais fácil sentirmo-nos tocados pela infelicidade e pela destruição do que pelo lado bom da vida.

Esta série tem uma dose infinita de dor, de raiva, de culpa, de desespero, de malícia, distribuída pelos seus vários personagens, mas em especial pelo nosso protagonista. Ele é um rapazinho que cresceu num meio privilegiado em termos monetários e que não viveu nada que não sofrimento na sua infância, vetado aos abusos emocionais e sexuais do pai e ao amor de uma mãe negligente que tinha demasiado medo do marido para ser capaz de o enfrentar e salvar o filho. Como é que uma criança de oito anos sobrevive a uma infância de medo constante, em que a coisa de que tem mais medo está dentro de casa e é a pessoa que mais o devia amar? Que tipo de monstro é que destrói uma criança desta maneira? Sebastian Maltz é fantástico no papel do pequeno Patrick. Encarna tão bem o sofrimento do menino que dói vê-lo! A criança cresceu e tornou-se um homem, também maravilhosamente interpretado por Benedict Cumberbatch. O Patrick adulto entregou-se a uma vida de vícios, álcool, drogas, tabaco, mas à medida que vamos conhecendo os pormenores da sua infância é impossível julgá-lo pelos seus comportamentos. Pode já não ser um rapazinho assustado, mas é um homem a lutar com os demónios de um passado que nenhum ser humano deveria ser obrigado a viver. Vamos conhecendo a sua jornada, em várias fases da vida, intrinsecamente ligadas aos traumas de infância, em especial quando tem de lidar com as mortes do pai e, muitos anos mais tarde, da mãe.

A série é irrepreensível em todos os sentidos, mas há que destacar o elenco, que é verdadeiramente fabuloso: Hugo Weaving no papel execrável do pai abusador; Jennifer Jason Leigh como a frágil mãe; Jessica Raine a dar vida à inesquecível amiga Julia; Anna Madeley como a sensata esposa ou Indira Varma no pequeno papel de Anne, a mulher que na infância de Patrick foi capaz de confrontar os pais dele acerca do que estavam a fazer ao filho, ainda que estivesse longe de conhecer toda a realidade. Cada episódio tem aproximadamente uma hora de duração e poderia ter sido tempo a mais se a história não agarrasse ao ecrã, mas agarra, verdadeiramente.

Esta é uma série emocionalmente brutal e pesada, tal como o é a vida para crianças e adultos como Patrick, que sofreram abusos inenarráveis às mãos de quem mais os devia proteger e amar. É uma série para ver com um pacote de lenços. Acho que vai ficar durante muito tempo na minha memória o momento em que um Patrick adulto contou ao seu amigo que o pai tinha abusado dele; em que disse à mãe que tinha sido violado pelo pai e ela partilha que também era violada por ele; ou quando se mostrou ressentido por a mãe não ter sido capaz de o proteger. É uma história tão humana, mas daquelas que só deveriam ser ficção porque é demasiado cruel para ser verdade.

Não quero revelar mais, até porque é de pequenos momentos extraordinariamente bem interpretados que esta série é feita. Aconselho vivamente!

Diana Sampaio