[Contém spoilers!]

Gone estreou na Austrália em finais de 2017, passou por alguns países da Europa no ano passado e, já em 2019, chegou a território americano. De base para a série serviu o livro One Kick (Nunca Perdoar, Nunca Esquecer em Portugal), da autoria de Chelsea Cain, que há muito tempo está na minha lista de desejos [já faltou mais para eu fazer anos, just saying!] Quando anunciaram a série, fiquei curiosa – visto que gosto de policiais (de alguns, pelo menos) – e recentemente dediquei-me a vê-la.

Não vou dizer que há algo de muito refrescante no conceito de Gone. Contudo, ainda assim, há qualquer coisa de diferente nesta série. Para já, dos 12 episódios, gostei imenso de onze. O penúltimo da temporada foi, sem qualquer espécie de dúvida, o menos interessante, mas a série fechou (ainda não se sabe se vai ter continuação ou se se fica por aqui) este primeiro ano com um episódio bastante bem conseguido.

Os casos de investigação, por exemplo, revelaram-se quase sempre cativantes, mas sem exageros megalómanos de ação. Isto é um ponto muito positivo; havia muito policiais que acabei por deixar de acompanhar porque os casos eram fracos e a única coisa que me agarrava à série era um ou outro personagem. Gone pode não ser daquelas séries fantásticas que recebem elogios rasgados da crítica, mas é competente em todas as suas componentes. Além dos bons casos, que deviam ser a base de qualquer série do género, temos uma protagonista, Kick, por quem é fácil sentir empatia. Quando era miúda, ela foi raptada e mantida com o seu captor durante vários anos, até ter sido resgatada pelo FBI. Agora, já uma jovem adulta, Kick é recrutada pelo mesmo agente que a salvou há tantos anos atrás para trabalhar com uma equipa que investiga casos de rapto.

Kick é uma força da natureza que construiu uma vida depois de lhe ter sido roubada a infância, mas o seu passado não está completamente para trás das costas. Apesar de ser uma personagem muito forte, não a vemos agir como se fosse indestrutível. Não, ela é uma pessoa real que sobreviveu a uma coisa impossível de imaginar. Aprendeu a viver com o que lhe aconteceu, mas é algo que ainda a marca. Como não poderia deixar de ser numa série destas, Kick tem a oportunidade de confrontar o homem que fez dela uma prisioneira, quando aquilo que mais parecia um caso rotineiro desvenda que a rede responsável pelo seu rapto ainda está de pé ou a tentar reerguer-se. No entanto, as coisas foram bem orquestradas e é-nos dado um final de temporada muito entusiasmante. Confesso que houve partes desta história em concreto que me fizeram lembrar da obsessão de Charles Hoyt por Jane em Rizzoli & Isles, com a vítima que volta a ser perseguida pelo seu agressor. No entanto, achei que aqui em Gone as coisas resultaram melhor. Os livros que inspiraram Rizzoli & Isles podem ser muito bons, mas a série televisiva fica bastante aquém do produto original.

Depois, a dinâmica entre os vários elementos da equipa do FBI é também bastante boa, com destaque para as relações da nossa protagonista com os parceiros da força policial, mas gostei especialmente da relação não muito fácil que Kick tem com a mãe, Paula (interpretada por Kelly Rutherford, que era a minha parte preferida de Gossip Girl), e com o fofo do namorado. A única coisa que me fez torcer um pouco o nariz é o facto de parecer que o parceiro de Kick no FBI tem sentimentos por ela – e ela terá por ele também. A maioria dos parceiros das séries deste género acabam juntos, por isso já é mais do que cliché e desnecessário.

As interpretações do elenco também são convincentes, com destaque para Leven Rambin – que de distancia imenso da sua irritante Sloan Riley, a filha de Mark Sloan, em Grey’s Anatomy e de Glimmer, um dos tributos do Distrito 1, na saga The Hunger Games – e Chris Noth, que felizmente não me fez lembrar em nada o parvo Mr. Big de Sex and the City.

Pode não ser uma das estreias do ano, mas eu recomendo vivamente a quem gosta de policiais. A série tem tudo para dar seguimento à história em pelo menos mais uma temporada, mas eu, que tenho sempre medo que as coisas descambem se prolongadas, não fico chateada se tudo o que houver para ver de Gone for esta 1.ª temporada.

Diana Sampaio