[Contém spoilers]

Butterfly é o tipo de história que precisa de ser contada para dar visibilidade à luta que as pessoas trans têm de enfrentar com elas mesmas e com a sociedade e para que todos possamos entender e sensibilizarmo-nos com essa realidade, num caminho para a aceitação.

Esta é a história de uma criança que nasceu menino e que cresceu a sentir-se no corpo errado, plenamente ciente de que viver como Maxine e não Max é aquilo de que precisa para ser ela mesma. Dentro de casa, onde vive protegida pelo amor da mãe e da irmã, Maxine tem a liberdade de ser aquilo que é na essência: uma menina e não um rapazinho de 11 anos. No entanto, fora de quatro paredes, e junto do pai, que saíra de casa há uns anos, Maxine tem de continuar a viver uma farsa.

Tudo muda quando Maxine, desesperada, se automutila. Detesto ter de imaginar o sofrimento que estas crianças passam por serem ‘diferentes’ num mundo que ainda vê a diferença como uma coisa má e que encara as pessoas trans como aberrações e onde parece ser comum acharem que para estas crianças é apenas uma fase até adotarem um comportamento chamado ‘normal’. No entanto, é precisamente este ato desesperado que faz com que os pais percebam que têm de fazer realmente alguma coisa por aquela criança. A mãe deixa-se de paninhos quentes e passa a lutar com tudo o que tem pela felicidade da filha; o pai, que até então tinha preferido ignorar o óbvio, passa a envolver-se e a aprender a aceitar que Max é agora Maxine. Nenhum deles é perfeito, mas têm o coração no sítio certo. Demoraram um pouco a despertar, mas chegaram lá, com alguns erros pelo meio.

Não digo que seja fácil lidar com uma questão destas. Qualquer pai que se preze, por muita aceitação que tenha pela filha ou filho, sabe que vai ser um grande desafio porque o mundo exterior é cruel, mesmo que em casa não haja nada que não amor e compreensão. Mas é precisamente por aí que é preciso começar. Como é que uma criança pode sentir que alguma vez vai ser ela mesma lá fora se nem no seio da família pode ser quem realmente é? Desde há uns anos para cá, numa idade em que faz sentido pensar nestas coisas a sério, que digo para mim que não quero ter filhos, por opção pessoal, mas se os tivesse gosto de pensar que os educaria de forma a que soubessem que ser gay, bi, hetero ou trans não tem qualquer importância e que aquilo que verdadeiramente importa é que cada um se sinta bem consigo mesmo e que ninguém tem o direito de julgar os outros só porque não se enquadram numa certa norma estipulada.

Acho que a maior lição de amor e apoio incondicionais de Butterfly vem de Lily, a irmã mais velha de Maxine. Também ela é ainda uma menina, mas é a primeira a lutar ao lado da irmã para que ela assuma a sua verdadeira identidade. Na escola, protegeu-a dos bullies e, mesmo em casa, era ela quem muitas vezes funcionava como a voz da razão perante os pais. O mundo seria um lugar tão melhor se houvesse mais pessoas como Lily! Nem sempre a série tomou o melhor dos rumos, porque, tal como na vida real, na ficção as pessoas também se esquecem muitas vezes daquilo que é mais importante e acabam por fazer a coisa errada para alcançarem aquilo que está certo.

Apesar de tudo, esta acaba por ser uma história feliz. Há muitas lágrimas e sofrimento pelo meio, mas Maxine está a começar a percorrer o caminho que fará com que o corpo de menino com que nasceu não se desenvolva e possa dar lugar, daqui a uns anos, ao de uma jovem mulher. Seria um crime fazê-la brincar com carrinhos, usar roupas e um corte de cabelo de rapaz e jogar futebol quando tudo o que ela precisa para ser feliz no momento presente são borboletas e flores nas suas roupas cor de rosa, dançar no recreio e cantar ao som de Kylie Minogue. É isso e a certeza de que a aguarda um futuro em que pode ser uma mulher tão completa como aquelas que nasceram como tal.

Diana Sampaio