(Contém spoilers)

Black Mirror: Bandersnatch é o titulo do momento. Tudo e todos falam sobre este novo episódio da série de grande sucesso que é Black Mirror. Não podemos dizer que Black Mirror já não nos habitou a grandes surpresas e marcos mas este episódio ou como muitos dizem, filme, ameaça tornar-se numa marco na história da televisão uma vez que estamos a falar do primeiro episódio interactivo da televisão.

O que quer isto dizer:

Basicamente, durante o episódio, a imagem vai parando e dá duas hipóteses para o telespectador escolher. O rumo que a história toma é largamente influenciado pelas decisões que o espectador toma. Isto faz com que sejamos nós a decidir o rumo da vida de Steffan Butler que é um jovem que criou um jogo de video baseado no livro Bandersnatch. Stefan começa a sentir que está a ser controlado por uma entidade qualquer e começa a enlouquecer da mesma forma que o autor do livro, Jerome F. Davies. As alucinações de Steffan são fruto da decisão tomada pelo espectador que vai escolhendo as suas acções o que pode levá-lo a discutir a morte da sua mãe com a sua terapeuta, usar alucinogénos com o criador de jogos Colin Ritman, pode matar o seu pai Peter, entre várias outras coisas. As hipóteses são tantas que ninguém consegue dizer ao certo quantas realidades pode ter o filme.

Esta genialidade saída da mente de Charlie Brooker vem abordar um tema que há muito é debatido que é a proximidade entre a obra de arte e o público. É engraçado como chegamos ao ponto onde a ligação com o público torna-se essencial para a execução da obra. O filme é interactivo o que obriga a uma redobrada atenção que oferece ao público uma espécie de capa de Deus que o espectador veste e decide pelas personagens.

É impressionante com as tecnologias avançam e tornam o caminho entre a arte e o público cada vez mais próximo. Ainda assim, preocupa-me que o cinema e a televisão se tornem cada vez mais experiências individuais e solitárias. Deixou de ser um evento social para ser um evento pessoal e quase intransmissível. Cada pessoa terá a sua própria experiência e o filme torna-se quase um jogo que pode ser jogado várias vezes com fins completamente diferentes. Ainda assim, talvez seja esse o preço a pagar e a verdade é que a morte do cinema é prevista desde o seu nascimento e ele ainda por aí anda.

Resta dar os parabéns por esta obra fenomenal saída da mente criativa do escritor Charlie Brooker e recomendar que toda a gente que gosta de cultura que mergulhe neste zig-zag filosófico do que é o livre-arbítrio. A nossa liberdade é o tema base desta história. Pode não ser uma narrativa fora do comum. Pode até ser previsível em alguns pontos mas é inegável que este filme/episódio é uma experiência muito interessante. Certamente que toda a gente que gosta deste mundo não deve perder a oportunidade de experimentar esta nova e inovadora experiência televisiva.

Carlos Real