[Contém spoilers]

Hesitei em escrever sobre The Spanish Princess porque não é meu hábito dar uma opinião sobre algo que não vi na totalidade, mas como sou uma fã dos livros de Philippa Gregory passados na corte Tudor, achei que devia fazê-lo na mesma. Aliás, eu tinha decidido que iria ver os oito episódios apesar de, a menos de meio, já estar sem grande vontade de continuar, mas depois foram anunciados mais oito episódios e então decidi desistir porque 16 já era muita coisa para uma série de que não estava a gostar. Foram apenas cinco os episódios que acabei por ver, mas tenho muita coisa a dizer sobre eles, por isso vamos lá.

Tal como já referi, adoro Philippa Gregory enquanto escritora. Apaixonei-me por Duas Irmãs, Um Rei (The Other Boleyn Girl, no original), que acompanha a ascensão de Ana Bolena até se tornar a segunda esposa de Henrique VIII e a ‘queda’ de Catarina de Aragão e o seu afastamento da corte. Não tive ainda a oportunidade de ler todos os livros da autora da saga Tudor, embora queira muito, mas já li quatro, bem como obras de outros autores centradas na mesma época. Não podemos esquecer-nos que Gregory escreve ficção histórica e não livros de História: os acontecimentos são romanceados para servirem a narrativa.

Também a série da Starz escreve a sua própria história sobre a História e foi precisamente aí que tudo me começou a fazer confusão. Se não leram os livros, não vou iludir-vos: adoro-os e são viciantes, mas não são a literatura mais brilhante do mundo. Têm qualidade e exigem muito trabalho de investigação, mas a vida na corte de um dos monarcas mais polémicos de toda a Europa parece-se um pouco com uma novela de época: amores e desamores, traições, alianças… Uma ótima novela, no entanto, com personagens interessantes e uma narrativa extremamente cativante que nunca quero que acabe! No entanto, com The Spanish Princess, aqui a história é outra. Não propriamente outra, mas… uma novela má.

Nos livros, Ana Bolena é a minha personagem favorita. Tenho sempre uma queda por vilãs e Ana é uma verdadeira estratega, uma mulher ambiciosa e inteligente que quis agarrar as rédeas do seu destino sem olhar a meios para o conseguir. É uma personalidade da História que me fascina verdadeiramente! A minha segunda favorita é Catarina de Aragão, precisamente a protagonista desta série. Nos livros, deparei-me com ela pela primeira vez num ‘papel’ mais ingrato, na altura em que ela foi de posta de parte pelo marido, o sedutor rei que nem se preocupava em esconder as suas amantes. Poderíamos dizer que Catarina até teve sorte, porque ao menos manteve a cabeça em cima do pescoço, mas o seu fim foi extremamente indigno para uma mulher que parecia ter toda a dignidade do mundo. Conheci a jovem Catarina posteriormente, em Catarina de Aragão – A Princesa Determinada, precisamente um dos livros que inspira esta  agora não tão mini série e continuei a adorá-la, mas não consegui gostar da Catarina de Charlotte Hope. Penso que o problema não se deve apenas à atriz, mas à forma como a narrativa foi contada.

Desde pequena que Catarina estava destinada (não propriamente pelo destino, mas por um acordo feito pela sua mãe) a tornar-se Rainha de Inglaterra através do casamento. No entanto, a jovem estava longe de imaginar que a sua união com Artur, o filho mais velho de Henrique VII, duraria apenas uns meses, com a morte do marido. No livro, o futuro de Catarina esteve anos e anos no limbo, mas na série fizeram a pior coisa que podiam fazer. Transformaram o pequeno Harry, o futuro Henrique VIII, uma criança de cerca de dez anos na História, num adolescente sedutor e bem-parecido que conquista o coração de Catarina. Quase deitei as mãos à cabeça! É claro que no primeiro episódio se notou logo que havia ali um clima, mas não pensei que a execução me desagradaria tanto. No ponto em que deixei a série eles ainda não se casaram, mas o rei já aceitou a união e basicamente só basta que o Papa (yup, a Inglaterra ainda era um país católico) aceite a união. Sim, porque Catarina invoca que o seu casamento com Artur nunca foi consumado e então o casamento com o irmão do falecido marido não seria um pecado. Se bem me recordo, também assim foi no livro, mas aqui pareceu demasiado forçado. Não consigo gostar desta Catarina nem por nada. A sua ambição parece desmedida, absurda, mas sobretudo off character em relação à forma como via a personagem. A mãe do rei também não engole esta história e é o único obstáculo no caminho de Catarina, mas sem grande sucesso, no final.

Não consigo entender como é que Catarina não quis regressar a Espanha, mesmo quando a hipótese passava por casar com Henrique VII. Há outros personagens, muitos outros, claro, mas nenhum que se destaque realmente e acho que esse é outro dos grandes problemas da série, aliado a episódios excessivamente grandes (mais de 50 minutos), o que é demasiado quando a coisa é maçadora. Os plots mais secundários também não trazem nada de novo, muito pelo contrário. Nunca teria continuado a ver a série para além do terceiro ou quarto episódio se soubesse que se prolongaria tanto.

A minha crítica é essencialmente negativa, mas há um ou outro ponto mais positivo. Um deles é a relação entre o rei e a mulher, Elizabeth de York, sendo que ela teve uma morte boa e dramática daquelas que gosto de ver numa série; e o outro é a personagem de Laura Carmichael, Margaret Pole. Foi bom voltar a ver a atriz de Downton Abbey, mas deu-me vontade de gritar: alguém lhe dê um papel em que não tenha uma vida miseravelmente infeliz! Maggie parecia a única desinteressada de jogos políticos, o que é refrescante numa corte como esta.

O saldo é negativo e mostra o quanto pode ser ingrato ver-se uma série que é adaptada da literatura. No entanto, até tinha tido boas surpresas até aqui e fiquei tão entusiasmada quando esta série foi anunciada que a deceção acabou por ser muita.

Diana Sampaio