Já se passaram mais de cinco anos desde que dediquei uma crónica aos personagens das séries que me tiram do sério e então, na mesma onda, decidi voltar a escrever sobre um novo grupo de personagens que me dão cabo da paciência. Quando lhes chamo dispensáveis não quero dizer que eles não sejam uma parte importante da série a que pertencem, até porque tenho aqui alguns personagens principais, simplesmente significa que não me importava nada de me livrar deles. Todos temos personagens que nos irritam profundamente, pelos mais variados motivos, e estes são os meus.

Jeff Mutt American Horror Story Apocalypse

Jeff Pfister e Mutt Nutter [American Horror Story: Apocalypse]: A sério, eu não tenho por hábito criticar as pessoas pela sua aparência, mas olhem-me só para o cabelo destes dois! No entanto, o meu problema com estes personagens não tem nada a ver com a infeliz escolha de penteado. Sabem aquelas pessoas que gostam de ver o mundo a arder? Bem, na maioria dos casos não passa de uma figura de expressão, mas quanto a estes dois a coisa é bem literal, porque estão à espera do fim do mundo. Seria de esperar que dois cientistas, pessoas supostamente inteligentes, tomassem decisões melhores do que vender a alma ao diabo a troco de riqueza. Sádicos, viciados em drogas e obcecados com sex dolls, Jeff e Mutt são, muito provavelmente, os personagens mais irritantes de American Horror Story, embora Michael Langdon não lhes fique muito atrás.

Julie Taylor friday night lights

Julie Taylor [Friday Night Lights]: Não sou só eu que não gosto de Julie. A maior parte dos fãs de Friday Night Lights também não, como se pode comprovar com uma pesquisa sobre a personagem na internet. Ela tem tudo o que se poderia pedir, mas por algum motivo parece que nunca está satisfeita com nada. Tem um namorado fantástico que a ama e que ela não sabe valorizar, tendo-o inclusive traído; tem uns pais carinhosos e presentes, mas age como se eles a sufocassem. Eles são protetores, é certo, mas são também o tipo de pais com quem se pode realmente falar. Com o nascimento da irmã, ela sente-se também posta de lado. É algo normal para uma criança de quatro ou seis anos sentir quando um novo elemento se junta à família, mas parece-me infantil quando estamos a falar de uma miúda de 16 anos. Arranjou sarilhos ao Tim depois de ele lhe ter salvado a vida… Julia tinha tendência para dificultar todas as relações na vida dela e era bastante egoísta com aqueles que a amavam. Nem acredito que, no final, ela tenha ficado com o Matt. Aquele rapaz merecia alguém diferente!

rory gilmore girls

Rory Gilmore [Gilmore Girls]: Vou esquecer o meu eu adulto por uns momentos e voltar aos meus 15/16 anos – embora continue a achar isto válido – e dizer que a Rory é outra que, como Julie, tinha um namorado bom demais para ela. O Dean era o rapaz mais fofo de sempre, para além de giro e muito alto (eu avisei que tinha 15 anos momentaneamente) e construiu-lhe um carro, o que prova que é bom com maquinaria e a construir coisas, para além de ser extremamente atencioso. Ainda assim, Rory apaixonou-se pelo palerma do Jess (de quem nunca gostei) e ok que não escolhemos por quem nos apaixonamos, mas trata-se de uma escolha quando continuamos com o nosso namorado e gostamos antes de outro. O meu problema com Rory não tem apenas a ver com os erros que ela comete, mas com o facto de ela nos ser apresentada (pela série e pelas outras personagens) como a menina perfeita e, no fim, ela acumula péssimas decisões atrás de más decisões e ainda é capaz de se armar em moralista quando se trata dos outros. Depois há aquelas vezes em que ela se envolveu com homens comprometidos. Eram más decisões acerca de todos os aspetos na vida dela ao longo das temporadas e não apenas quando ainda era uma miúda. Acho que Rory se tornou o epítome da menina privilegiada que, como tinha avós ricos que podiam proporcionar-lhe tudo na vida, nunca teve de lutar verdadeiramente por nada na vida. Ela alguma vez teve um emprego certo na vida? Não tem que ser algo xpto, mas simplesmente um trabalho que pagasse as contas! Há uma altura na vida em que temos de saber olhar por nós, sem esperar que haja alguém a aparar-nos as ‘quedas’.

Dan-Humphrey_Gossip-Girl

Dan Humphrey [Gossip Girl]: Eram muitos os personagens desta série de que eu não gostava, mas depois de saber que era Dan a Gossip Girl, ainda fiquei a gostar menos dele. Quer dizer, ele expôs lá todos os segredos e podres sobre os amigos, sobre a rapariga que amava e, pior ainda, sobre a própria irmã. Podem-me dizer que tinha que incluir lá toda a gente para que não suspeitassem dele, mas isso não é desculpa. Ninguém lhe apontou uma arma à cabeça e o fez nomear-se Gossip Girl. Foi uma escolha pessoal, mas que afetou todos os que estavam à volta dele. Não consigo imaginar como é que a Serena casou com ele depois de se saber a verdade! Não consigo perceber como é que ninguém mostrou qualquer vontade de lhe dar um bom murro à conta disso, por exemplo. Outro dos grandes defeitos de Dan é agir como o tipo bonzinho quando não o é. Sempre tive um fraquinho por certos vilões porque ao menos eles são capazes de admitir aquilo que são, em vez de se esconderem debaixo de uma falsa máscara. Além disso, tudo em Dan é simplesmente aborrecido. Aquilo que podia torná-lo minimamente interessante era o facto de ser um outsider, de não pertencer àquele mundo de riqueza de Blair, Serena, Chuck e Nate, mas ele esforçou-se demasiado para se tornar um deles, à sua maneira.

Mother Gothel Eloise Once upon a time

Mother Gothel/Eloise Gardner [Once Upon a Time]: Numa última temporada recheada de péssimas personagens, incluindo vilões ainda piores, Eloise não podia ficar de parte. Ela pode ter razão quando diz que não há “maior peste do que a humanidade”, mas não vamos esquecer que faz (ou fez, pronto) parte dela e que também ela não é grande coisa. Para começar, como vilã não convence minimamente. Não estou a discutir a sua má índole, porque isso é um dado adquirido, mas há certas características que se exigem para fazer um bom vilão e Eloise de certeza que não se enquadra. Depois, nem os próprios flashbacks que nos ajudam a conhecer a sua história, nem as suas cenas no presente em Hyperion Heights, ajudam a causar uma impressão mais favorável sobre a personagem. Introduzir vários elementos novos na última temporada da série revelou-se uma má decisão, porque todos os vilões que conhecêramos até aí tinham sido muito melhores. Eloise não foi minimamente cativante nem sedutora enquanto antagonista, coisa que tanto Regina como Zelena, Maleficent, Cruella ou a Ice Queen tinham sido.

badison orange is the new black

Madison ‘Badison’ Murphy [Orange Is the New Black]: Bem, não se pode levar a sério ninguém que dê pelo nome de Badison e se orgulhe disso. Se fosse de uma forma irónica – como uma piada – tudo bem, mas Badison acha que a alcunha a torna badass, de alguma forma. No início da série, detestava Pennsatucky, mas nunca a considerei uma má personagem; no entanto, para além de odiar bastante Badison, também a considero a pior personagem de Orange Is the New Black. Esta mais recente temporada teve péssimas personagens, mas esta destaca-se como a mais fraca. Ela é considerada uma antagonista, mas vejo-a mais como uma anedota tão grande que só consigo considerá-la uma tentativa falhada de bully. Ela é rude, acha que é sarcástica, mas nem por isso, e tem pouca ou nenhuma noção do seu papel na hierarquia das reclusas. É muito menos importante do que aquilo que gosta de pensar e não passa de um pau mandado de Carol, que nem sequer confia nela para questões importantes. Fica a dever bastante à inteligência, mas é o conjunto de todos os seus defeitos que a torna tão irritante.

Karen Shameless

Karen Jackson [Shameless US]: Ela não foi sempre assim, mas a verdade é que Karen se tornou o mais irritante possível. Mente com todos os dentes que tem na boca, manipula as pessoas à volta dela, já para não falar que queria vender o bebé a quem pagasse mais dinheiro. As pessoas que não querem criar um filho têm todo o direito de o dar para adoção, mas uma criança não é um negócio ou uma licitação e Karen agiu como se assim fosse. Depois, quando o bebé nasceu com Síndrome de Down, Karen forçou a mãe a escolher entre ficar com ela ou com a criança. Quando a mãe escolheu a criança, Karen foi-se embora, tendo mais tarde voltado para retirar a criança à avó. Já para não falar que andou a brincar com os sentimentos de Lip, que gostava verdadeiramente dela. Karen é daquelas pessoas que se sentem miseráveis e que por isso gostam de ver todos os outros à sua volta também na lama. É muito mau dizer que fiquei contente quando ela foi atropelada? Mesmo que não seja, não vou negá-lo. É totalmente legítimo desejar-se a morte a pessoas fictícias!

richard sharp objects

Richard Willis [Sharp Objects]: Enquanto a maioria dos personagens desta lista são extremamente irritantes, o mesmo não se passa com Richard. Não o odeio, não tenho propriamente nada contra ele, mas desde o início que não gostei da escolha de Chris Messina para o papel. Numa série onde há tantas personalidades fortes, seja para o bem ou para o mal, acho que Richard é um personagem muito apagado e pouco carismático que não tem grande química com Camille. Se bem me recordo, acho que já no livro tinha achado o personagem desinteressante e não sinto que tenha deixado alguma marca na série. Foi Richard a investigar o que se estava a passar em Wind Gap, mas sinto que tanto podia ter sido ele como outra pessoa qualquer. Não é nada positivo quando um personagem parece tão substituível aos olhos do espectador.

roland blum the good fight

Roland Blum [The Good Fight]: Não foram precisos mais do que dois minutos no ecrã para perceber que Roland teria de constar desta lista. A sério, não exagero quando digo que me quis livrar dele em todos os momentos que o vi em The Good Fight. Extremamente barulhento e cínico, rude, excêntrico até mais não, conflituoso, manhoso, inconveniente… Mais defeitos haveria a nomear, mas acho que estes são suficientes. Roland é uma pessoa tão frustrante! Já o detestava antes, mas saber que ele foi o causador do episódio que levou ao despedimento de Maia não ajudou em nada. Ele gosta de jogar sujo e de levar a melhor sobre os outros, mas não é capaz de aceitar um adversário à altura e Maia foi-o.

Lucienne Un Village Français

Lucienne Borderie [Un Village Français]: Sabem o quanto a maioria das pessoas acha que Kristen Stewart tem sempre a mesma cara de enjoada em qualquer papel que interprete? Pois bem, então nem queiram ver Marie Kremer, a atriz belga que dá vida a Lucienne nesta série que explora a vida numa pequena localidade francesa ocupada pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Numa série fantástica em que a maioria dos personagens são extremamente bem conseguidos, Lucienne destaca-se pela negativa. Não só a interpretação deixa um pouco a desejar, como a própria personagem é também extremamente frustrante. Apaixona-se por um soldado alemão (mas isto entende-se, pois Kurt é um bom homem), depois Kurt morre e Lucienne acaba casada com o diretor da escola onde ela é professora. No entanto, este é um casamento sem amor (pelo menos da parte dela) que descamba até chegar a um ponto em que penso que Lucienne vai matar Bériot. Quase que cheguei a torcer por isso, porque o anteriormente generoso marido dela tornou-se uma crápula, mas não chegou a acontecer. Depois Lucienne desenvolveu uma paixoneta pelo padre da aldeia e estabeleceu um clima com outra mulher, que eu previ desde o início. Em todo este percurso, que durou sete temporadas, o semblante de Lucienne foi praticamente o mesmo. Além disso, esta é daquelas personagens que parecem destituídas de personalidade e que tudo aquilo que são é o conjunto dos erros que cometeram. Un Village Français tinha ficado muito bem servida sem o elo mais fraco do seu elenco.

Quais são aqueles personagens que, se pudessem, apagavam das vossas séries?

Diana Sampaio