Na semana passada lançámos a primeira parte desta crónica que se debruça sobre o poder das palavras nas séries. Falar apenas sobre cinco séries pareceu-me pouco e por isso aqui estou com a continuação da crónica. A maioria destas escolhidas tratam-se de séries que se incluem nas minhas favoritas. As outras podem não me ter marcado de forma tão profunda, mas mesmo assim conseguiram tocar-me de alguma forma.

Jessica Jones Trish Walker

Jessica Jones: “I’m still not the hero that you wanted me to be”.
Trish Walker: “You’re exactly the hero I wanted you to be”.

(Jessica Jones: “Continuo a não ser a heroína que querias que fosse”
Trish Walker: “És exatamente a heroína que queria que fosses”).

Ok, a Jessica pode não ser a mais virtuosa das heroínas e certamente poderíamos apontar-lhe vários defeitos, mas nunca questionaria, nem por um minuto, que ela é, de facto, uma heroína. Ela gosta de apresentar uma imagem de alguém que não quer saber de nada nem de ninguém, mas isso não é verdade, nem por um bocadinho. O coração dela está no sítio certo, não há dúvidas. Não era qualquer um que seria capaz de enfrentar a pessoa que lhe destruiu a vida, mas Jessica fê-lo com Kilgrave e porquê? Estava a salvo, era parte de um passado doloroso, mas sabia que ele poderia fazer com outros aquilo que lhe fizera e por isso foi à luta. Mesmo na 2.ª temporada, quando tudo se tornou mais emocional para Jessica, com a descoberta de que a mãe afinal estava viva, lidou com a questão de uma forma muito melhor do que eu poderia esperar. Jessica Jones apresenta-nos uma heroína muito pouco típica, mas que por isso mesmo parece tão mais real. Ninguém sabe sempre como agir, todos temos dúvidas e momentos em que só queremos pensar em nós e deixar de parte o altruísmo, mas o que importa é o que fazemos no final. E, no final, Jessica opta por aquilo que está certo. Acho que com as suas palavras ela não está apenas a dizer que não é a heroína que a amiga queria que ela fosse, mas também que não é uma. No entanto, é importante que Trish a contrarie. Perdoem-me, mas vou ter que usar uma frase de Grey’s Anatomy que não me sai da cabeça desde que a ouvi e que acho que se enquadra aqui na perfeição: “Às vezes desejamos que as pessoas se vissem da maneira como as vemos”. Right! Jessica é tão melhor do que a imagem que tem dela!

One-Tree-Hill-Flashes-Forward“Make a wish and place it in your heart. Anything you want, everything you want. Do you have it? Good. Now believe it can come true. You never know where the next miracle is gonna come from, the next smile, the next wish come true. But if you believe that it’s right around the corner, and you open your heart and mind to the possibility of it, to the certainty of it, you just might get the thing you’re wishing for. The world is full of magic. You just have to believe in it. So, make your wish. Do you have it? Good. Now, believe in it with all you heart.” (“Pede um desejo e guarda-o no teu coração. Qualquer coisa que queiras, tudo o que quiseres. Já o pediste? Boa. Agora acredita que se pode tornar verdade. Nunca se sabe de onde pode vir o próximo milagre, o próximo sorriso, o próximo desejo a tornar-se realidade. Mas se acreditares que está mesmo ao virar da esquina e abrires o teu coração e a tua mente a essa possibilidade, a essa certeza, talvez consigas a coisa que desejas. O mundo está repleto de magia. Só tens de acreditar nela. Portanto, pede o teu desejo. Já o pediste? Boa. Agora, acredita nele com todo o teu coração”).

Sabem aquela série especial que vos diz mais do que qualquer outra e que vos marcou para sempre? One Tree Hill é essa série para mim. Tem uma magia que não conseguia explicar mesmo que tentasse, porque é apenas algo que se sente. Esta frase pode não parecer nada de especial para quem não viu a série, pode até soar banal. Também eu o acharia se não a associasse imediatamente ao espírito que constitui o âmago de OTH. A série começa como sendo sobre cinco adolescentes, mas esses adolescentes vão crescendo e vamos acompanhado a sua jornada, pessoal e nas relações com os outros. Vemo-los a passar pelos piores momentos das suas vidas, mas também pelas maiores alegrias e a alcançar os seus sonhos, junto das amizades que vão ficar para toda a vida e dos amores que serão para sempre. One Tree Hill é uma jornada de lágrimas, de risos, de dor, de felicidade, de solidão, de companheirismo, mas o sentimento de esperança e de pertença está sempre lá. E isto vindo de uma pessoa que encara o mundo com algum ceticismo, mas aquela pequena cidade da Carolina do Norte é incrivelmente especial.

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“In its purest form, an act of retribution provides symmetry… the rendering of payment for crimes against the innocent. But the danger of retaliation lies in furthering the cycle of violence. Still, it’s a risk that must be met… when the greater offense is to allow the guilty to go unpunished”. (“Na sua forma mais pura, um ato de retaliação proporciona simetria… uma forma de proporcionar a paga por crimes contra os inocentes. Mas o perigo da retaliação encontra-se no prolongar do ciclo de violência. Ainda assim, é um risco que se deve assumir… quando o maior crime é permitir que o culpado fique impune”).

Não consigo decidir se concordo ou não com esta citação, mas uma coisa é certa: Revenge é uma jornada de vingança e esta frase resume na perfeição aquilo que a série é. Emily não passou precisamente o tempo todo a tentar encontrar os responsáveis pela morte do pai e a puni-los por isso? Sim. E não prejudicou e magoou pessoas inocentes pelo meio? Sim. Deveria ter estado quieta e viver simplesmente a vida dela? Não sei. Nalguns casos, talvez a impunidade dos culpados seja o pior dos crimes; mas noutros, talvez seja preferível deixar as coisas como elas estão. Passei muito do tempo de Revenge a não gostar de Emily e a criticar seriamente as suas ações, mas no final senti-me inclinada a torcer por ela. Continuo a questionar muitas das coisas que fez, embora ache que consegui finalmente entender o porquê e o lado dela. No entanto, continuo indecisa acerca do prolongar do ciclo de violência e do permitir que os responsáveis fiquem impunes. Talvez fosse boa ideia chamar para aqui a Jessica Jones para resolver este dilema moral porque eu não sou capaz. Acho que é uma daquelas questões para as quais não há uma resposta certa ou errada.

nomi amanita“For a long time, I was afraid to be who I am because I was taught by my parents that there’s something wrong with someone like me. Something offensive, something you would avoid, maybe even pity. Something that you could never love. I was afraid of this parade because I wanted so badly to be a part of it. So today, I’m marching for that part of me that was once too afraid to march. And for all the people who can’t march… the people living lives like I did. Today, I march to remember that I’m not just a me. I’m also a we. And we march with pride.” (“Durante muito tempo, tive medo de ser quem sou porque fui ensinada pelos meus pais que há algo de errado em alguém como eu. Algo ofensivo, algo que se evitaria, talvez até de que se tivesse pena. Algo que nunca se poderia amar. Tinha medo desta parada porque queria muito fazer parte dela. Portanto, hoje, marcho por aquela parte de mim que outrora tinha demasiado medo para o fazer. E por todas as pessoas que não podem marchar… as pessoas a viver vidas como a que eu levava. Hoje, marcho para me lembrar de que não sou apenas eu. Também sou um nós. E nós marchamos com orgulho”).

Foram frases como esta que me fizeram apaixonar um bocadinho por Sense8. Digo um bocadinho porque esta não é nada daquelas séries de que costumo gostar e não liguei nenhuma à história das maioria das personagens, mas adorei Nomi e sua storyline desde o primeiro momento e foi muito por ela e por Amanita que continuei a ver até ao fim. Tudo nesta frase me arrepia. Primeiro, porque coisas como estas me fazem ser uma grande defensora dos direitos das minorias. Que sentido é que faz discriminar os outros, só porque são vistos como diferentes, quando podíamos aprender a aceitar que a diferença está apenas nos olhos de quem a vê? Como é que aqueles pais não foram capazes de amar a filha como ela é? É impossível não adorar Nomi! Como é que uma pessoa viver a sua própria vida, sentindo-se bem com aquilo que é, pode ser uma ofensa para alguém? Porque é que uma sociedade tão centrada no ‘eu’ se preocupa tanto em minar a vida de outros? Eu vejo isto como um contra-senso! Era tão bom se pudéssemos ter um mundo em que qualquer pessoa fosse livre para marchar numa parada, mas há ainda tantos países onde ser gay ou trans é crime! Para essas pessoas, marchar é um impossibilidade, mas há outras que têm a liberdade física para o fazer, mas que – limitadas por ensinamentos como os que Nomi sofreu às mãos dos pais – ainda assim não são capazes porque não aprenderam a aceitar-se. Bottom line, acho que esta frase pretende passar a ideia de que há sempre alguém que já passou ou está a passar pelos mesmos problemas que nós e que por isso nunca estamos realmente sozinhos.

  June“Now I’m awake to the world. I was asleep before. That’s how we let it happen. When they slaughtered Congress, we didn’t wake up. When they blamed terrorists and suspended the Constitution, we didn’t wake up then, either. Nothing changes instantaneously. In a gradually heating bathtub, you’d be boiled to death before you knew it”. (“Agora estou acordada para o mundo. Dantes estava adormecida. Foi assim que deixamos que acontecesse. Quando chacinaram o Congresso, não acordámos. Quando culparam terroristas e suspenderam a Constituição, aí também não acordámos. Nada muda instantaneamente. Numa banheira gradualmente aquecida, ficar-se-ia cozido até à morte antes de se dar por ela”).

Enquanto via The Handmaid’s Tale, fui-me perguntando várias vezes como é que os americanos tinham permitido que Gilead nascesse. Suponho que a resposta esteja em parte desta citação. Tudo aconteceu de forma gradual e quando atingiu um certo ponto, já não havia volta a dar. Também pensei várias vezes que deve ter sido assim durante a Alemanha de Hitler. A perseguição aos judeus, por exemplo, esteve sempre presente, mas foi subindo de intensidade à medida que os nazis gozavam de mais poder. Diz-se que nunca aprendemos com as lições que a História nos dá e parece que é verdade. Aqui na série, quando as mulheres começaram a ficar sem empregos ou quando o seu dinheiro passou para o nome dos maridos, como é que ninguém acordou? Não nos é feita uma referência temporal, mas trata-se claramente do século XXI, portanto, como é que num país ocidental democrático a população assiste a todas estas mudanças sem realmente acordar? Até porque a chacina do Congresso parece-me um balde de água fria suficiente para despertar até os mais distraídos. A verdade é que Gilead surgiu, substituindo os Estados Unidos como o mundo os conhecia. No entanto, para cada sistema ditatorial nasce um movimento de resistência e também ele está a surgir aqui. June está bem acordada e já começou a lutar. Resta saber se serão os bons a vencer esta batalha.

Lançadas as duas crónicas, querem partilhar connosco as palavras das séries que mais vos marcaram?
Diana Sampaio