O mundo não é o mesmo de há algumas décadas atrás e acho que é mais do que justo afirmar que as séries não são alheias a essa mudança. Para já, de uma forma muito geral, deixámos de ver as séries apenas na televisão e cada vez recorremos mais ao computador para vermos os nossos episódios. A verdade é que o tamanho dos ecrãs vai diminuindo, com os tablets e os telemóveis, e nos últimos tempos têm sido imensas as novidades da Quibi, uma nova plataforma com conteúdo original especialmente concebido para ser visto nos aparelhinhos que nos acompanham para todo o lado e que desde há muito deixaram de servir apenas para enviar mensagens e receber chamadas.

No entanto, não é da evolução tecnológica acerca da forma de ver séries que quero falar. Já andava a matutar – novamente – há algum tempo na importância que o movimento Time’s Up e #MeToo tiveram e o seu impacto nas mais variadas esferas da sociedade e dei por mim a pensar em algumas séries e personagens em específico que gozaram de muita popularidade na sua altura e que não sei se seriam recebidas da mesma forma nos dias de hoje.

Um dos casos mais flagrantes de que me lembrei foi Gossip Girl. Vi a série durante muito tempo, mas tive sempre um problema com os personagens principais, que eram tudo menos relatable e vários deles irritavam-me ao máximo. Blair e Chuck eram, em grande parte, os preferidos dos fãs. Tenho uma amiga que os adora e, pela internet fora, as pessoas também parecem achá-los especiais. Sempre detestei os dois, mas admito que há bem mais razões para o odiar a ele. Quer dizer, Chuck não é um violador? No primeiro episódio ele não tenta violar Serena e Jenny? Quando, em 2007, a série estreou, a violação e a tentativa já eram crimes nojentos, mas os fãs pareceram querer arranjar lugar nos seus corações para perdoar Chuck. Gosto de acreditar que, se a série tivesse sido criada para agora, um personagem como Chuck não poderia existir. Não da forma como o conhecemos, pelo menos. Teria de ser um vilão e não apenas um anti-herói e não poderia ficar com a miúda, porque tudo o que um tipo destes merece é ir para a prisão e não ter um monte de amigos à volta dele que fecham os olhos a todos os seus comportamentos inapropriados.

Outra série de que vale a pena falar é Pretty Little Liars. Ainda vi alguns episódios – não muitos, acho que não fui para além da 1.ª temporada completa -, mas perdi a paciência para certas séries de adolescentes. No entanto, PLL é daquelas séries badaladas sobre as quais se fala constantemente, portanto uma pessoa quase sente que nunca deixou de a acompanhar totalmente. Uma das personagens principais da série, Aria, tem uma relação com um professor. Os dois conheceram-se antes de saberem que seriam aluna e docente, mas depois de terem descoberto, teria sido uma boa altura para pararem. Se se tratasse de uma relação entre um professor e uma aluna universitária seria uma coisa, mas Aria é uma adolescente do liceu e ele um adulto. Aria tinha que idade nessa altura? 15, 16 anos? Estive a investigar e a idade legal para consentimento em termos sexuais é de 16 anos no estado da Pensilvânia, onde se passa a série, mas mesmo não sendo ilegal, seria desadequado. Quantos pais não quereriam partir a cara do(a) professor(a) que se envolvesse com o(a) filho(a)? Até porque não se trata apenas de uma questão de idade, mas de não se estar em pé de igualdade, à semelhança da relação entre um funcionário e o patrão, em que um detém um certo poder sobre o outro. Uma relação como esta teria acabado com os dois juntos se tivesse sido criada nos últimos dois ou três anos?

Para terminar esta parte, Mark Sloan, de Grey’s Anatomy, veio-me também muitas vezes à mente. Confesso que ele sempre foi dos meus personagens favoritos da série e continuo a adorá-lo – tenho carinho enraizado por ele – quando revejo episódios antigos. No entanto, sou completamente ciente de que muitos dos seus comportamentos se caracterizam como assédio. Izzie Stevens disse-lho – pelo menos uma vez – e muito bem. Ele fazia muitos comentários que eu não gostaria que me fizessem e que me deixariam zangada. Se tivesse começado a ver a série agora estou certa de que não lhe acharia tanta piada. Nem sei se ele agora faria o mesmo sucesso junto do público feminino, no geral. Aqui há uns anos, muito poucos, a generalidade das pessoas não achava que mandar piropos, fazer piadas de cariz sexual ou comentários sobre órgãos genitais tivesse nada de mal, mas agora já não se encara as coisas da mesma maneira.

No entanto, se em muita coisa a sociedade está a mudar para melhor, penso que, noutras questões, também estamos a cair num exagero. Queremos liberdade para falar de todo o tipo de temas e vê-los abordados, mas depois criticamos a forma como as histórias são contadas. E não, não quero falar das críticas feitas à última temporada de Game of Thrones, mas sim da decisão da Netflix de editar (ou cortar, como acho mais junto chamar-lhe) a cena do suicídio da personagem principal, Hannah Baker, em 13 Reasons Why.

Como qualquer decisão polémica, também esta gerou logo uma grande discussão na internet entre aqueles que concordam e discordam. Também nós, dentro da equipa, discutimos o assunto, com diversidade de opiniões. Eu estou do lado dos que discordam da decisão. Não sou insensível ao suicídio, tal como não sou insensível a outras temáticas de cariz polémico, como o aborto, a eutanásia ou o abuso sexual, mas sou da opinião que esta censura não faz sentido. Não é deixando de mostrar a realidade ou de falar dela que as coisas deixam de acontecer. Aliás, falar sobre as coisas é importante, desde que se acrescente alguma coisa à discussão. E a verdade é que 13RW acrescentou algo ao tema do suicídio.

A série não se trata, em nada, de uma glorificação do suicídio. Não consigo ver isso em nenhuma altura e muito menos nos derradeiros momentos de Hannah. A cena é de partir o coração, mas é tudo menos uma ode ao suicídio. É crua, terrivelmente triste e representa o fim do sofrimento de Hannah, mas é o início do sofrimento dos pais. Não me consigo esquecer da mãe a dar com ela morta, numa banheira cheia de sangue. É quase tão triste como a morte em si! Quanto muito, vejo a série como um alerta de que todos devemos ser melhores com as pessoas que passam por nós na vida porque nunca sabemos a diferença que podemos estar a fazer na vida delas. E é uma série sobre o suicídio de uma jovem, por isso até que ponto faria sentido não mostrar a forma como tal aconteceu? Se tivesse havido a decisão criativa de não fazer aquela cena, tudo bem, mas depois de esta ter sido filmada, lançada e vista, faz mesmo sentido estar a retirá-la? Ainda para mais tendo em conta os muitos avisos feitos pela Netflix acerca do conteúdo sensível da série?

Cada um decide o que quer ver ou não e a Netflix não é algo com que nos deparemos por acidente. É preciso subscrever, pagar a mensalidade e seleccionar o que ver. Não se encontra acidentalmente como um filme que está a passar na RTP1 quando se muda de canal. Até porque no mundo das redes sociais, da dark web e do YouTube, haverá muito conteúdo bem mais chocante à distância de um clique do que um suicídio fictício. E onde é que se estabelece a linha entre o que se deve ou não mostrar? Cada um de nós tem níveis diferentes de sensibilidade. Aquilo que a mim me choca pode não ser nada de especial para outros. Isto é quase como culpar os jogos de computador violentos pelo aumento da criminalidade. Os telejornais também estão repletos de violência – o que é pior que o terrorismo, homicídios, violência doméstica ou pedofilia? – e o que podemos fazer? Alienarmo-nos da realidade não é solução. Oxalá deixar de mostrar violência ou falar sobre ela fizesse com que esta fosse apagada do mundo, porque assim saberíamos que é fácil acabar com ela. A história de Hannah Baker é ficção, mas certamente muitos de nós poderiam encontrar pequenos pedaços da nossa história na dela, portanto é tão legítima de ser contada como outra qualquer.

Acho que agora há muito uma tentativa de se ser politicamente correto que nem sempre faz sentido. Toda esta situação de 13 Reasons Why me faz lembrar de quando ocorrem ataques terroristas ou eventos violentos no mundo real e então decidem editar/cortar cenas de episódios de séries ou adiar/descartar a sua transmissão como forma de evitar traumatizar os espectadores. Passaram muitos anos sobre o 11 de setembro e não creio que o tempo tenha ajudado a esquecer o que aconteceu, por exemplo. Não sou americana e ainda não tinha onze anos quando ocorreu, mas ainda me lembro daquelas pessoas a atirarem-se, em desespero, das Torres Gémeas rumo à morte, para fugirem ao fogo. Os telejornais não falaram de outra coisa durante dias e não se falou do ‘efeito gatilho’; há a necessidade de informar e dar a conhecer o que aconteceu. Porque é que esta preocupação de traumatizar só recai sobre a ficção? Os telejornais são traumatizantes, já me puseram a chorar.

Acho que devemos ser livres de escolher o que queremos ver ou não e que os argumentistas, realizadores e produtores de uma série devem ser livres de criar o seu produto da forma como o conceberam. Há um sistema de classificação que determina a idade adequada para se ver uma série ou um filme e, quando se tratam de miúdos, acho que cabe também aos pais decidir o que os filhos têm ou não maturidade para ver. Quanto a nós, adultos, cabe-nos também avaliar aquilo que somos ou não capazes de ver sem que isso afete as nossas vidas negativamente. Sei que esta decisão da Netflix não é censura pelo prazer de censurar, mas sim uma forma de proteger certos espectadores que possam ser sensíveis à temática do suicídio, mas a sensação que dá é que se deixaram levar pelas críticas e não que tenham tomado uma decisão por consciência própria.

Diana Sampaio