Classificação

8
Interpretação
5
Argumento
6
Realização
5
Banda Sonora

Uma adaptação que aparenta não ser muito fiel à obra original em que se baseia, mas sim uma versão mais moderna da história. NOS4A2 conta a história de Vic McQueen (Ashleigh Cummings), uma jovem artista que descobre que tem uma habilidade sobrenatural capaz de localizar Charlie Manx (Zachary Quinto), um vilão aparentemente imortal que se alimenta das almas de crianças, depositando o que delas sobra na Natalândia (Christmasland), uma aldeia natalícia onde é sempre Natal e a infelicidade não é permitida.

Tinha-me proposto a ler o livro antes de começar a ver a série, mas falhei redondamente nesta missão. Quando vi o primeiro episódio tinha lido apenas 214 páginas de um livro de quase 700 e já estava à espera de que a narrativa da série não seguisse a mesma ordem da do livro, pois este tinha alguns flashbacks. Bem dito, bem feito. Além de a narrativa da série não seguir a mesma ordem, também há bastantes elementos diferentes dos do livro. Por exemplo, no livro temos interlúdios, que nos vão apresentando algumas personagens, enquanto aqui entramos logo no espaço da narrativa atual. No livro vemos uma Vic McQueen com 13 anos, se não me engano, enquanto na série, tudo o que acontece no livro quando ela tem 13 anos, acontece aqui com 18. Outra diferença é a mudança de locais e de acontecimentos. Vic conduz uma mota para passar a Ponte Atalho (Shorter Way Bridge), enquanto no livro é uma bicicleta. O nome do diner onde jantam também é diferente, etc…

Ao fazer a análise a este episódio é impossível não fazer estas comparações com o livro. Quando vi estas diferenças todas fiquei um bocadinho de pé atrás, visto estar a adorar o livro. Mas, no decorrer do episódio, vi que a série tinha potencial. É óbvio que temos aqui uma modernização da história escrita em 2013, contudo a essência da mesma pareceu transparecer no primeiro episódio. Temos os problemas familiares da família McQueen e o Charlie Manx no seu famoso Rolls-Royce Wraith a conduzir até ao que se supõe ser a Natalândia. De todas as cenas do livro que já li até agora, a que achei mais interessante foi a cena do primeiro encontro de Vic com Charlie Manx e espero que não inventem nada diferente e que esta seja mantida igual. Gostei da intensidade de toda a cena e estou bastante curiosa para ver como irá ser adaptada ao pequeno ecrã.

O primeiro episódio apresentou-nos uma das personagens mais importantes da série, Vic McQueen, o ambiente que a rodeia, assim como as suas capacidades sem precisar de recorrer a flashbacks, como acontece no livro. Uma opção bem pensada se quisermos resumir a história e cortar nas despesas em termos de mais atores e cenários novos; em termos de história já não me convence tanto.

Adorei a cena final em que Daniel sorri e mostra os dentes. O miúdo ficou bastante sinistro. Estou curiosa para ver a evolução deste jovem ator ao longo da série. Também gostei bastante da prestação de Zachary Quinto como Charlie Manx. Apesar da personalidade maléfica de Manx, somos capazes de simpatizar com a personagem, o que pode ser ainda mais assustador, pois mostra-nos que é possível escondermos do mundo exterior o que temos de pior em nós. Aqui ainda não temos a noção da sua malvadez, mas creio que no futuro essa simpatia pela personagem desaparecerá e Quinto está à altura deste desafio.

Recorrendo a uma adaptação mais moderna do livro de Joe Hill, NOS4A2 dá-nos, no episódio piloto, uma base sólida para o que se adivinha ser uma série virada para os telespectadores e não para os fãs do livro, que poderiam querer uma adaptação mais fiel do mesmo. Tendo lido as tais 214 páginas, posso dizer estou a gostar mais da versão do livro do que o que este episódio me apresentou. O livro é muito mais cru, principalmente no que toca a Vic. Enquanto aqui a versão que nos é apresentada de Vic McQueen é muito mais semelhante à de uma adolescente comum – e foi-lhe arranjado um “namorado” bonitinho – , no livro a mesma personagem está bastante mais deteriorada devido ao consumo das drogas e do álcool e dos problemas familiares.

Resumindo, não conseguindo ser imparcial ao livro, parece-me que a história perde muito ao não explorar a narrativa da mesma forma que o livro o faz, deixando de fora a intensidade e brutalidade que lhe é inerente e privilegiando uma versão menos pesada. O que era uma estreia tão aguardada passou a mais uma série que poderá não passar da 1.ª temporada.

Cláudia Bilé